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4159 Words
Leona A janela do ônibus de Greyhound parecia pegajosa e quente, ou talvez fosse o meu rosto. A criança na fileira atrás de mim parou de chorar a dez minutos - depois de quase duas horas. Eu tirei minha bochecha do vidro, me sentindo lenta e cansada. Depois de horas, espremida no assento abafado, eu m*l podia esperar para sair. Passamos pelos luxuosos subúrbios de Las Vegas com seus verdes imaculados, sempre suficientemente regados por sprinklers. Cercado pelo deserto, esse era provavelmente o sinal definitivo de riqueza. Decorações de Natal elaboradas adornavam as varandas e fachadas de casas recém-pintadas. Essa não seria minha parada. O ônibus se arrastava, o chão vibrando sob meus pés descalços, até que finalmente chegou naquela parte da cidade onde nenhum turista jamais pusera os pés. Os buffets “coma tudo o que puder” custam apenas US $ 9,99 por aqui, não US $ 59. Eu não podia pagar nenhum deles, joguei minha mochila por cima do meu ombro. Não que eu me importasse. Cresci em áreas como estas. Em Phoenix, Houston, Dallas, Austin... E vários outros lugares que eu possa contar. Por hábito, enfiei a mão no bolso por um celular que não estava mais lá. Mamãe o vendeu por uma última dose de metanfetamina. Vendê-lo por US $ 20 foi uma lástima, sem dúvida. Coloquei meus chinelos, joguei minha mochila no ombro e esperei até que a maioria das outras pessoas saísse antes de descer do ônibus, soltando um longo suspiro. O ar estava mais seco do que em Austin e alguns graus mais frio, mas ainda não frio de inverno. De alguma forma já me sentia mais livre longe da minha mãe. Esta era sua última chance na terapia. Esperava que ela tivesse sucesso. Eu fui estúpida por esperar que ela conseguisse. — Leona? — Veio uma voz profunda de algum lugar à direita. Eu me virei surpresa. Meu pai estava a poucos metros de mim. Cerca de trinta quilos a mais em seus quadris e menos cabelo na cabeça. Não esperava que ele viesse me pegar. Ele prometeu fazer isso, mas sabia o que uma promessa dele ou da minha mãe valia. Menos que a sujeira debaixo dos meus sapatos. Talvez ele realmente tivesse mudado como alegou? Ele rapidamente apagou o cigarro sob os mocassins gastos. A camisa de mangas curtas esticada sobre a barriga. Havia um ar errático sobre ele que me preocupava. Eu sorri. — A primeira e única. Não fiquei surpresa que ele tivesse que perguntar. A última vez que o vi foi no meu décimo quarto aniversário, há mais de cinco anos. Não tinha exatamente sentido sua falta. Eu tinha perdido a ideia de um pai que ele nunca poderia ser. Ainda assim era bom vê-lo novamente. Talvez pudéssemos começar de novo. Ele veio até mim e me puxou para um abraço desajeitado. Eu passei meus braços ao redor dele, apesar do cheiro persistente de suor e fumaça. Fazia um tempo desde que alguém me abraçou. Ele se afastou e me examinou da cabeça aos pés. — Você cresceu. — Seus olhos pararam no meu sorriso. — E suas espinhas se foram. Já faz três anos. — Graças a Deus, — eu disse em vez disso. Ele enfiou as mãos nos bolsos, como se de repente não tivesse certeza do que fazer comigo. — Fiquei surpreso quando você ligou. Coloquei uma mecha de cabelo atrás da minha orelha, incerta se sabia onde ele queria chegar com isso. — Você nunca fez, — eu disse, soando alegre. Eu não tinha vindo a Vegas para culpá-lo. Papai nunca foi um bom pai, mas ele tentou ocasionalmente, mesmo que sempre falhasse. A mãe e ele, ambos eram fodidos a sua própria maneira. Seus vícios sempre foram a única coisa que os impedia de cuidar de mim do jeito que deveriam. Sempre seria assim. Ele me avaliou. — Tem certeza de que quer ficar comigo? Meu sorriso vacilou. Era disso que se tratava tudo isso? Ele não me queria por perto? Eu realmente queria que ele tivesse mencionado isso