Went
Na faculdade eu era conhecido como "O Galinha de Atlanta", e é um tanto obvio o motivo de me chamarem assim. Eu nunca me apaixonei de verdade, nunca senti as borboletas no estômago, ou o coração palpitando, então eu não me prendia a ninguém. Meu único e mais duradouro relacionamento foi com Mirian — a mãe da minha filha Sophie — e durou apenas dois anos.
Então, se eu não me conhecesse tão bem, diria que enlouqueci. Não é possível acordar de manhã pensando em alguém, ou conseguir ouvir suas voz nitidamente durante uma pensamento. Há borboletas em meu estômago sempre que ela sorri e isso...
Isso é assustador, mas não consigo parar de ir até ela. A voz em minha cabeça me lembra que não sou esse tipo de homem, que para mim sexo é bom mas relacionamento "é demais". O que eu posso oferecer a ela além de sexo?
Ela ainda é jovem, deve sonhar com alguém para chamar de seu, casar e ter filhos. Não acho que um homem de trinta e sete anos vai ser bom para a vida dela.
Desvio o olhar para o relatório em minha mão. É a terceira vez que eu o leio e toda vez espero encontrar algo diferente. Minhas férias estão chegando ao fim e me preocupa retornar ao trabalho sem ter algo para investigar.
Renan ainda estará sob custódia quando eu voltar, seus irmãos e irmãs, seus pais e avós ainda estaram em agonia. Merd@! Por que eu sinto que tudo isso está tão errado?
A porta principal da casa se abre e ruídos femininos são ouvidos. Sophie e Elina entram na sala e a morena é a primeira a nortar minha presença.
Minha filha vem até mim, dabdo a volta no sofá para me dar um beijo na bochecha.
— Oi paizinho, já almoçou?
— Eu sim, e vocês?
De trás de mim, escorada sobre as costas do sofá, Elina diz:
— Deixe de enrolar e pergunte logo. — Diz ela, encorajando Sophie.
As bochechas da minha filha ficam vermelhas com tomate. Viro o rosto para olhar para Elina. Ela está tão próxima. Isso seria proposital? Ah, estou agindo como um débil novamente.
— No que você vai meter a minha filha dessa vez?
— Rá, você acha que eu sou a influenciadora aqui? Tem que ver a forma como ela me ameaça a fazer o que quer. — Elina estreita os olhos para Sophie.
— Eu não ameaço você! Eu peço com jeitinho. — Diz Sophie, naquele tom doce e infantil que sempre a faz parecer uma criança.
Elina deveria ser assim também, não deveria? Infantil e cheia de sonhos? Ela acabou de fazer dezoito mas sua atitude e maturidade são de uma mulher feita e vivida. Ela não é nada como deveria ser. É linda, isso sim, e tem um cheiro...
Foco, Went. Nao vai querer ficar de p@u duro na sala de casa.
— Diga a ele o que me pediu. — Incentiva Elina.
— Eu quero ir a festa da fogueira. Elina vai comigo então não precisa se preocupar.
— E o fato de Elina ir com você altera o fato de você querer ir para o meio da floresta com adolescente que só pensam em sexo e drogas?
— É, eu quero. Não é como se eu fosse usar nada e Elina sabe nos proteger.
— Ah, ela sabe?
Olho para a morena bem a tempo de vê-la revirar os olhos. Um dia eu ainda faço ela se arrepender de revirar os olhos para mim.
— Ninguém vai se meter com a gente, pai. Por favor, me deixa ir.
Sou sempre a favor de deixar Sophie aprender a viver por conta própria, claro que sempre com supervisão. Mas acontece que não me agrada nada pensar em uma certa garota de nariz empinado se esfregando em algum muleque loiro.
Ah, não sei não. Mas minha prioridade sempre vai ser Sophie e o que ela quer. Eu mesmo posso ir até lá só para garantir que elas estão bem — na sordina, é claro, para não fazê-las pagar mico.
— Sem drogas, e se chegar bêbada em casa é melhor que não acorde a sua mãe.
Minha filha pula do sofá e se joga sobre mim, me abraçando.
— Valeu paizinho, você é o melhor!
— Eu sei que eu sou.
Ela se afasta, dando a volta novamente ao sofá.
— Vem Ely, vamos nos aprontar. Vou maquiar você e vai ficar lindo!
Ah, já estou me arrependo amargamente disso, as, deixe as garotas aprontarem. Nós temos apenas um vida, então temos que fazer valer a pena.
{•••}
Elina
A saia de tecido floral que Sophie me emprestou é tão pequena que terei problemas ao me sentar. Coloquei um suéter rosa largo por cima, para me aquecer e ter algum tecido cobrindo o meu corpo. Não costumo usar rosa, e também não uso maquiagem — porque nunca tive o luxo de poder comprar — então tudo é novo para mim. Mas, gostei de como as minhas maçãs do rosto ficaram coradas e de como o gloss hidratou meus lábios.
