A carruagem avançava pelos caminhos da estrada de terra batida, o rangido das rodas ecoando sob o céu estrelado.
Amélie permanecia sentada ao lado de Henrique, ainda apreensiva, observando o ambiente escuro e a sensação de liberdade e medo que aumentava a cada quilômetro percorrido.
Após cerca de quarenta minutos de viagem, as luzes da mansão Cestáro começaram a surgir ao longe, refletindo o poder e a riqueza da família de Henrique.
A construção era imponente, ainda maior e mais luxuosa do que a mansão Cavalcante, com torres altas, janelas iluminadas que lembravam estrelas no horizonte, e jardins meticulosamente cuidados que se estendiam ao redor.
— Chegamos— disse Henrique, mantendo o tom calmo, mas firme.
Amélie abriu os olhos, maravilhada e assustada ao mesmo tempo.
O caminho de entrada era ladeado por fileiras de árvores perfeitamente alinhadas, e fontes iluminadas jogavam água em jatos precisos, criando reflexos cintilantes no chão de mármore.
— É… é… enorme, senhor— murmurou, sem saber se admirava ou se sentia ainda mais deslocada.
Henrique desceu primeiro da carruagem e estendeu a mão para ajudá-la a sair.
— Não tenha medo — disse, observando cada reação dela. — Venha, eu te ajudo.
Ela respirou fundo, sentindo o ar frio da noite e o peso do cansaço do dia, aceitou a mão dele e desceu.
— Mas… e minhas roupas? — perguntou, a voz baixa, a lembrança da impossibilidade de trazer qualquer coisa de sua casa ainda presente.
— Não se preocupe com isso — respondeu ele. — Aqui você terá o que precisar. O resto… podemos lidar depois.
Ao entrarem, Amélie percebeu a magnitude do interior da mansão:
o hall de entrada era enorme, com pisos de mármore polido, candelabros pendendo do teto alto, tapeçarias elegantes nas paredes e mobiliário requintado, digno de uma família com poder e influência ainda maiores do que os Cavalcante. Amélie olhava para tudo aquilo, com os olhos cor de mel brilhando, ela nunca tinha visto nada tão lindo.
— Amélie.— a voz de Henrique soou alta, fazendo Amélie se sobressaltar.
— Sim...sim senhor?— Amélie abaixou a cabeça instantâneamente, com medo.
Henrique se aproximou com passos firmes, o som das suas botas batendo forte no chão, até que parou.
— Olhe para mim, Amélie.
Amélie hesitou, não olhou, estava temerosa.
— Amélie, não me faça ordenar, olhe para mim, não vou pedir de novo.
Amélie levantou os olhos cor de mel.
Henrique percebeu imediatamente os olhos marejados, as mãos trêmulas, o receio em falar.
— Não quero que me tema, Amélie. Entendo que é tudo novo, você é uma moça jovem que já passou por muita coisa.
Amélie apenas desviou o olhar.
Henrique deu mais um passo e se encostou no sofá.
— Quero que confio em mim, mesmo que aos poucos. Não desejo machuca-la.
Amélie respirou fundo, tentando acreditar nas palavras dele, mas o medo é a desconfiança ainda dominavam.
— Posso saber sua idade, Amélie?
— Dezenove anos, senhor.— ela respondeu baixo, sem encara-lo nos olhos.
— Dezenove...ainda mais nova do que imaginei. Você sabe ler e escrever?
— Sim..senhor, mas— Amélie olhou para as mãos machucadas, e com calos devido ao trabalho árduo— já faz muito tempo que não escrevo e nem faço contas.
— Tudo bem, não se preocupe com isso— ele sorriu tentando transmitir segurança — Podemos começar quando se sentir confortável. Sou um ótimo escritor.
Amélie assentiu envergonhada.
— Obrigada senhor.
— Já está tarde, vou pedir que alguém lhe indique seu quarto, tente descansar Amélie.