antes de eu pagar por uma passagem para atravessar metade dos Estados Unidos. Ele disse que havia vencido seu vício, que tinha um emprego decente e uma vida normal. Queria acreditar nele. — Não é que eu não esteja feliz em ter você comigo. Senti sua falta — ele disse rapidamente, muito rápido. Mentiras. — Então é o quê? — Eu perguntei, tentando, mas não conseguindo esconder minha mágoa crescente. — Não é um bom lugar para uma garota legal como você, Leona. Eu ri. — Eu nunca vivi exatamente nas partes agradáveis da cidade, — eu disse a ele. — Eu me viro sozinha. — Não. É diferente aqui. Acredite em mim. — Não se preocupe. Sou boa em ficar longe de problemas. Eu tive anos de prática. — Com uma mãe viciada em metanfetamina que vendia qualquer coisa, até mesmo seu corpo, pela próxima dose, você tem que aprender a abaixar a cabeça e cuidar da sua sobrevivência. — Às vezes, o problema encontra você. Acontece por aqui mais vezes do que você imagina. — Do jeito que ele falou, eu me preocupei que o problema fosse um convidado constante em sua vida. Suspirei. — Honestamente, pai, eu vivi com uma mãe que passou a maior parte de seus dias desmaiada no sofá e você nunca se preocupou o suficiente para me afastar dela. Agora que estou crescida, você está preocupado que eu não possa lidar com a vida na cidade do pecado? Ele olhou para mim como se fosse dizer mais, mas finalmente pegou minha mochila antes que eu pudesse segurá-la. — Você está certa. — E eu só vou ficar aqui até ganhar dinheiro suficiente para a faculdade. Há lugares suficientes por aqui onde posso conseguir dinheiro decente com gorjetas, suponho? Ele parecia aliviado por eu querer trabalhar. Ele achou que eu viveria as custas dele? — Há lugares mais do que suficientes, mas poucos que são adequados para uma garota como você. Eu balancei minha cabeça com um sorriso. — Não se preocupe. Posso lidar com bêbados. — Eu não estou preocupado com eles, — disse ele nervosamente. *** Fabiano — Você está realmente pensando em trabalhar com a Famiglia? — Eu ofeguei quando desviei de um chute apontado para a minha cabeça. — Eu te contei como eles foderam com a Outfit. Enfiei meu punho enfaixado na lateral de Remo, então tentei chutar as pernas dele e levei um soco no meu estômago. Eu saltei para trás, fora do alcance de Remo. Então fingi um ataque pela esquerda, mas chutei com a perna direita. O braço de Remo se ergueu, protegendo a cabeça e tomando toda a força do meu chute. Ele não caiu. — Eu não quero trabalhar com eles. Não com o maldito Luca Vitiello, nem com o fodido Dante Cavallaro. Nós não precisamos deles. — Então por que me mandar para Nova York? — Perguntei. Remo pousou dois socos rápidos no meu lado esquerdo. Respirei fundo e bati meu cotovelo no ombro dele. Ele assobiou e se afastou, mas eu o peguei. Seu braço estava pendurado, eu desloquei seu ombro. Meu movimento favorito. — Recusando abertamente? — Ele perguntou meio em tom de brincadeira, sem dar nenhuma indicação de que estava em agonia. — Você deseja. Remo gostava de quebrar coisas. Não achei que ele gostasse de algo mais. Às vezes achava que ele queria que eu me revoltasse para que pudesse me quebrar, porque seria seu maior desafio. Eu não tinha intenção de dar a ele a chance. Não que ele teria sucesso. Ele olhou e se lançou em mim. Eu m*l desviei dos seus dois primeiros chutes, o terceiro bateu no meu peito. Fui jogado no ringue de boxe e quase perdi o equilíbrio, mas me apoiei agarrando a corda. Eu rapidamente me endireitei e levantei meus punhos. — Oh f**a-se essa merda, — Remo rosnou. Ele agarrou seu braço e tentou realocar seu ombro. — Eu não posso lutar com essa merda de m****o inútil. Eu abaixei minhas mãos. — Então você desiste? — Não, — disse ele. — Empate. — Empate, — eu concordei. Nunca houve nada a não ser empate em nossas lutas, exceto no