Elina
Finn é uma das pessoas mais reservadas que conheço, então, quando Went saiu da loja e ele me olhou com aqueles olhos azuis cheios de questionamento, eu sabia que ele queria uma explicação. Se fosse qualquer outra pessoa eu não me submeteria a explicar essa... situação um tanto esquisita — e quente, põe calor nisso — com o pai da minha melhor amiga, mas ele é o Finn, um amigo e uma das poucas pessoas que tenho na vida.
— Ele é o pai de Sophie. — É tudo o que quero dizer. Por favor, que ele não queria saber de tudo.
— Disso eu sei, Ely. Todos na cidade estão falando sobre ele. Mas, o que ele quis dizer com "poder ter você"?
Finn tem olhos azuis como o céu de um dia ensolarado, mas um traço tão delicado some em olhos afiados como o de um gato. É charmoso, mas sempre sinto como se ele conseguisse ver através da alma das pessoas. Esse pensamento provoca um arrepio na minha lombar.
— Dormir na casa de Sophie ontem, acho que ele quis dizer que sempre estou próxima para quando ele precisar de ajuda. — Que coisa feia, Elina. Você detesta que minta para você e não para de mentir. Que tamanha hipocrisia.
— Se não quer me contar, tudo bem. — Finn suspira levemente. Nunca conheci alguém tão calmo quanto ele. — Não tenho um bom sentimento sobre esse cara. Me faz um favor? Não se mete em encrenca, ok?
Ofereço a ele um sorriso gentil.
— Posso prometer tentar.
Finn balança a cabeça para os lados, como se ele percebesse que sou uma causa perdida. Ele se afasta, indo para o corredor de fios e cordas. Sei que ele tem a melhor das intenções, e me sinto bem em saber que tenho quem se preocupe comigo.
Nosso turno se encerrou uma hora depois e como Finn é responsável pelo caixa, eu faço o fechamento da loja sozinha. Hoje foi um bom dia de vendas, conseguimos vender todas as iscas vivas, mais duas varas de pescar e muitos artigos para quem tem aquários em casa. Billy, um garoto de pele preta e cabelos enrolados com grande solhos cor de mel tem um aquário de 80 litros em casa e sua visita na nossa loja e semanal.
Acho que um ponto positivo de morar em uma cidade minúsculas é que todos se conhecem. Mas isso logo cai para um ponto negativo, todos se conhecerem só contribui para a hiper valorização da fofoca. Outro dia Betty Nonez comprou um teste de gravidez na farmácia e ela só tem dezesseis anos. Mickey — o dono da farmácia — é sempre visto entrando no bar's club da cidade e só sai de lá quando o sol nasce.
Mil e uma fofoca, e sabe o que é pior?
Minha adorável mãe é uma das líderes da quadrilha. Acho que quando se faz o curso de manicure ou cabeleleiro você ganha um curso extra em espalhar informações sobre a vida alheia.
— Soube que Carl comprou duas cartelas de viagra na farmácia? — Pergunta Finn enquanto saímos da loja, para fecha-la de vez por hoje.
— Primeiro, eca. Segundo, isso não é perigoso?
— É sim, mas pra quem tá namorando a Viola Mattwes não me surpreende que ele queira ficar...
— Duro?
Finn congela, e suas bochechas ficam vermelhas. Ter crescido com a sua avó e frequentado a igreja deixou meu colega de trabalho um tanto...recluso. Piadas envolvendo sexo perto dele sempre perde a graça.
— Sim, é isso mesmo. — Ele olha para os lados, e eu faço o mesmo.
Ah, merd@. Pelo visto minha promessa de tentar não se meter em encrenca vai por água abaixo. Ele esperou. Went Sharpigan está do outro lado da rua, em seu Chevrolet preto, como ele disse que estaria.
— Eu vou indo. — Digo a ele, esperando que ele entenda a deixa.
— Eu também, até amanhã Ely.
Nós separamos em frente a loja, eu vou para a esquerda e ele para a direita, porque por mais que essa drog@ de cidade seja pequena, ainda há os bairros de elite e Finn mora em uma casa bonita — como a de Sophie — com gramado, garagem e principalmente sua avó Amélia, que é como uma mãe para ele.
