5

4687 Words
Fabiano Voltar para Vegas, sempre parecia como voltar para casa. Eu estive em Nevada por quase cinco anos. Quando cheguei pela primeira vez, não achei que duraria tanto tempo. Cinco anos. Tanta coisa mudou desde que papai me quis morto. Passado era passado, mas às vezes as lembranças voltavam e eram um bom lembrete de que eu devia a Remo minha lealdade e minha vida. Sem ele, eu estaria morto há muito tempo. Talvez eu devesse ter visto isso chegando depois que estraguei meu primeiro trabalho como um iniciante da Outfit de Chicago. Eu tinha sido honrado com a tarefa de patrulhar os corredores no dia do casamento da minha irmã mais nova, Liliana. Estava animado até encontrar minhas irmãs Aria e Gianna com seus maridos Matteo e Luca, assim como Liliana e alguém que definitivamente não era o homem com quem ela havia casado. Eu soube imediatamente que eles estavam levando Liliana para Nova York com eles, e também sabia que, como m****o da Outfit, deveria detê-los. Não tinha a minha tatuagem ainda, desde que minha iniciação não foi concluída, mas já tinha jurado a Outfit. Eu tinha apenas treze anos, fui fraco e e******o naquela época, e permiti que Aria me convencesse a deixá-los ir. Eu até os deixei atirar no meu braço, para que parecesse convincente para todos. Para fazer parecer que eu tentei pará-los. Dante Cavallaro não me puniu. Ele acreditou na minha história, mas meu pai me descartou naquele dia como descartou as filhas que não conseguiu controlar. E foi aí que tudo começou. Quando as coisas desencadearam para levar o primeiro m****o da Outfit a se tornar parte da Camorra. Depois de errar no meu primeiro trabalho, só consegui assistir dos bastidores, considerado jovem demais para ser uma parte real da Outfit. Eu tinha quatorze anos, ansioso para agradar a Dante e meu pai, mas falhando. Depois que Alfonso me deixou no território da Bratva, deveria ter morrido. Os russos teriam me espancado até a morte e, se não fossem eles, outra pessoa teria. Eu não tinha ideia de como sobreviver na rua ou sozinho. Mas Remo sabia. Ele nasceu um lutador. Estava em seu sangue e ele me mostrou como lutar, como sobreviver, como matar. Ele me deixou morar no apartamento miserável que compartilhava com seus três irmãos. Ele colocou comida na nossa mesa com o dinheiro que ganhou nas gaiolas de combate e eu o paguei com lealdade e com a feroz determinação de me tornar o soldado que ele precisava ao seu lado para ajudá-lo a matar os filhos da p**a que estavam reivindicando o território que era legitimamente dele. Quando chegamos a Reno, parte do território da Camorra, quase quatro meses depois, eu não era mais o garoto mimado da Outfit. Remo e Nino tinham me surrado em lutas de treinamento, me ensinaram a lutar sujo. Mas, acima de tudo, Remo me mostrou o meu valor. Eu não precisava da Outfit, não precisava de uma posição entregue a mim em uma bandeja de prata. Remo e eu tivemos que lutar pelo que queríamos. Ali estava: um propósito e alguém que viu o meu valor quando ninguém mais pôde. Quando pisamos pela primeira vez no solo da Camorra, eles ainda estavam em tumulto já que seu Capo havia sido morto por um homem chamado Growl. Ainda não havia um novo Capo, mas muitos brigavam pela posição. Remo, Nino e eu passamos os meses seguintes lutando em Reno, ganhando dinheiro e, eventualmente, vencendo todas as lutas que até mesmo o mais novo Capo em Las Vegas começou a prestar atenção. Juntos fomos lá e matamos todos que eram contra Remo. E quando ele finalmente assumiu como Capo, me tornei seu Executor, um cargo que eu não tinha herdado; um posto pelo qual paguei com sangue e cicatrizes. Um título do qual me orgulhava, e iria defender até a minha morte, assim como defenderia Remo. A