primeiro ano quando era um garoto magricela, sem a menor ideia de como lutar. Nós dois éramos lutadores muito fortes, muito acostumados à dor, indiferentes demais se viveríamos ou morreríamos. Se alguma vez lutássemos até o fim, nós dois acabaríamos mortos, sem dúvida. Peguei uma toalha do chão e limpei sangue e suor do meu peito e braços. Com um grunhido, Remo finalmente conseguiu fixar seu braço. Se eu tivesse ajudado, teria sido mais rápido e menos doloroso. Ele nunca me deixaria. A dor não significava nada para ele. Nem para mim. Eu joguei uma toalha limpa nele e ele pegou com o braço ferido para provar um ponto. Ele secou o cabelo, mas só conseguiu espalhar o sangue de um corte em sua cabeça por todo o cabelo preto. Ele largou a toalha sem cerimônia. Sua cicatriz que ia da têmpora esquerda até a bochecha esquerda estava vermelha da luta. — Então por quê? — Eu perguntei, removendo as ataduras manchadas de vermelho ao redor dos meus dedos e pulso. — Eu quero ver como as coisas estão indo por lá. Estou curioso. Isso é tudo. E gosto de conhecer meus inimigos. Você será capaz de reunir mais informações do que qualquer um de nós apenas observando-os interagir. Mas, acima de tudo, quero enviar-lhes uma mensagem clara. — Seus olhos escuros se tornaram duros. — Você não está pensando em brincar de família feliz com suas irmãs e se tornar um dos cachorrinhos de Vitiello? Eu levantei uma sobrancelha. Mais de cinco anos. E ele realmente tinha que perguntar? Saltei sobre o ringue de boxe e aterrissei no chão do outro lado, quase sem som algum. — Eu pertenço à Camorra. Quando todos eles me abandonaram, você me acolheu. Você me fez quem eu sou hoje, Remo. Você deveria ser mais esperto do que me acusar de ser um traidor. Eu sacrificaria minha vida por você. E se for preciso, levarei a Outfit e a Famiglia para o inferno comigo. — Um dia você terá sua chance, — disse ele. De dar a minha vida por ele, ou derrubar as outras famílias? — Eu tenho outra tarefa para você. Eu assenti. Esperava isso. Ele segurou meus olhos. — Você é o único que pode se aproximar de Aria. Ela é a fraqueza de Vitiello. Mantive minha expressão impassível. — Traga-a para mim, Fabiano. — Morta ou viva? Ele sorriu. — Viva. Se você a matar, Vitiello vai ficar violento, mas se tivermos a esposa dele, ele será nosso fantoche. Eu não tive que perguntar por que ele tinha interesse em derrubar a Famiglia. Nós não precisávamos do seu território e não valia muito, desde que Dante possuísse tudo no meio. Nós estávamos ganhando dinheiro suficiente no Ocidente. Remo queria vingança. Luca cometera um erro ao acolher o ex-Executor da Camorra, e cometera um erro ainda maior quando mandou o homem de volta para matar muitos Camorristas de alta patente enquanto Las Vegas não possuía um Capo forte para liderar a cidade. Antes de Remo. — Considere feito. Remo inclinou a cabeça. — Seu pai foi um i****a por negligenciar seu valor. Mas é assim que os pais são. O meu nunca teria permitido que eu me tornasse Capo. É uma pena que não consegui matá-lo eu mesmo. Isso era algo que Remo me invejava. Eu ainda podia matar meu pai e um dia iria. *** Fazia anos desde a última vez que pisei em Nova York. Eu nunca gostei muito da cidade. Não significava nada além de perda para mim. O segurança na frente do Sphere me avaliou rapidamente quando me aproximei. Eu detectei outro segurança no telhado. A rua estava deserta, exceto por nós. Isso não mudaria até muito mais tarde, quando os primeiros clientes tentassem entrar. Eu parei na frente do segurança. Ele descansou a mão na arma em seu suporte de quadril. Ele não seria rápido o suficiente. — Fabiano Scuderi, — eu disse simplesmente. Claro que ele sabia. Todos eles sabiam. Sem uma palavra, me deixou entrar na sala de espera. Dois homens barraram meu caminho até lá. — Armas, — um deles