Por que eu sou assim? É tão fácil sentir inveja de quem tem o que eu nunca tive e nem vou ter. Não é como se meus pais fossem começar a se importar da noite para o dia.
Caminho com passos largos até o carro de Went. Dentro dele, ele está lendo páginas de um relatório com a ajuda da luz do teto. Sua atenção cai sobre mim assim que me aproximo, mas ele não sorri como de costume, pelo contrário, ele parece bem irritado.
— Entre, vou te deixar em casa. — Ele coloca os papéis no assento de trás e desliga a luz do teto.
— Não precisa, eu consigo ir andando.
— Você não entendeu, anjo? Vou ser claro com você. Entra da drog@ do carro e eu te deixo em casa. — Seu tom não é autoritário, mas sim um blefe, um desafio. Ele está me desafiando a fazer o contrário.
— Se não o quê?
— A questão não é o que vou fazer mas sim como vamos resolver isso. Quer que eu te coloque no colo e te coloque aqui dentro?
Olho no fundo dos olhos dele, agora sombrios pela falta de iluminação, e então estreito minhas pálpebras.
— Você não teria coragem.
— Quer apostar para ver?
Sinceramente? Eu quero sim. Não vou entrar no mesmo carro que ele — sozinha — sem que seja minha última alternativa. Nada de bom pode acontecer se eu entrar lá, se eu ficar confinada com ele, tão perto e tão...
Disparo para longe, seguindo o caminho que eu faria se fosse para casa. Ouço uma porta se abrir e então apresso o passo, ando tão rápido que estou quase correndo, minhas panturrilhas protestam com o esforço e meu coração bate forte.
Uma mão segura meu braço e me puxa forte para trás. Meu corpo é erguido sobre um ombro e meu rosto fica para as suas costas. Me debato, tentando me livrar se seu aperto, mas nada o faz me soltar ou parar. Ele se aproxima do lado do passageiro e abre a porta. Went me coloca no chão e é rápido em me empurrar para dentro antes que eu saia correndo novamente.
— Você é tão teimosa, porr@!
Eu poderia começar a gritar, poderia acusa-lo de sequestro. A porta do carro se fecha e eu assisto enquanto ele da a volta no veículo para entrar pela porta do motorista.
O carro tem cheiro de Went e isso não me ajuda em nada. Nós dois no escuro do carro me faz criar borboletas no estômago e algo entre as pernas acordar.
— Você é um brutamontes!
— Ah, anjo, me chame do que quiser, mas eu te avisei que faria. Agora seja uma boa mocinha e coloque o sinto.
Não faço, não vou ceder e não vou obedecer. Não posso fazer isso com Sophie, não posso me deixar cair na tentação. Ele emite um ruído com a garganta e no segundo depois suas mãos estão ao meu redor, puxando o cinto e me prendendo. O cheiro dele açoita meu olfato e é puro prazer. É uma mistura de suor e perfume com lição pós barba. Sinto vontade de passar a língua por sua pele, de prova-lo.
Jesus, o que estou fazendo?
Os olhos de Went deslizam para a minha boca. Minha garganta seca, e eu quase me inclino para frente. Uma parte selvagem da minha mente diz "Me beije" e porr@, como eu quero.
— Que menina mentirosa e teimosa. Disse que não sentia nada por mim.
Engulo em seco. Que minha voz não falhe, que ele não perceba o quão mexida estou.
— E não sinto.
— Aposto com você que se eu colocasse meus dedos em sua calcinha ela estaria ensopada.
— Não tem como provar, policial. — Digo baixinho, mas firme, sem falhas ou demonstração do caos que estão meus nervos.
Seu rosto se aproxima do meu e com esse simples movimento meu coração palpita. As mãos de Went deslizam para as minha coxas e as apertam tão forte e tão cheiro de uma possessividade que eu perco a linha do raciocínio. Se não fosse a calça jeans eu já teria deixado que ele me tocasse, que ele confirmasse a umidade em minha calcinha. Nossos narizes se encostam e seu hálito aquece meus lábios.
