Finalmente fui chamada para entregar os documentos. O funcionário que me recebeu parecia entediado, mas profissional. Conferiu cada papel com olhar minucioso e anotou tudo no sistema. Enquanto ele digitava no computador, eu tentava manter a cabeça erguida, mas meu estômago parecia dar voltas.
— Está tudo certo, doutora — ele disse com um leve sorriso no rosto. — Semana que vem já pode começar. Segunda-feira, certo?
— Isso — respondi, tentando sorrir de volta. — Vou começar na segunda.
Ele confirmou o horário para mim: segunda, quarta e sexta das 7h às 14h, e terça e quinta das 9h às 17h. Assenti com a cabeça, repetindo mentalmente a escala como quem grava um mantra para não esquecer.
Enquanto ele folheava cada folha, o som do carimbó batendo contra a madeira da mesa me fazia pular por dentro. Eu sentia meu coração disparado, como se fosse me faltar ar. Respirei fundo, tentando me lembrar de tudo o que eu havia conquistado para chegar ali. Mas a cada segundo que passava, eu só conseguia pensar em quantas coisas estavam mudando.
— Assina aqui, doutora — ele disse, me estendendo um formulário. Sua voz era seca, quase impessoal, mas não era por maldade. Era só a regra ali.
Peguei a caneta, mas meus dedos tremiam. Assinei meu nome tentando fazer a letra parecer firme, embora sentisse a mão toda vacilar. Cada traço da caneta parecia um passo a mais para dentro de um mundo novo e um passo mais longe de tudo que eu já conhecia.
— Seu crachá está pronto na segunda, passe na recepção para pegá-lo — ele falou com a calma de quem faz aquilo todo dia. — Na segunda também será dada algumas instruções para a senhorita, tudo que precisa saber sobre o lugar e também a adaptação.
Apenas assenti, sentindo um aperto no peito. Era real, agora não havia mais volta.
— Seja bem-vinda ao sistema penitenciário — completou, com um sorriso amarelo, enquanto estendia a mão para me cumprimentar.
Apertei a mão dele, com um “obrigada” que saiu mais contido do que eu gostaria. Era como se as palavras ficassem presas na garganta.
Saí da sala tentando manter a postura, mas meus ombros estavam tensos e as mãos ainda seguravam firme a pasta de documentos — mesmo que eu não precisasse mais dela. O corredor parecia maior do que realmente era, e meus passos ecoavam baixo no piso liso, acompanhados do barulho de vozes distantes e do telefone tocando na recepção.
Ao passar pela porta, respirei fundo, sentindo o cheiro de café e de tinta de impressora misturados. Um frio subiu pela minha espinha, mas tentei me concentrar no fato de que, dali em diante, tudo mudaria. Passei novamente pela mulher da recepção, que me deu um aceno quase automático, e fui em direção à saída do prédio.
Quando alcancei a calçada, fechei os olhos por um instante e deixei que o sol da manhã esquentasse meu rosto. Era como se eu precisasse desse calor para lembrar que, apesar de tudo, eu estava exatamente onde deveria estar. O medo ainda estava ali, pulsando em mim, mas misturado com um orgulho que me fazia querer continuar.
Caminhei até o carro com passos mais lentos, sentindo cada detalhe ao redor: o barulho dos carros passando na rua, o vento suave que balançava meu cabelo e a pasta de documentos que parecia mais leve agora que já não guardava um peso tão grande.
Abri a porta do Celta e sentei no banco do motorista, largando a pasta no banco ao lado. Apoiei as mãos no volante por um momento, encarando o retrovisor, e vi meu reflexo: os olhos um pouco arregalados, mas também determinados. Respirei fundo outra vez e, antes de dar partida, fechei os olhos por alguns segundos, tentando encontrar um fio de tranquilidade no meio do turbilhão que sentia.
Cheguei no apartamento larguei a bolsa no sofá com um suspiro. As paredes do apartamento pareciam ecoar o turbilhão que estava dentro de mim — ansiedade, esperança e um medo que ainda não conseguia nomear. Fechei a porta com cuidado, como se quisesse que o silêncio do lugar me abraçasse de leve.
O sol da manhã ainda escorria pelas cortinas, pintando a sala com tons dourados que me acalmaram um pouco. Passei a mão pelos cabelos, tentando me ancorar naquele momento. Estava suada, meio cansada, mas tinha uma energia nova dentro de mim. Era como se finalmente tivesse entendido que, apesar de todas as dúvidas, eu estava no caminho certo.
Deixei meus sapatos de lado e fui para a cozinha, pegando um copo de água gelada. O primeiro gole desceu como um alívio, me trazendo de volta para o presente. Apoiei os cotovelos no balcão, a cabeça ainda fervilhando com tudo que tinha vivido naquele dia.
As palavras do diretor administrativo ecoavam nos meus ouvidos: “Seja bem-vinda ao sistema penitenciário”. Eu repetia mentalmente, tentando absorver o peso e a responsabilidade que vinha com isso. Tive vontade de ligar para minha mãe. Queria compartilhar o quanto estava feliz e orgulhosa de mim mesma, mas já tinha falado com ela mais cedo. Apesar de ter aceitado, em parte, que eu começaria como médica do presídio, eu sabia que ela ainda não acreditava totalmente que essa era a escolha certa. Ela sempre dizia que eu tinha “nascido para cuidar de vidas”, mas o medo de me ver trabalhando em um lugar tão duro ainda pairava na voz dela, mesmo quando ela tentava esconder.
Eu respirei fundo e deixei o celular de lado. Em vez de insistir em convencê-la, decidi que, dessa vez, deixaria que ela visse por si mesma quem eu estava me tornando.
No entanto, eu precisava dividir aquilo com alguém. Peguei o celular e escrevi para Ricardo, sentindo o peito se aquecer enquanto digitava:
“Começo semana que vem. Vai ser puxado, mas eu tô pronta.”
A resposta veio quase no mesmo segundo:
“Eu sei que você tá pronta. E eu vou estar aqui.”
Um sorriso involuntário escapou dos meus lábios. Fechei os olhos, apoiando a cabeça no encosto do sofá. Ele sempre sabia o que dizer para me acalmar — não precisava de muitas palavras, só daquela firmeza que sempre me atraía nele. Eu me sentia ancorada, mesmo que o futuro fosse tão incerto.
Levantei devagar, indo para o quarto, onde o sol entrava pela janela e deixava tudo com um brilho quente. Joguei a bolsa sobre a cômoda e me sentei na beirada da cama, olhando para fora. Ali, sozinha, eu respirei fundo e deixei que o silêncio me trouxesse alguma clareza.
Foi nesse momento que senti algo novo florescer dentro de mim. Um orgulho quieto, mas firme, de quem sabe que está vivendo sua própria história, sem moldes, sem agradar ninguém. Senti o coração bater mais calmo e fechei os olhos, murmurando baixinho para mim mesma:
“É só o começo. Mas é o meu começo.”
E pela primeira vez, senti que esse recomeço era todo meu — e que, de alguma forma, tudo ia dar certo.