ordenou, apontando para uma mesa. — Não, — eu disse. O mais alto dos dois, vários centímetros mais baixo que eu, aproximou seu rosto do meu. — O que foi isso? — Isso foi um não. Se você é surdo ou e******o demais para me entender, chame alguém que possa. Estou perdendo a paciência. A cabeça do homem ficou vermelha. Bastaria três movimentos para arrancar a cabeça de seu corpo. — Diga ao Capo que ele está aqui e se recusa a deixar suas armas. Se ele achava que poderia me intimidar com a menção de Luca, estava enganado. A época em que o temia e o admirava havia ficado no passado há muito tempo. Ele era perigoso, sem dúvida, mas eu também. Eventualmente, ele voltou e finalmente fui autorizado a passar pelo vestiário e pista de dança iluminados de azul, em seguida, até o porão. Bom lugar se alguém quisesse impedir que pessoas de fora ouvissem gritos. Isso também não conseguiu me incomodar. A Famiglia não conhecia muito bem a Camorra, não me conhecia muito bem. Nós nunca tínhamos valido a atenção deles até que nosso poder se tornasse forte demais para eles ignorarem. No momento em que entrei no escritório, examinei o ambiente. Growl estava parado ao lado esquerdo. Traidor. Remo adoraria ter sua cabeça entregue a ele em uma sacola plástica. Não porque o homem tivesse matado seu pai, mas porque ele havia traído a Camorra. Esse crime valia uma morte dolorosa. No meio da sala estavam Luca e Matteo, ambos altos e morenos, e minha irmã Aria com seus cabelos loiros como um farol de luz. Lembrei-me que ela parecia mais alta, mas, novamente, eu era uma criança quando a vi pela última vez. O choque no rosto dela era óbvio. Ela ainda não conseguia disfarçar suas emoções. Nem mesmo seu casamento com Luca mudou isso. Você acharia que ele já teria quebrado seu espírito agora. Estranho ela ainda ser a mesma que eu lembrava quando me tornei alguém novo. Ela correu em minha direção. Luca estendeu a mão, mas ela foi mais rápida. Ele e seus homens sacaram suas armas no momento em que Aria colidiu comigo. Minha mão subiu para o seu pescoço momentaneamente. Ela me abraçou, suas mãos espalmadas nas minhas costas, onde eu tinha minhas facas. Ela era muito confiante. Eu poderia tê-la matado em um piscar de olhos. Quebrar seu pescoço teria exigido pouco esforço. Eu matei assim antes em lutas de vida ou morte. A bala de Luca atingiria seu alvo tarde demais. Ela olhou para mim esperançosa, então lentamente a percepção e o medo surgiram. Sim, Aria. Não sou mais um garotinho. Eu olhei para frente. — Não há necessidade de empunhar as armas, — eu disse a Luca. Seu olhar cauteloso passou entre meus dedos posicionados perfeitamente no pescoço dela e meus olhos. Ele reconheceu o perigo em que sua pequena esposa estava, mesmo que ela não o fizesse. — Eu não viajei essa distância toda para machucar minha irmã. Era a verdade. Eu não tinha intenção de machucá-la, mesmo que pudesse. O que Remo tinha em mente para ela, não saberia dizer. Eu coloquei um bilhete no bolso do jeans dela. Luca cambaleou até nós e a puxou para longe de mim, uma advertência clara em seus olhos. — Meu Deus, — Aria sussurrou, lágrimas enchendo seus olhos. — O que aconteceu com você? Ela realmente precisava perguntar? Ela estava tão ocupada salvando minhas irmãs, que não tinha considerado o que isso significaria para mim? — Você, Gianna e Liliana aconteceram. Confusão encheu seu rosto. Ela realmente não entendeu. Fúria fria me atravessou, mas enterrei isso. Todo horror do meu passado me fez quem eu sou hoje. — Eu não entendo. — Depois que Liliana fugiu também, papai decidiu que algo deveria estar errado com todos nós. Que talvez o sangue da mãe correndo em nossas veias fosse o problema. Ele achou que eu fosse outra desgraça em construção. Ele tentou me bater para tirar isso de mim. Talvez ele achasse que, se eu sangrasse com