tatuagem no meu antebraço me marcando como Homem Feito da Camorra de Las Vegas foi mais além do que a profundidade da pele. Nada e ninguém me fariam quebrar o juramento que fiz ao meu Capo. Eu respirei fundo. O cheiro de alcatrão e borracha queimada pairava no ar. Familiar. Emocionante. As luzes chamativas de Las Vegas brilhavam à distância. Uma visão que me acostumei. Casa. Estas partes da cidade, perto da Sierra Vista Drive, estavam longe do glamour da Strip. Violência era a língua comum por aqui. Minha língua preferida. Uma longa fileira de carros de corrida se alinhava no estacionamento do Shopping Boulevard fechado. Era o ponto de partida da corrida ilegal de rua hoje à noite. Alguns dos motoristas acenaram em minha direção, outros fingiram não me notar. A maioria deles ainda tinha dívidas para pagar, mas esta noite eu não tinha vindo por eles. Eles não precisavam se preocupar. Eu fui em direção a Cane, um dos organizadores da corrida. Ele ainda não tinha pago o que devia e era uma soma que não podia ser ignorada, mesmo que ele fosse um ativo lucrativo. A maior parte do dinheiro que fazíamos com as corridas de rua ilegais vinha de apostas. Nós tínhamos uma equipe de câmeras que filmava as corridas e as colocava em um fórum bloqueado na Darknet; todos com um código de acesso poderiam assistir. Essa parte do negócio era bem recente. Remo havia criado as corridas quando tomou o poder. Remo não se apegava às regras antiquadas que ligavam a Outfit e a Famiglia; regras que os tornaram lentos em se adaptar. Ele estava sempre à procura de novas maneiras de trazer a Camorra mais dinheiro, e ele foi bem sucedido. Alguns motores rugiram, saturando o ar com vapores de gasolina. A partida estava apenas a alguns minutos de começar. Mas eu não vim assistir a corrida. Estava aqui a negócios. Eu avistei meu alvo ao lado do nosso agenciador de apostas Griffin - um cara baixo, quase mais largo do que tinha de altura. O rosto enrugado de Cane franziu quando ele me viu andando em sua direção. Ele parecia considerar correr. — Cane, — eu disse agradavelmente quando parei diante dele. — Remo está sentindo falta de uma grana. Ele deu um passo para trás e levantou as mãos. — Eu vou pagálo em breve. Eu prometo. Eu prometo. Eu juro. Amanhã. Por favor. Palavras que ouvi muitas vezes. — Hmm, — eu murmurei. — Em breve não era sua data de vencimento. Griffin desligou o iPad e se desculpou. Ele estava interessado apenas nos aspectos financeiros de nossos negócios. O trabalho sujo o afugentou. Eu peguei Cane pela manga de sua camisa e o arrastei para o lado, mais longe da linha de partida. Não que me importasse se alguém visse o que eu estava fazendo, mas não gostava de comer fumaça e sujeira quando os carros arrancavam. Empurrei Cane para longe de mim. Ele perdeu o equilíbrio e caiu de costas. Seus olhos corriam para a esquerda e para a direita como se estivesse procurando por algo para se defender. Agarrei sua mão, torci toda para trás e quebrei seu pulso. Ele uivou, embalando a mão machucada contra o peito. Ninguém veio para ajudá-lo. Eles sabiam como as coisas eram. As pessoas que não pagavam suas dívidas recebiam minha visita, e um pulso quebrado era um dos resultados mais gentis. — Amanhã, eu volto, — eu disse a ele. Apontei para o seu joelho. Ele sabia o que isso significava. Do lado esquerdo, perto da linha de partida, notei um rosto familiar com cachos negros. Adamo, o irmão mais novo de Remo. Este definitivamente não era um lugar que ele deveria estar a esta hora da noite. Ele tinha apenas treze anos e foi pego em um carro de corrida antes. Aparentemente, Remo ter enlouquecido com ele não o fez ver a razão. Eu corri até ele, e os dois caras mais velhos ao lado dele pareciam não estar