O despertador tocou às cinco e meia da manhã, e o som parecia um presságio, não um simples aviso. Abri os olhos, a luz ainda fraca lá fora, e senti o peso da segunda-feira, não só pelo cansaço, mas pela ansiedade que me consumia. Hoje era o dia. Meu primeiro dia como médica no presídio.
Rolei na cama, sentindo o corpo de Ricardo ao meu lado. Ele murmurou algo ininteligível, virou-se e me abraçou mais apertado, a respiração calma e profunda. Por um instante, eu só quis ficar ali, aninhada em seu calor, adiando o inevitável. Mas a imagem do jaleco branco e das grades já se formava na minha mente.
Levantei devagar para não acordá-lo e fui direto para o banheiro. A água fria do chuveiro pareceu um choque, uma tentativa de despertar todos os meus sentidos e afastar qualquer resquício de sono ou dúvida. Lavei o cabelo, escovei os dentes, e encarei meu reflexo no espelho. Eu parecia a mesma Marcela de sempre, mas sentia que algo estava prestes a mudar, e não era só o meu endereço de trabalho.
Voltei ao quarto e vesti o uniforme: uma calça social escura e uma camisa de botões branca, impecavelmente passada. Peguei o jaleco, ainda no cabide, e observei o nome bordado em letras azul-marinho: "Dra. Marcela Vasconcelos ". Respirei fundo, sentindo o tecido do jaleco. Eu era uma médica, e hoje meu consultório seria atrás de muros altos.
Quando terminei de me arrumar, Ricardo já estava acordado. Ele se sentou na cama, o cabelo bagunçado e os olhos sonolentos, mas um sorriso carinhoso surgiu em seus lábios quando me viu.
— Bom dia, doutora. — ele disse, a voz rouca de sono, mas cheia de ternura.
— Bom dia — respondi, tentando soar mais confiante do que me sentia.
Ele se levantou, me puxou para perto e me abraçou forte, afundando o rosto em meu cabelo.
— Você está linda. E vai ser incrível. Eu sei que sim. — A voz dele era um sussurro firme, e o calor de seu abraço pareceu envolver toda a minha insegurança. — Você é a pessoa mais forte e determinada que eu conheço. Não importa o que aconteça lá, você vai dar conta. Sempre dá.
As palavras dele eram um bálsamo. Senti um nó na garganta, mas de gratidão, não de medo. Ele sabia exatamente o que dizer, o que eu precisava ouvir.
— Obrigada — murmurei, me afastando um pouco para olhá-lo. Seus olhos escuros transmitiam uma segurança que me acalmava.
Enquanto ele ia para a cozinha preparar um café rápido para nós, meu celular vibrou na mesinha de cabeceira. Era uma mensagem de Sarah.
"Amiga, boa sorte no primeiro dia de trabalho! Você vai arrasar. Te amo! Quero saber TUDO quando você chegar em casa, cada detalhe! Não esquece!"
Um sorriso discreto surgiu em meu rosto. Sarah, no seu jeito expansivo e às vezes exagerado, era também um ponto de apoio, uma lembrança de que a vida lá fora continuava, com seus amigos, suas risadas e sua curiosidade sem filtros. Era bom ter alguém que, apesar das brincadeiras, estava genuinamente torcendo por mim.
Terminei meu café em silêncio, Ricardo ao meu lado. A segurança que ele me passava era um escudo, e a mensagem de Sarah, um lembrete do mundo que me esperava. Eu tinha medo, claro. Mas também tinha a sensação de que estava fazendo a coisa certa. E, com um Ricardo me olhando daquele jeito e uma Sarah me cobrando cada detalhe, eu sabia que não estava sozinha nessa nova jornada.
Antes de sair, Ricardo me segurou pela mão, olhando nos meus olhos como se quisesse gravar aquele momento.
— Vai lá e mostra quem é a Dra. Marcela — ele falou com aquele sorrisinho de canto que me deixava mole. — Eu tô muito orgulhoso de você.
— Obrigada — sussurrei, emocionada. — Por tudo.
Ele me deu um beijo leve nos lábios, um toque delicado que parecia me encher de coragem. Ele pegaria o plantão às nove da manhã, mas tinha acordado mais cedo só para tomar café comigo. Quando me afastei, senti que estava pronta, ou pelo menos mais preparada para o que viesse.
Entrei no carro, o mesmo Celta 2010 que já era quase um companheiro de guerra. Liguei o motor, respirei fundo e deixei o portão do prédio para trás. As ruas ainda estavam silenciosas, mas dentro de mim tudo era um turbilhão. Eu repassei mentalmente o que precisava fazer, quem precisaria encontrar, e me forcei a lembrar: eu tinha escolhido isso. E eu queria muito fazer dar certo.