frequência suficiente, me livraria de qualquer vestígio dessa fraqueza. No momento em que a prostituta de sua segunda esposa deu à luz a um menino, ele decidiu que eu não era mais útil. Ele ordenou a um de seus homens que me matasse. Mas o homem teve pena de mim e me levou a um pardieiro em Kansas City para que a Bratva pudesse me matar em vez disso. Eu tinha vinte dólares e uma faca. — Fiz uma pausa. — E eu fiz bom uso dessa faca. Eu podia ver as palavras sendo assimiladas. Ela balançou a cabeça. — Nós não queríamos te machucar. Só queríamos salvar Liliana de um casamento horrível. Não achamos que você precisaria ser salvo. Você era um menino. Você estava a caminho de se tornar um soldado da Outfit. Teríamos te salvado se você tivesse pedido. — Eu me salvei, — eu disse simplesmente. — Você ainda pode... Sair de Las Vegas, — disse Aria com cuidado. Luca enviou-lhe um olhar. Eu ri sombriamente. — Você está sugerindo que eu deixe a Camorra e me una à Famiglia? Ela parecia surpresa com a dureza do meu tom. — É uma opção. Eu virei meu olhar em direção a Luca. — Ela é Capo ou você? Eu vim aqui para conversar com o homem que lidera o show, mas agora acho que pode ser uma mulher depois de tudo. Luca não parecia perturbado pelas minhas palavras, pelo menos não abertamente. — Ela é sua irmã. Ela fala porque permiti que fizesse isso. Não se preocupe, Fabi, se tivesse algo a dizer para você, eu diria. Fabi. O apelido não me provocou do jeito que deveria. Eu desisti dele quando amadureci. Ninguém me conhecia por esse nome em Vegas e, mesmo que o fizessem, não se atreveriam a usá-lo. — Nós não somos seus inimigos, Fabi, — disse Aria. E eu sabia que ela estava falando sério. Ela era o vício do Capo, e ainda assim ela não sabia nada. Seu marido me viu como eu o vi: um adversário a ser observado. Um predador se intrometendo em seu território. — Eu sou um m****o da Camorra. Vocês são meus inimigos. — Se esta viagem servisse para alguma coisa, seria para provar a mim mesmo que realmente não havia mais nada daquele garoto e******o e fraco que eu era. Ele havia sido espancado de dentro de mim, primeiro pelo meu pai e mais tarde na rua e nas gaiolas de combate enquanto eu lutava por um lugar neste mundo. Aria balançou a cabeça, incapaz de entender. Ela não me abandonou de propósito, não selou meu destino com minhas irmãs, ajudando-as a fugir de propósito, mas às vezes as coisas que causamos sem intenção eram as piores. — Eu tenho uma mensagem de Remo para você, — eu disse a Luca, ignorando minha irmã. Eu lidaria com ela mais tarde. Ela não era a única razão pela qual eu tinha vindo para Nova York. — Você não tem nada a oferecer para Remo ou a Camorra, a menos que você envie sua esposa para um passeio. — As palavras deixaram um gosto amargo na minha boca, mesmo porque ela era minha irmã. Luca estava na metade da sala antes de Aria entrar em seu caminho. Eu tirei minha arma e uma das minhas facas. — Calma, Luca, — implorou Aria. Ele olhou para mim. Oh, ele queria me rasgar em pedaços, e eu queria vê-lo tentar. Ele seria um adversário desafiador. Em vez disso, deixou minha irmã convencê-lo, mas seus olhos continham uma promessa: você está morto. Remo nunca teria escutado uma mulher, nunca teria mostrado esse tipo de fraqueza na frente de ninguém. Nem eu. A Outfit e a Famiglia tinham enfraquecido ao longo dos anos. Eles não eram uma ameaça para nós. Se manejássemos a situação com inteligência, logo seus territórios seriam nossos. Eu fiz um arco simulado. — Presumo que é tudo. — Você não quer saber como Lilly e Gianna estão? — Aria perguntou esperançosa, ainda procurando por um sinal do menino que ela conheceu. Eu me perguntei quando ela perceberia que ele tinha ido embora para sempre. Talvez quando a Camorra assumisse o poder algum dia e eu cravasse minha faca no coração do seu marido. — Elas