fazendo nada de bom. No momento em que me viram, foram embora, mas Adamo sabia que não devia tentar o mesmo. — O que você está fazendo aqui? Você não deveria estar na cama? Você tem escola de manhã. Ele deu de ombros entediado. Legal demais para uma resposta adequada. Eu agarrei o colarinho dele. E seus olhos finalmente encontraram os meus. — Não é como se eu precisasse estudar. Vou me tornar um homem feito e ganhar dinheiro com merda ilegal. Eu o libertei. — Não vai doer usar o seu cérebro, então a merda ilegal não te levará para a cadeia. — Eu balancei a cabeça em direção ao meu carro. — Eu vou levá-lo para Remo. — Você não terminou a escola. E Remo e Nino também não. Por que eu tenho que fazer essa merda? Eu bati na parte de trás de sua cabeça levemente. — Porque estávamos ocupados tomando Las Vegas de volta. Você só está ocupado se metendo em apuros. Agora se mexa. Ele fez uma careta, esfregando a parte de trás de sua cabeça. — Eu posso ir para casa sozinho. Não preciso de uma carona. — Então você pode tentar entrar sem que ele perceba? — Eu balancei a cabeça em direção ao meu carro novamente. — Não vai acontecer. Agora se mexa. Eu tenho coisas melhores para fazer do que tomar conta de você. — Como o quê? Espancar outros devedores? — Entre outras coisas, sim. Ele caminhou em direção ao carro e praticamente se jogou no banco do passageiro, depois fechou a porta com tanta força que temi que tivesse danificado o sensível mecanismo de fechamento. Desde que ele atingiu a puberdade, ficou completamente intolerável, e já tinha sido difícil mesmo antes disso. *** Ouvi os suspiros ofegantes no momento em que entrei na sala de jogos do cassino abandonado que funcionava como nossa academia. Parei Adamo com uma palma contra o peito. Eu deveria saber que Remo não estava sozinho. Más notícias sempre o levavam para a academia para o seu tipo de treino. — Você vai esperar aqui. Adamo cruzou os braços. — Não é a primeira vez que vejo Remo espancando alguém. Ele estava certo. Ao longo dos anos ele testemunhou a violência. Era impossível mantê-lo longe das realidades cruéis de tudo isso, mas Remo não queria que ele iniciasse o processo de indução antes de seu décimo quarto aniversário e até então não precisaria ver o pior de nossos negócios. — Você vai esperar. Eu disse com firmeza antes de continuar. Ele se esgueirou até o quebrado bar de Champanhe e começou a quebrar alguns copos. Remo estava dando uma surra daquelas em um pobre filho da p**a que eu não conhecia quando entrei na segunda sala de jogos que nós usamos para o nosso treinamento de kickboxing, provavelmente ainda furioso porque eu não tinha sido bem sucedido trazendo Aria de volta para ele, ou furioso por causa da minha ligação mais cedo lhe dizendo sobre seu irmão estar na rua no meio da noite. Novamente. Ele parou quando ele me viu, limpando um pouco de suor e sangue da testa com as costas da mão. Ele nem se incomodou em envolver as mãos com faixas. Ele deveria estar ansioso para aliviar a tensão. — Eu tirei esse de suas mãos. Às vezes preciso resolver os negócios por minha conta, — disse ele. Ele olhou novamente para o amontoado sangrento de um homem, que estava enrolado em si mesmo, gemendo. Seus cabelos grisalhos estavam emaranhados com sangue. Eu ri quando pulei na plataforma do ringue de kickboxing. — Eu não me importo. — Onde ele está? — Eu o fiz esperar na entrada. Ele assentiu. — E? — Ele perguntou, vindo em minha direção e deixando sua vítima caída em seu próprio sangue. A cicatriz sobre o olho estava um pouco mais vermelha do que o habitual, como sempre acontecia quando ele se esforçava. — Como foi em Nova York? Sua mensagem não foi muito esclarecedora. — Eu falhei como você pode ver. Luca não deixou Aria