O trânsito ainda estava leve, e eu fui observando a cidade acordando devagar, os primeiros raios de sol colorindo o céu. Era como um recomeço e eu sabia que era exatamente isso.
Quando estacionei em frente ao prédio administrativo do sistema prisional, fechei os olhos por um segundo. Deixei o nervosismo de lado e deixei a confiança tomar o lugar. Eu tinha estudado pra isso, tinha me preparado e, de agora em diante, era só viver o que eu tanto sonhei.
Apoiada pelas mensagens carinhosas de quem eu amava, eu abri a porta do carro e respirei fundo mais uma vez. E dei meu primeiro passo rumo ao que seria o meu novo mundo.
[...]
A fachada do prédio administrativo do sistema prisional era austera, com muros altos e aquela sensação de frieza que parecia fazer parte de tudo ali. Mas eu me recusei a deixar que aquilo me intimidasse. Eu era médica e estava ali para ajudar, para cuidar.
Entrei no prédio sentindo o cheiro forte de desinfetante no ar. O piso de cerâmica clara refletia as luzes fluorescentes, e o silêncio era pesado, como se todos soubessem que ali dentro nada poderia ser levado na brincadeira.
Na recepção, uma mulher uniformizada me recebeu com um sorriso discreto. Eu me apresentei e ela logo me entregou um crachá plastificado com meu nome e a identificação do cargo: “Médica — Marcela Vasconcelos ”. Era estranho ver isso assim, de forma tão oficial, mas também dava uma pontada de orgulho.
— Bem-vinda, doutora — ela disse com um tom ensaiado.
Antes que eu pudesse ajeitar o crachá no pescoço, ela me informou que o diretor queria falar comigo. Respirei fundo, o coração batendo um pouco mais rápido. Senti o nervosismo de novo, mas engoli seco e segui até a sala indicada.
Bati na porta com delicadeza. Um homem de terno preto, cabelos grisalhos e olhar sério me recebeu com um gesto de cabeça.
— Doutora Marcela Vasconcelos, entre. Sou o diretor Maurício — disse, erguendo-se da cadeira e estendendo a mão. — É um prazer conhecê-la.
Apertei a mão dele com firmeza, tentando demonstrar confiança. O escritório era amplo, com paredes de madeira escura e uma janela que deixava entrar a luz do sol da manhã. A mesa dele estava organizada com pastas e papéis empilhados. O diretor Maurício Teixeira era um homem imponente, de postura ereta e olhar sério. Seu cabelo, grisalho e bem aparado, contrastava com a pele morena e vincada pelas linhas do tempo. Tinha olhos escuros e intensos, que me analisavam com atenção, mas sem hostilidade. Usava um terno escuro impecável, que reforçava ainda mais a autoridade que emanava dele.
— Sente-se, por favor. Gostaria de lhe dar as boas-vindas pessoalmente — disse ele, acomodando-se na cadeira. — Sei que começar aqui pode ser… desafiador. Mas quero que saiba que confiamos em seu trabalho.
— Obrigada, senhor — respondi, ajeitando a postura. — Eu sei que vai ser uma grande responsabilidade. Estou pronta para encarar.
Ele me observou por um segundo e soltou um sorriso pequeno.
— É isso que quero ouvir. Hoje você vai passar por uma breve integração com a equipe e vai conhecer a rotina. Não tenha medo de perguntar ou pedir ajuda, principalmente nos primeiros dias.
Assenti, tentando absorver cada palavra.
— Vou lhe apresentar à equipe de enfermagem. Monique e Sebastian são muito competentes — ele disse. — Eles vão acompanhá-la nesse período de adaptação.
— Certo — murmurei. — Obrigada pela confiança.
Ele fez um gesto de cabeça, como se aprovasse minha determinação.
— Eu espero muito profissionalismo e, acima de tudo, humanidade. Aqui dentro, você vai lidar com histórias difíceis. Mas lembre-se: todos merecem dignidade. Boa sorte, doutora.
— Pode deixar — respondi, sentindo o peso daquela responsabilidade se acomodar no meu peito. Quando me levantei para sair, o diretor apenas disse:
— Monique e Sebastian vão lhe aguardar no corredor.
Saí do escritório com o coração acelerado. Estava nervosa, mas, ao mesmo tempo, uma chama de determinação crescia dentro de mim. Eu sabia que aquele dia marcava o início de algo importante.