De repente não sei quem vejo de frente ao espelho. Uma garoto bonita, muito bonita, de olhos castanhos como amêndoas, cílios cheiros e longos e uma boca pequena e não muito carnuda. Não parece eu, mas sei que é.
— Viu, eu te disse. Você deveria investir em um pouco de maquiagem, vai te fazer bem.
Talvez sim, talvez não. Gosto do meu rosto sem todos esse cremes, mas não posso deixar de concordar que estou diferente.
— Tô faminta, posso pegar algum biscoito na cozinha? — Pergunto a Sophie. Em uma língua alien enquanto ela passa batom em seus lábios, ela meio que diz "claro que pode".
Saiu do quarto e desço as escadas. Eu com certeza vou ter problemas com essa saia, mas está bonito e não quero mudar. Na cozinha, o cheiro de café é irresistível. Está é mais uma das coisas que nunca me dei ao luxo. Café é caro, pelo menos caro para meus pais comprarem, ou é isso que dizem. Mas, acontece que dar seis dólares em um litro de café pronto é muito diferente de poder fazer na chaleira, fresco e aromático.
— Hum. Isso está cheirando bem.
Went olha brevemente para mim por cima do ombro.
— Você gosta de café?
— Gostar é apelido, trabalhar e estudar requer muita energia. Meio que eu não consigo viver sem.
Me aproximo do armário suspenso, abrindo uma das portas. Sophie é viciada em fazer cookies então sempre tem potes disponíveis. Minhas opções de hoje são biscoito amanteigado e cookies com gostas de chocolate. Hum...biscoito amanteigado é o par perfeito para uma xícara de café quentinho. Pego o pote e quando me viro na direção da mesa encontro Went com os olhos desesperados em cima de mim.
— Me diga que não vai sair vestida assim. — Ele diz, a voz assombrada.
— Eu vou sim, está feio?
— Você se olhou no espelho? Porr@, Elina. Não me faça voltar atrás com a minha decisão.
Franzo o cenho, confusa. O que ele está dizendo? Eu não estou entendendo. A roupa está r**m? É a maquiagem?
— Eu me sinto bonita assim.
— Bonita? Está... de tirar o fôlego. Este é o problema, não vê? Os idiotas vão cair em cima de você.
Ah, então é isso? Como eu vou dizer a ele que ninguém quer ficar com a Elina Moore por causa dos pais dela? Todos nesta cidade conhecem Klaus e Margareth Moore, sabem o que acontece dentro das paredes da minha casa.
Ninguém em sã consciência vai querer se meter comigo.
— Não deveria se preocupar comigo, espere até ver o vestido que Sophie está usando.
Coloco o pote de biscoito a mesa. Went se aproxima de mim com a garrafa térmica em mãos. Pego as xícaras de dentro da baixo de inferior do armário. Went me serve uma xícara quente de café e compartilhamos os biscoitos.
— Está usando o perfume de Sophie? — Ele pergunta, um tanto intrigado.
— Ela me emprestou. Temos o costume de dividir as coisas.
— Hum, o seu é melhor.
— Eu não uso perfume, gênio.
Ele olha para mim como se eu tivesse falando um enigma. O que? Ele fica me cheirando por acaso? Como ele consegue diferenciar o meu cheiro com outro perfume?
— Você repara demais em mim, não acha?
— Diz como se você não ficasse babando por mim.
O que? O que ele acha que está dizendo?
— Eu não fico babando em você. — Rebato.
Went abre um sorriso malicioso.
— Mentir é feio, Elina. — Ele leva a xícara a boca.
Ah, esse homem é impossível. Mas, uma sorte minha se derrete e amolece para ele. Não consigo deixar de notar a curva de seus lábios, ou de como ele é forte e...
Tá, eu reparo nele, mas que culpa eu tenho de ele ser tão gostos0. Que Sophie me perdoe por pensar assim.
— Vai dormir aqui?
— Depende, vai me atacar de novo?
— Quando eu ataquei você?
— É sério que vai fingir que não lembra?
Ele aperta os olhos e suava cabeça fica levemente para o lado.
— Por que você não me refresca a memória, anjo?
— Ah vá se f0der.
Went pisca lentamente, como se eu o tivesse chocado. O que ele espera? Que eu caia de bandeja no papo dele? Eu tenho uma missão de manter as pernas fechadas e eu pretendo cumprir.
Sophie é uma irmã para mim e faz parte da minha família torta e problemática, eu não quero por minha relação com ela em prova por causa de um homem — e que ainda é o seu pai.
— Um dia, anjo, vou te fazer morder a língua.
— Isso é uma ameça, Went?
Ele olha para mim se cima a baixo e meu coração palpita. O brilho em seus olhos é feral, como um leão deve olhar para a presa.
— Não, é um aviso.