fora de sua vista. — Percebi isso. Como ele reagiu à minha mensagem? — Ele queria arrancar minha garganta. Um brilho animado encheu seus olhos. — Eu gostaria de ter visto o rosto de Vitiello. — Os sonhos molhados de Remo provavelmente incluíam uma luta de gaiola contra Luca. Destruir o Capo da Famiglia seria seu triunfo final. Remo era um lutador c***l, implacável e mortal. Ele poderia vencer quase qualquer um. Mas Luca Vitiello era um gigante com as mãos feitas para esmagar a garganta de um homem. Essa seria uma luta que faria história, sem dúvida. — Ele estava chateado. Ele queria me matar, — eu disse a ele. Remo me deu uma olhada rápida. — E ainda assim não há um arranhão em você. — Minha irmã o impediu. Ela o tem em suas mãos. Os lábios de Remo se curvaram em desgosto. — Pensar que as pessoas na costa leste ainda o temem como o d***o. — Ele é um filho da p**a enorme e brutal, quando minha irmã não está por perto para mantê-lo sob controle. — Eu adoraria conhecê-la. Vitiello perderia a p***a da cabeça. Luca derrubaria Las Vegas por Aria. Ou pelo menos ele tentaria. Mas eu estava inquieto com Aria como um tópico. Apesar da minha indiferença em relação a ela, não gostei da ideia de vê-la nas mãos de Remo. Remo olhou para a minha mão. Eu segui seu olhar e percebi que estava girando a pulseira em volta dos meus dedos. — Quando eu lhe disse para me trazer o tesouro de Luca, quis dizer outra coisa, — ele disse sombriamente. Empurrei a pulseira de volta no meu bolso. — Aria achou que poderia amolecer meu coração com isso porque pertencia à nossa mãe. — E poderia? — Remo perguntou, algo perigoso à espreita em seus olhos escuros. Eu ri. — Tenho sido seu Executor por anos agora. Você realmente acha que eu ainda tenho coração? Remo riu. — n***o como alcatrão. — E aquele cara? — Eu balancei a cabeça em direção ao homem choramingando, querendo distrair Remo. — Você terminou com ele? Remo pareceu considerar o homem por um momento, e o homem se acalmou imediatamente. Finalmente ele assentiu. — Não é divertido se eles já estão quebrados e fracos. É divertido quebrar os fortes. Ele pulou as cordas do ringue e pousou ao meu lado. Batendo no meu ombro, ele disse: — Vamos pegar alguma coisa para comer. Organizei um pequeno entretenimento para nós. Nino e Savio também se juntarão a nós. — Então suspirou. — Mas primeiro terei que conversar com o Adamo. Por que o garoto tem que se meter em apuros o tempo todo? Adamo tinha sorte de seu irmão mais velho ser Capo, ou ele provavelmente estaria morto em um beco escuro agora. Remo e eu voltamos para a área de entrada. Adamo estava encostado no balcão do bar, digitando algo em seu telefone, mas ele rapidamente colocou-o no bolso de trás quando nos viu. Remo estendeu a mão. — Celular. Adamo ergueu o queixo. — Eu tenho direito a alguma privacidade. Poucas pessoas ousavam desobedecer a Remo, menos ainda sobreviveram quando o fizeram. — Um dia desses vou perder minha paciência com você. — Ele agarrou o braço de Adamo e virou-o, depois me fez um sinal e eu peguei o celular. — Ei, — protestou Adamo, tentando alcançar a coisa. Eu bloqueei sua mão, e Remo o empurrou contra a parede. — Qual é o problema com você? Eu te digo de novo, não teste a p***a da minha paciência, — Remo murmurou. — Estou cansado de você me dizer para ir à escola e estar em casa às dez quando você, Fabiano, Nino e Savio passam as noites fazendo todo tipo de coisas divertidas. Coisas divertidas. Ele veria como a maioria das coisas era divertida uma vez que fosse introduzido no próximo ano. — Então você quer brincar com os meninos grandes? Adamo assentiu. — Então por que você não fica aqui? Algumas garotas estão chegando daqui a pouco. Tenho certeza de que encontraremos uma para você