— Diga. — Ele diz baixinho.
— Dizer o quê?
— Diga que mentiu.
Sorriu, porque a ideia de ele querer uma confissão é um tanto hilária.
— Não menti, não sinto nada por você.
Uma de suas mãos vai ao meu queixo e ele lixa minha cabeça para cima. Nossos lábios se encontram em um selinho demorado, mas ele corta a conexão rápido demais e me deixa ao frio. Um sorriso malicioso se abre nos lábios dele, e seu polegar acaricia meus lábios.
E seu eu...
Se controla, Elina! Não é porque você está em chamas que vai ceder tão fácil. Pense em Sophie, ela é sua única família, é tudo o que você tem além de Otis. Foi Sophie quem sempre me ajudou, ela é como uma irmã para mim e como vai ser para ela descobrir que eu quero...
Que eu quero deixa-lo entrar?
— Quando cansar se lutar contra isso, estarei esperando.
Went se afasta, se ajusta no banco e então coloca o cinto de segurança. Ele liga o carro e então dá a partida. Nós primeiros minutos não quero falar nada, quero apenas me concentrar em me recuperar e tentar não pensar que o cheiro dele é insuportável, ou que ele está perto demais.
— Sophie disse que você tem um irmão, quantos anos ele tem? — Went pergunta, anulando o silêncio.
— Quartoze anos. É um bom menino.
— Ele é tão determinado quanto você?
— Espero que sim. A vida não permite moleza, ou descanso.
— Como assim?
Viro o rosto para ele. Went olha para mim de soslaio e então para a pista. A última coisa que queremos é atropelar um veado por estarmos mais interessados em olhar um para o outro.
Não que eu esteja interessada em ficar olhando para ele.
— Alguns de nós não tem o privilégio de poder estudar, ou de escolher quem quer ser. Nós só temos que sobreviver, pelo menos por alguns anos.
Um vinco se forma no meio da testa de Went quando ele franze as sobrancelhas.
— Otis ainda é uma criança, ele deveria se preocupar com jogos de futebol ou garotas e não em sobreviver.
Mas ainda assim, mesmo que eu queria que meu irmão tenha as oportunidades que eu nunca tive, ainda é difícil pensar em como vamos estar em alguns anos. Não dá pra morar no porão para sempre, e eu sou a única que se preocupa com os estudos dele. Se as coisas fosse diferententes, se meus pais não fossem quem são, talvez nós teriamos a chance de realmente viver. Mas isso é só uma ideia, a realidade é bem diferente e Went não precisa saber disso.
— Você tem razão. É que as vezes eu sou muito preocupada.
— Preocupação demais faz m*l. — É um conselho e um aviso.
— Diz o homem que passa a noite em meio ao trabalho.
— Só que eu tenho idade e motivo para estar preocupado.
— Ah, então eu não tenho idade para me preocupar com o futuro mas tenho para você poder me comer?
Uma risada, linda e encorpada, que me arrepia os pelos do braço e só aquece ainda mais entre as minhas pernas, soa por entre seus lábios. Fico anestesiada diante da leveza de sua gargalhada, e quando ele se recupera, fala:
— Que boca suja, anjo. — Não é uma repreensão, mas sim um especie de elogio. — Mas, o que eu quero dizer é que você deveria estar preocupada com vestibular e faculdade e não com sobrevivência.
Ah, Went, se você soubesse que venho sobrevivendo desde o momento que nasci, você entenderia.
— Vai mandar Sophie para a faculdade estadual?
— Sophie quer fazer bolos e cupcakes. Existe faculdade para isto?
— Gastronomia, ou quem sabe um curso de confeitaria? Ela adora tudo isso.
— E eu não sei? Ela me manda as fotos de todos os bolos e doces que ela prepara.
— É porque ela quer que você saiba do que ela gosta, do que ela escolheu para ela. Sophie so fala de você, sabia?
Novamente, ele olha para mim pelo canto do olho. Mantenho seu olhar, mesmo que só dure um instante.
— Vocês são muito amigas, não são?
— Sim, o bastante para eu pensar suas vezes antes de cair no seu charme.