não significam nada para mim. No dia em que você partiu para sua vida pomposa em Nova York, você deixou de existir para mim. Eu me virei. Dar minhas costas ao inimigo não era algo que eu normalmente faria. Mas sabia que Aria impediria Luca de me matar com seus olhos de cachorrinho, e queria mostrar a ele e seu irmão Matteo que eu não os temia. Eu não temia ninguém há muito tempo. *** Eram quase duas horas da madrugada. Tinha começado a nevar há algum tempo e uma camada fina de branco cobria minha jaqueta e o chão aos meus pés. Eu estava esperando por mais de uma hora. Talvez Aria tivesse mais senso do que lhe atribui. Passos suaves rangeram à minha direita. Eu me afastei da parede, puxando minha arma, mas abaixei quando Aria apareceu, enrolada em um grosso casaco de lã e cachecol. Ela parou na minha frente. — Olá Fabi. — Ela estendeu o papel que eu tinha colocado no seu bolso. — Você disse que queria falar comigo sozinha porque precisava da minha ajuda? Sua necessidade de ajudar os outros, primeiro Gianna, depois Lily e agora eu, era sua maior fraqueza. Eu realmente queria que ela tivesse ficado em casa. Eu me aproximei. Ela me olhou com olhos tristes. — Mas você estava mentindo, não estava? — Ela sussurrou. Se não estivéssemos tão perto, não a teria entendido. — Você estava tentando me pegar sozinha. Se ela sabia, por que veio? Ela esperava por misericórdia? Então percebi porque ela sussurrou. Eu apertei minha mão na minha arma. Meus olhos vasculharam a escuridão até que encontrei Luca encostado a uma parede à esquerda, sua arma apontada para minha cabeça. Eu sorri então porque a subestimei, e uma parte pequena e fraca estava aliviada. — Finalmente sendo sensata, Aria. — Eu sei uma coisa ou duas sobre a vida da máfia. Apenas as coisas que Luca permitia que ela visse, sem dúvida. — Você não está preocupado com a sua vida? — Ela perguntou curiosa. — Porque eu estaria? Ela suspirou. — A Camorra quer me sequestrar? — Novamente aquele sussurro, não destinado aos ouvidos de Luca. Ela estava tentando me salvar de sua ira? Não deveria. Eu não disse nada. Ao contrário de Luca, não divulgaria informações apenas porque ela bateu os cílios para mim. A época que ela tinha poder sobre mim como minha irmã mais velha passou há muito tempo. Mas meu silêncio parecia toda a resposta que ela precisava. Ela levantou um braço e eu segui o movimento com cautela. Com a outra mão, ela tirou uma joia do pulso e estendeu para mim. — Era da mãe. Ela me deu pouco antes de sua morte. Quero que você fique com isso. — Por quê? — Eu perguntei enquanto examinava a pulseira de ouro com safiras. Eu não me lembrava de nossa mãe usá-la, mas eu tinha apenas doze anos quando ela morreu e estava prestes a iniciar o processo de indução para a Outfit. Eu tinha outras coisas em mente do que joias caras. — Porque quero que você se lembre. — A família que me abandonou? — Não, o menino que você costumava ser e o homem que você ainda pode ser. — Quem disse que eu quero lembrar? — Eu disse em voz baixa, inclinando-me, para que ela pudesse olhar nos meus olhos, apesar da escuridão. Ouvi o clique suave de Luca liberando a trava de segurança. Eu sorri. — Você quer que eu seja um homem melhor. Por que você não começa com o homem que aponta uma arma para minha cabeça? Ela empurrou a pulseira contra o meu peito e eu finalmente a peguei. — Talvez um dia você encontre alguém que o ame apesar do que você se tornou, e ela fará com que você queira ser melhor. — Ela se afastou. — Adeus, Fabiano. Luca quer que você saiba que da próxima vez que vier a Nova York, pagará com sua vida. Meus dedos se fecharam ao redor da pulseira. Eu não tinha intenção de voltar a esta cidade abandonada por nenhum outro motivo a não ser arrancá-la das mãos sangrentas de Luca.  
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