que te fará um homem de merda. Adamo ficou vermelho e sacudiu a cabeça. — Sim, foi o que eu pensei, — Remo disse severamente. — Agora espere aqui enquanto chamo Don para buscá-lo e levá-lo para casa. — E o meu telefone? — Ele é meu por agora. Adamo franziu o cenho, mas não disse nada. Dez minutos depois, Don, um dos soldados mais antigos a serviço de Remo, veio buscá-lo. Remo suspirou. — Quando eu tinha a idade dele, não diria não para um pedaço de b***a grátis. — Seu pai te deu sua primeira prostituta quando você tinha doze anos. Adamo provavelmente nem chegou à segunda base ainda. — Talvez eu devesse pressioná-lo mais. — Ele vai ser como nós em breve. — Esta vida não lhe daria uma escolha. Logo as primeiras garotas de um dos clubes de strip de Remo chegaram. Elas estavam ansiosas para agradar como sempre. Não que eu me importasse. Eu tive um longo dia e poderia apreciar um bom boquete para me livrar de um pouco da tensão. Eu assisti através de olhos meio fechados quando uma das garotas se ajoelhou na minha frente, e me inclinei para trás na cadeira. Era por isso que a Camorra iria invadir primeiro a Outfit e depois a Famiglia. Nós não deixamos as mulheres se meterem em nossos negócios. Nós só as usamos para nossos propósitos. E isso era algo que nunca mudaria. Remo nunca iria permitir isso. E eu não dava a mínima. Empurrei meus quadris para a boca disposta. Sentimentos não tinham lugar na minha vida. Leona Papai vivia em um pequeno apartamento em um canto desolado da cidade. A Strip parecia distante e o mesmo acontecia com os generosos clientes. Ele me mostrou um pequeno quarto. Cheirava a gato como o resto do apartamento, embora eu não tivesse visto um. A única mobília era um colchão no chão. Uma das paredes estava apinhada quase até o teto com velhas caixas cheias de Deus sabe o que. Ele nem sequer colocou lençóis no colchão, nem eu vi qualquer tipo de roupa de cama. — Não é muito, eu sei, — disse ele, esfregando a parte de trás de sua cabeça. — Não tenho um segundo par de roupas de cama. Talvez você possa sair e comprar um hoje? Eu parei. Eu tinha usado quase todo o meu dinheiro com a passagem de ônibus. O que guardei era para comprar um belo vestido para entrevistas de emprego em restaurantes decentes e bares de coquetel perto da Strip. Mas eu não conseguiria dormir em um colchão velho que tinha manchas de suor ou pior sobre ele. — Você tem pelo menos um travesseiro e um cobertor disponível? Ele colocou minha mochila ao lado do colchão, fazendo uma careta. — Acho que tenho um velho cobertor de lã em algum lugar. Deixe-me verificar. — Ele se virou e saiu apressado. Lentamente afundei no colchão. Era mole e uma lufada de poeira subiu. Meus olhos viajaram até a montanha de caixas ameaçando me esmagar por baixo delas. A janela não tinha sido limpa há algum tempo, ou nunca, e deixava entrar pouca luz. Não havia sequer um guardaroupa para guardar minhas roupas. Abracei minha mochila. Ainda bem que eu não possuía quase nada. Eu não precisava de muito. Tudo o que já tinha amado tinha sido vendido pela minha mãe por metanfetamina em algum momento. Isso me ensinou a não me apegar a coisas físicas. Papai voltou com um monte do que pareciam farrapos negros. Talvez essa fosse a fonte do cheiro de gato. Ele me entregou e percebi que era o cobertor de lã ao qual se referiu. Estava comido por traça e cheirava a fumaça e algo mais que não pude identificar, mas definitivamente não era gato. Coloquei no colchão. Eu não tinha escolha a não ser comprar roupa de cama. Encarei meus chinelos. Agora eles eram meus únicos calçados. As solas do meu tênis Converse favorito haviam caído dois dias atrás. Achei que seria capaz de conseguir novos sapatos assim que chegasse a Las Vegas. Eu