Capítulo13

2265 Words
Consegui dar entrada na papelada do seguro desemprego e liberar meus direitos trabalhistas sem grandes complicações. Mas estava morrendo de saudades do Vinícius, peguei o celular várias vezes para mandar mensagem e desisti. Porque eu iria parecer desesperada por atenção, sendo que ele provavelmente estava resolvendo alguma coisa importante. Do contrário teria me enviado alguma mensagem, certo? Não estávamos mais oficialmente brigados, ele podia me ligar ou... E se eu ligasse como quem não quer nada? Podia enviar um oi tímido no w******p e correr para a cozinha, dependendo do que ele respondesse, mentiria que foi o Luan. Sei lá. Qualquer coisa, seu silêncio estava acabando comigo. Sabrina ainda não chegara do trabalho e Luan continuava na casa da Vanda, permitindo que eu mergulhasse nas minhas dúvidas e anseios. Quando já estava a ponto de enlouquecer, meu celular vibrou. Ao notar que era o Vinícius, quase tive um treco. — Alô. — Atendi toda estabanada, quase deixei cair o celular de tanto nervosismo. — Mari, que bom ouvir sua voz. — Foi dizendo. — Também é bom ouvir a sua — respondi com o coração acelerado. — Desculpe não ter aparecido ou ligado nesses últimos dias, aconteceu tantas coisas. Queria te ligar antes, mas está tudo uma loucura, eu m*l tenho conseguido dormir quatro horas por noite de tanta preocupação — explicou hesitante. — Você deve achar que eu só invento mentiras, né? Mas é sério, se quiser... Eu o cortei. — Acredito em você, Vinícius. Sei o que tem passado — informei para acalmá-lo — Então fico feliz que tenha conseguido me ligar agora. Como você está? — Estou indo, agora sei que o problema maior é na matriz e preciso ficar de olho no meu primo — afirmou, sua voz soava um pouco arrastada. Ele parecia extremamente cansado — Tem sido dias difíceis, mas estou quase provando os desvios do Diogo e estou confiante que o resto consigo resolver aos poucos com o auxílio do Arthur e da Paloma. — Gostaria de poder ajudar — lamentei do fundo do meu coração. — Queria poder te dar apoio, sei que tivemos nossas discussões. Tá tudo meio estranho entre nós e eu não quero te pressionar a nada... — Sinto sua falta, Mari — declarou, cortando minha fala. — Preciso te ver, precisamos conversar definitivamente. Não quero mais ficar assim, sem saber se posso ou não te mandar mensagem. Se posso ou não te ligar, se ainda somos amigos. Se podemos ser algo mais daqui um tempo. Fiquei horas pensando se poderia te ligar agora, se me atenderia. Essa incerteza está me matando por dentro e... — Podemos conversar sim, eu só não quero te sobrecarregar ou parecer desesperada por atenção sabendo que você tem outras questões para resolver. Mas eu não quero mais que saia da minha vida, Vinícius — Consegui finalmente expressar mais ou menos em palavras o que eu sentia. — Meu desejo é ficar perto de você, Mariane — suspirou — Escuta, não quero falar sobre meus sentimentos por telefone. Só queria ouvir sua voz e ver se estava bem. Estou indo pra São Paulo nos próximos dias e nos vemos, pode ser? — propôs, criando expectativas de que poderíamos nos acertar. — Claro — garanti, sentindo o coração flutuar — Eu... — hesitei por um instante. — Gosto muito de você, Vinícius. — Também gosto muito de você, mais do que eu imaginava — declarou, dessa vez com um sorriso na voz. — Não vejo a hora de te ver. — Eu também. — Desliguei a ligação, querendo ir até o Vinícius agora mesmo. Existiam muitas coisas que não sabíamos um sobre o outro, eu sempre mantive algumas partes do meu passado e de mim mesma escondidas de todos. Entretanto, agora eu sentia vontade de colocar para fora, de expressar minhas angústias. De conhecê-lo, compreendê-lo ao todo. Esperava que realmente tivesse essa chance, que pudéssemos nos acertar em breve. Sem joguinhos ou mentiras. Porque não dava mais para me enganar. Eu estava perdidamente apaixonada pelo Vinícius e só o que eu desejava era que fosse recíproco. Não era somente a amizade dele que eu almejava. Talvez desde o início soubesse que ele seria muito mais do que um simples amigo ou colega de trabalho. E, pela primeira vez, eu não quis negar a mim mesma. Queria assumir. Gritar. Eu estava perdidamente apaixonada pelo Vinícius e a descoberta desse sentimento era a coisa mais extraordinária que me aconteceu nos últimos anos. (...) Peguei uma