— Ahhh. — Um sorriso malicioso curva seus lábios. — E eu sou charmoso? Me diga, anjo, o que em mim é atraente para você?
Reviro os olhos e no segundo seguinte há uma não segurando meu queixo. Ele puxa meu rosto levemente para frente.
— Revirar os olhos é uma tremenda falta de educação. Você não tem modos, anjo?
— Você não é meu pai, Went, não pode me dizer o que fazer.
— Ainda bem que não sou, cairia em pecado com tantos pensamentos sórdidos que tenho com você. — Ele solta uma piscadela, brincando comigo.
— Ah, sei que tem. — Percebo a proximidade que estamos com a minha casa, então peço para que ele pare. — Pode parar aqui. Se meus pais me verem chegando com você eu vou ter problemas.
— Tem certeza?
— Tenho, sim.
Went estaciona o carro no acostamento e desliga as luzes do farol. Tento a fivela do cinto, mas ela não se move.
— Me deixa ajudar. — Went trabalha no feixo, e só depois de muito esforço e forçar a fivela a sair que fico livre. — Acho que quebrei.
E cá estamos nós de novo, tão próximo que consigo sentir a respiração dele sob a minha pele. Seus olhos azuis profundos estão nos meus, conectados como imãs. É tão... diferente. Nunca me sentia assim como ninguém. Não é só atração, ou uma paixão... é algo que nunca experimentei antes. Mas não sei dizer o que é.
— Mereço um beijo de despedida, não acha?
— Você já roubou um, não está satisfeito?
— De você? Anjo, não sei se um dia vou ficar satisfeito com você. — Ele acaricia meu rosto com seus dedos quentes. A carícia é uma delícia e me arrepia ao mesmo tempo que me acalma. — Mas agora eu roubei um de você, estou cansado de só eu correr atrás. O que acha de vir até mim pelo menos uma vez?
Me aproximo dele até nossos narizes se tocarem. Nossas bocas estão a centímetros uma da outra, mas não o beijo. Abro a porta e me espremo até a saída. Confusão e uma pitada de raiva ilumina os olhos de Went.
— Hoje não, Went. Mas, quem sabe?
Vou caminhando pela estrada, mas consigo ouvi-lo gritar de dentro do carro:
— Elina sua filha da...
Sorriu comigo mesma. Eu não me divertia assim em meses. Foi bom enquanto durou, pelo menos esses dez minutos que passamos na penumbra de seu carro me fez esquecer o que eu tenho em casa.
Quando entro pela passagem do porão, encontro Otis em posição fetal em minha cama, chorando aos soluços. Largo tudo no chão e corro até ele.
— Otis, o que foi?
— Nada,Ely. — Ele diz baixinho.
Acaricio seus cabelos. Meus coração está tão apertado que me sinto desesperada. Não sei o que fazer e não sei o motivo dele estar assim.
— Eles fizeram algo com você?
Ele não responde.
— Me promete uma coisa,El? Vamos embora daqui. Não aguento mais isso.
As lágrimas transbordam de meus olhos, e há dor e tristeza onde tinha alegria e diversão até minutos atrás. Me deito ao lado de meu irmão na cama, e faço carinho nele até que adormeca.
A cada dia que passo é como se a data limite de estarmos sob o teto de nossos pais estivesse chegando ao fim. Otis está certo. Já passou da hora de irmos embora, mas para onde é o que me preocupa. Tenho minhas economias, mas aluguel e gás e alimentação é um custo muito alto.
Por um breve instante uma ideia vem a minha mente. Uma ideia maluca junto com a lembrança de um comentário que ouvi de um cara da escola. Garotas virgens cobram mais caro pra quem quiser lhes tirar a virgindade. Eu só precisaria ir para Atlanta e tentar encontrar alguém interessado.
Mas eu teria coragem de me deitar com um desconhecido por dinheiro?
A reposta está agarrada em meu corpo. Pelo meu irmão e seu futuro? Não há sombra de dúvidas. Se for necessário, se está for a minha última opção, tudo bem.
Agora tudo o que importa é sairmos dessa inteiros e de preferência para um lugar melhor.