tirei trinta dólares da minha mochila. Papai olhou o dinheiro de um jeito estranho. Desesperada e faminta. — Suponho que você não tenha algumas moedas extras para mim? Os negócios estão lentos agora e preciso comprar um pouco de comida para nós. Eu não tinha perguntado qual era exatamente o seu negócio. Aprendi que fazer muitas perguntas frequentemente leva a respostas desagradáveis. Eu dei a ele dez dólares. — Eu preciso do resto para os lençóis de cama. Ele parecia desapontado, mas depois assentiu. — Certo. Eu vou comprar algo para comer hoje a noite. Por que você não vai ao Target e vê se consegue um edredom e lençóis? Quase parecia que ele queria me tirar daqui. Eu assenti. Preferiria sair do meu suado par de jeans e camisa, mas peguei minha mochila. — Você pode deixar isso aqui. Eu sorri. — Ah não. Preciso disso para carregar o que eu comprar, — eu menti. Aprendi com minha mãe, a nunca deixar minhas coisas por aí ou ela venderia. Não que eu tivesse algo de valor, mas odiava as pessoas mexendo nas minhas roupas intimas. E conhecia o olhar do papai quando viu meu dinheiro. Eu tinha quase certeza de que ele estava mentindo quando disse que seu vício era uma coisa do passado. Não havia nada que eu pudesse fazer sobre isso. Não podia lutar essa batalha por ele. Eu me arrastei para fora do apartamento, o ar seco de Las Vegas me atingiu mais uma vez. Alguns caras estavam nadando na piscina comunitária apesar do frio, mergulhando e gritando. A área da piscina parecia precisar de uma boa limpeza também. Um dos rapazes me viu e soltou um assobio. Eu acelerei meus passos para evitar um confronto. Lençóis, um edredom e um travesseiro me custaram 19,99 dólares, deixando-me com exatamente um centavo. Nenhum vestido bonito ou sapatos para mim. Eu duvidava que um restaurante me contratasse em minhas roupas gastas de segunda mão. Quando voltei para casa, papai não estava lá, nem a comida. Procurei na geladeira, mas encontrei apenas algumas latas de cerveja e um pote de maionese. Eu afundei na cadeira, obrigando-me a esperar por meu pai. Quando ele chegou em casa, estava escuro lá fora e eu adormeci à mesa, minha testa pressionada contra os meus antebraços. Eu fiz uma varredura de seus braços vazios e expressão miserável. — Sem comida? — Perguntei. Ele congelou, seus olhos se movendo nervosamente em busca de uma boa mentira. Não dei a ele a chance de mentir para mim e me levantei. — Está tudo bem, não estou com fome. Vou para a cama. — Eu estava morrendo de fome. Não tinha tido comido nada desde o donut que comprei pela manhã. Beijei a bochecha de papai, sentindo o cheiro de álcool e fumaça em sua respiração. Ele evitou meus olhos. Quando saí da cozinha com a mochila, o vi pegando uma cerveja na geladeira. Seu jantar, eu assumi. Coloquei os novos lençóis, em seguida, deixei cair o edredom e o travesseiro no colchão. Eu nem sequer tinha roupa de dormir. Em vez disso, peguei uma camiseta e uma calcinha limpa, antes de deitar no colchão. A nova roupa de cama cobria o fedor rançoso do colchão com seu aroma químico. Eu não tinha visto uma máquina de lavar roupa no apartamento, então teria que conseguir algum dinheiro antes que pudesse lavar minhas coisas em uma lavanderia. Fechei meus olhos, esperando que pudesse dormir, apesar do estrondo do meu estômago. *** Quando me levantei na manhã seguinte, tomei banho, tentando não olhar nada de perto. Teria que fazer uma boa limpeza no banheiro e no resto do apartamento assim que encontrasse um emprego. Essa deve ser minha maior prioridade agora. Eu vesti as coisas mais legais que possuía, um vestido de verão florido que chegava aos meus joelhos. Então coloquei meus chinelos. Não era uma roupa que me dava pontos bônus em uma entrevista de