caixinha de lembranças com alguns itens que eram especiais para mim e sentei no chão da sala. Não costumava fazer isso com frequência, porque ficava deprimida e fazia o possível para não permitir que Luan me visse muito para baixo. Mas naquela tarde foi inevitável, porque eu estava sozinha em casa. Sabrina não tinha voltado do trabalho e o Luan estava brincando com os filhos da Vanda. A tentação de abrir a caixa de madeira que provavelmente me faria chorar, era quase sufocante. Após finalmente dar vazão a isso, fiquei longos segundos observando uma fotografia dos meus pais juntos, pensando no porquê de algumas coisas. Aprendi a me virar quando meu pai morreu, mas já tinha perdido minha mãe, ela faleceu um pouco depois que meu irmão nasceu. Tinha aneurisma não tratado e um belo dia, enquanto gritava comigo por algo que eu nem me lembro. Ela simplesmente faleceu. Meu pai disse que a culpa não era minha, que ele e os médicos foram os culpados por não terem descoberto sobre o aneurisma antes. Entretanto, eu sabia que era mentira. A culpa era minha sim. O olhar de pavor dela estava gravado na minha memória e eu nem me lembrava mais por que a havia irritado tanto. Agora eu continuava perdida, com uma causa na justiça sem qualquer esperança de ser solucionada. Em um trabalho qualquer que pagava o mínimo das minhas contas. Completamente perdida. Sempre fui forte, pelo menos tentava, pelo Luan. Não costumava me lamuriar ou demonstrar fraqueza, principalmente perto do meu irmão. Agora aqui, sozinha nesta casa de aluguel, não conseguia enxergar nenhuma expectativa de melhora na minha condição. Luan crescia rapidamente, precisaria de muito mais do que eu poderia oferecer. O dinheiro da minha rescisão no banco não era grande coisa. Não tinha qualquer segurança ou garantias de receber a indenização da fábrica que matou meu pai. Então de repente, senti o peso do mundo sobre os ombros e finalmente me permiti desabar mais uma vez. Pelo menos hoje não corria o risco de ser flagrada pelo Luan chorando. Já era um consolo, odiava quando ele me via abatida e desamparada. Era extremamente cansativo ser forte o tempo todo, de vez em quando eu só queria não precisar ser. Pelo menos por alguns instantes. Acho que todo ser humano merecia o direito de desmoronar por um momento, para em seguida recobrar as forças e voltar a lutar. Só que eu estava chorando muito e não conseguia escapar do limbo de tristeza que me agarrou. Sentia falta dos meus pais. Especialmente do meu pai, porque convivemos juntos há mais tempo e como ele fazia falta. Uma falta do caramba! Com seus conselhos e cafuné reconfortante nos momentos mais difíceis. Nem pude me despedir, ele beijou minha cabeça e a do Luan ao sair pela manhã e nunca mais voltou. Se eu soubesse que seria assim, teria passado mais tempo com ele e menos enfiada nos livros da faculdade. De qualquer forma, não percebi quando Vanda entrou em casa, mas senti seu abraço acolhedor minimizar minha tristeza. — Por que está chorando sozinha aqui? Por que não veio pra minha casa? — perguntou, sentando-se ao meu lado. — Eu resolvi pegar a minha caixinha de lembranças e comecei a chorar por causa de uma fotografia dos meus pais — funguei, limpando o nariz. — Sabe que não tem culpa do que aconteceu com a sua mãe, foi uma fatalidade. Espero que tenha finalmente entendido isso — afirmou, abraçando meus ombros. — Não sei, foi comigo que ela discutiu antes de morrer — recordei, apertando a fotografia nas minhas mãos. — Aliás, você acha que um dia vamos conseguir justiça pelo que aconteceu com o meu pai? A fábrica fechou e o dono sumiu no mundo, eu não tenho mais esperanças. — Para Deus nada é impossível — declarou, retirando a fotografia amassada das minhas mãos. Ela me abraçou, eu afundei o rosto em seu pescoço. Vanda era como uma mãe para mim, não sei o que faria se ela não estivesse por perto. Naquele momento refleti que precisava, mais do que nunca, tomar as rédeas da minha vida. Só não fazia a mínima ideia de por onde começar. (...) Com o aumento de salário, Sabrina decidiu ficar mais perto da livraria. Eu não julgava. Assim, estávamos organizando uma festa de despedida para ela, que ao mesmo tempo englobava a Paloma. Afinal, devido a um pedido do Vinícius, ela seria transferida para a Paralela de Fortaleza em breve. Soube que a Paloma adiou um pouco a viagem por questões pessoais e eu achava que a Sabrina estava incluída nessa decisão. De qualquer forma, seriam duas despedidas, cada uma à sua maneira. O que me animava era saber que Vinícius estaria aqui. Já a Sabrina... bom, estava meio jururu, mas tentava fingir que não. Paloma e ela assumiram um namoro e agora teriam que mantê-lo à distância. Não que Fortaleza fosse do outro lado do mundo. Contudo, também não era ali na esquina. Depois que a Vanda me pegou aos prantos largada no chão da sala, eu procurei manter a mente ocupada para não desmoronar outra vez. Os preparativos da despedida me ajudaram nisso, era bom ter algo além dos meus próprios problemas para distrair a cabeça. Era início da tarde quando a campainha tocou. Eu não recebia muitas visitas, então não fazia ideia de quem fosse. Fui atender curiosamente, me deparando com um oficial de justiça. — Não acredito! — exclamei, segurando a caneta que ele me ofereceu. Minhas mãos começaram a tremer tanto, pensei que não fosse conseguir assinar o documento. Segurei em mãos aquele papel que representava a esperança de vida nova e senti os olhos lacrimejarem. Fechei a porta de casa, escorregando até o chão, ainda com o envelope fechado. Eu estava com medo de abri-lo e de repente ser uma pegadinha. Minha cabeça girava tanto que eu pensei que fosse desmaiar. Por fim, com muito custo, espiei o conteúdo do envelope. Eu ainda não conseguia acreditar, mas quando foquei os olhos, Luan tinha acabado de chegar em casa e estava com um copo de água ao meu lado. — Você estava parecendo um zumbi! O puxei para mim num abraço de espremer os ossos, ignorando sua latente preocupação. — Aconteceu, Luan — contei, agora um pouco mais ponderada. Eu mostrei o cheque para ele. — Aconteceu! Seus olhos brilharam, eu sabia que uma indenização nunca substituiria o amor do nosso pai. Contudo, era horrível imaginar que o responsável por aquilo simplesmente continuaria nos ignorando como tinha feito até agora. A fábrica fechou, é verdade, mas o fato do meu pai falecer em um acidente de trabalho e ficar por isso mesmo sem nenhuma punição, me deixava tão triste. Como foi realmente um acidente, o dono da fábrica não tinha culpa. Era o que o juiz alegava. Só que além de ficarmos sem nosso pai, eu tive que me virar para conseguir lidar com sua perda, enquanto pagava as contas de casa. Não foi fácil, perder meu pai acabou comigo. Entretanto, pelo Luan eu tive que seguir em frente e agora talvez pudesse pelo menos recomeçar. A dor da perda jamais desapareceria, eu sentia falta do meu pai todos os dias. Mas pelo meu irmão era necessário ser forte. — Eu sabia que o Vini não iria deixar a gente na mão! — exclamou novamente. — O que o Vinícius tem a ver com isso? — perguntei curiosa. — Desculpa, sei que pediu para não falar com ninguém sobre o que aconteceu. Mas eu contei a ele e o Vini prometeu tentar ajudar a gente. — Luan se encolheu, na certa pensando que eu brigaria com ele. — Será que foi o Vinícius? — divaguei, sentindo o coração aos pulos. Ele não me falou nada em nenhum momento em que conversamos por telefone ou mensagem nos últimos dias. — Na última vez que conversamos ele disse que talvez tivesse boas notícias em breve, mas pediu para eu não contar nada a você. Porque não queria dar falsas esperanças e... — Eu o abracei repentinamente. — Já não disse que você tem que agir como uma criança normal? — Você tá me sufocando — sussurrou com dificuldade — E não quero ser uma criança normal, quero ajudar minha irmã a ser feliz. — Também quero que você seja feliz e isso inclui ter uma infância normal, fazer amigos, se divertir... — Enumerei, ainda apertando seu corpo magro. Luan sem dúvidas estava maior, daqui a pouco me passava na altura. Ele rodeou minha cintura, finalmente relaxando no meu abraço. — Não quero que precise trabalhar tanto pra cuidar de mim. Quando estiver maior, eu vou cuidar de você — informou, mais uma vez demonstrando uma maturidade que me assustava. — Primeiro cresça e depois falamos sobre isso — rebati, bagunçando seus cabelos. — Papai deve estar mais tranquilo agora. — Deve sim, que bom que o Vinícius entrou na nossa vida, né? — Ele sorriu saudosamente. — Concordo — respondi, abrindo um sorriso singelo. Eu precisava agradecê-lo mais uma vez pelo que fez por nós.
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