emprego, mas não tinha escolha. Papai estava dormindo no sofá com as roupas de ontem. Quando tentei passar por ele, ele se sentou. — Aonde você vai? — Quero procurar um emprego aqui por perto. Ele balançou sua cabeça. Ele não parecia muito de ressaca. Talvez pelo menos o álcool não fosse o seu problema. — Não há lugares respeitáveis por aqui. Eu não disse a ele que nenhum lugar respeitável me contrataria da maneira que estava. — Caso você tenha a chance, talvez você possa comprar alguma comida? — Papai disse depois de um momento. Eu balancei a cabeça, sem dizer nada. Jogando minha mochila por cima do ombro, saí do apartamento. Infelizmente, o inverno de Las Vegas decidiu mostrar sua cara feia hoje. Estava um pouco frio para minhas roupas de verão e a promessa de chuva jazia no ar. Nuvens escuras cobriam o céu. Eu caminhei pela vizinhança por um tempo, observando os exteriores decadentes e pessoas sem-teto. Caminhei por dez minutos, mais perto do centro de Las Vegas, quando o primeiro bar apareceu, mas logo percebi que, para uma garota trabalhar lá, ela tinha que estar disposta a se livrar de suas roupas. Os dois próximos bares ainda não estavam abertos e pareciam tão surrados que eu duvidava que conseguisse algum dinheiro trabalhando neles. Uma onda de ressentimento tomou conta de mim. Se papai não tivesse me feito gastar todo o meu dinheiro com roupas de cama, eu poderia ter comprado roupas bonitas e ido procurar um emprego perto da Strip, e não por aqui onde o valor de uma mulher parecia ligada à maneira como ela podia dançar em um poste. Eu sabia que essas garotas ganhavam um bom dinheiro. Mamãe estivera em contato com bailarinas em seus melhores dias, antes de começar a vender-se por alguns dólares a motoristas de caminhão e coisas piores. Estava começando a perder a esperança e minha cabeça estava zonza por falta de comida. O frio também não estava ajudando. Já era por volta da uma da tarde e as coisas não pareciam boas. E então o céu se abriu e começou a chover. Uma gota enorme depois de outra caiu em cima de mim. Claro, estava de chinelos em um dia de dezembro que choveu em Nevada. Fechei meus olhos por um momento. Eu realmente não acreditava em nenhum poder superior, mas se alguém ou alguma coisa estivesse lá em cima, ele não pensava carinhosamente em mim. O frio ficou mais proeminente quando meu vestido grudou no meu corpo. Eu tremi e esfreguei meus braços. Não tinha certeza do quão longe estava de casa, mas tinha a sensação de que ficaria resfriada amanhã, se não encontrasse abrigo logo. O zumbido baixo de um motor atraiu minha atenção de volta para a rua e para o carro vindo em minha direção. Era um modelo alemão caro, um Mercedes de algum tipo, janelas de cor preta, pintura preta fosca. Elegante e quase assustador. Minha mãe não tinha sido o tipo que me advertiu sobre entrar em carros de estranhos. Ela foi o tipo de mãe que trazia estranhos assustadores para casa porque eles a pagavam por sexo. Estava gelada e com fome, e já cansada desta cidade. Queria voltar para o calor. Eu hesitei, em seguida, estendi meu braço e levantei meu polegar. O carro diminuiu a velocidade e parou ao meu lado. Pelo jeito que eu parecia pensei que ele passaria direto por mim. Surpresa passou por mim quando vi quem estava sentado ao volante. Um cara, talvez com vinte e poucos anos, vestido de terno preto e camisa preta, sem gravata. Seus olhos azuis pousaram em mim e o calor subiu pelo meu pescoço pela intensidade do seu olhar. Mandíbula forte, cabelo loiro escuro, curto nas laterais e mais longo em cima. Ele era impecável, exceto por uma pequena cicatriz no queixo. E eu parecia ter me arrastado para fora da sarjeta. Maravilhoso.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD