Já era domingo, e eu sentia a ansiedade e o nervosismo correndo por cada parte do meu corpo. Amanhã começaria meu trabalho no presídio e, por mais que eu tentasse me convencer de que estava pronta, ainda me pegava imaginando todas as coisas que poderiam dar errado.
Eu já tinha vestido o jaleco algumas vezes só pra me sentir no papel. Peguei meu estetoscópio e fiquei olhando para ele como se fosse um amuleto, um símbolo da médica que eu era e da que precisava ser, agora mais do que nunca.
Ricardo estava deitado ao meu lado no sofá, um braço me envolvendo pelos ombros. A TV estava ligada num filme qualquer que eu nem conseguia prestar atenção, perdida nos meus pensamentos.
— Ei, para com isso. — ele disse, virando o rosto pra mim, a mão acariciando meu braço. — Vai dar tudo certo, Marcela.
Eu suspirei, me aninhando mais perto dele.
— Eu sei, Ricardo… é só que eu tô tão nervosa. Esse lugar… trabalhar num presídio, com tudo que a gente já ouviu sobre lá… é como se eu tivesse um peso novo nos ombros.
Ele encostou a testa na minha, um meio sorriso nos lábios.Ele me olhou com aquele jeito intenso, que sempre me fazia esquecer o mundo lá fora. Seu toque era calmo, mas ao mesmo tempo cheio de urgência, como se quisesse me provar que tudo ia ficar bem.
— Eu conheço você melhor do que ninguém, Marcela. — ele murmurou, passando o polegar de leve pela minha bochecha. — Eu sei que tá com medo, mas eu também sei que você tem coragem de sobra.
Suspirei, sentindo meu coração bater mais rápido. O calor da mão dele, a firmeza do braço me segurando… parecia que, mesmo que o mundo desabasse, ali seria meu porto seguro.
— Eu te amo, Ricardo. — confessei num sussurro, a voz embargada.
Ele sorriu de leve e me puxou para um beijo suave, que começou devagar, como um toque de promessa. O gosto dele misturado ao meu era como um alívio, um remédio contra toda a ansiedade que me sufocava.
— Eu também te amo. — ele disse contra meus lábios, a respiração quente. — Você é tudo pra mim, Marcela.
As mãos dele começaram a explorar meu corpo com calma, segurando minha cintura, subindo pelas minhas costas. Eu senti cada arrepio que ele provocava, cada batida do meu coração ficando mais forte. Passei as mãos pelos ombros largos dele, puxando-o mais pra perto, querendo esquecer tudo o trabalho, o medo, o mundo lá fora.
Ele se inclinou mais sobre mim, me deitando no sofá. Os beijos ficaram mais intensos, mais urgentes, como se o tempo tivesse parado só pra nós dois. Minhas pernas se enroscaram na dele, e por um momento eu não pensei em nada além da certeza de que ele era meu e eu era dele.
— Eu preciso de você agora. — murmurei, a voz falhando.
Ele me olhou nos olhos, ofegante, e sorriu de leve, passando a ponta do nariz na minha pele.
— Você me tem. Sempre.
As mãos dele começaram a abrir os botões da minha blusa, mas foi nesse instante que a campainha tocou um som estridente que cortou o clima como uma lâmina.
Ele parou de imediato, respirando fundo. Eu ainda estava ofegante, meu corpo latejando, querendo continuar, mas o toque insistente da campainha nos puxou de volta pra realidade.
— Droga… — ele resmungou, rolando os olhos e se afastando um pouco.
Eu suspirei, tentando recuperar o fôlego e o juízo, puxando a blusa de volta pro lugar. Ele se levantou, ajeitando a camisa e passando a mão no cabelo, irritado. Eu também senti a irritação pulsar no peito, um incômodo por aquele momento que tinha sido só nosso ter sido interrompido tão de repente. Queria que o mundo lá fora simplesmente desaparecesse, só por mais alguns minutos.
— Quem será essa hora? — ele perguntou, a voz carregada de frustração.
Eu balancei a cabeça, tentando disfarçar minha própria raiva. Sabia que não adiantava alguém estava lá fora, e o toque insistente da campainha nos lembrava que não podíamos ignorar.
— Deve ser a Sarah… — murmurei, o coração ainda acelerado e a respiração pesada.
Ele respirou fundo e foi em direção à porta, ainda com um suspiro impaciente que combinava com o meu. Eu fiquei ali, no sofá, sentindo meu corpo inteiro ainda pulsando e com um gosto agridoce na boca, um misto de desejo e de raiva por não ter tido tempo de terminar o que tínhamos começado.
Ricardo abriu a porta e logo soube que era Sarah.
— Tô atrapalhando vocês dois? — falou ela, num tom meio cínico, com um sorriso de quem sabe exatamente o que está fazendo.
Eu m*l tive tempo de abrir a boca para dizer qualquer coisa, quando Ricardo respondeu por mim:
— E se eu disser que sim? — retrucou, a voz carregada de frustração.
Sarah apenas revirou os olhos, como se a resposta dele fosse nada além de uma piada boba. Sem perder tempo, passou direto por Ricardo, quase empurrando o ombro dele para o lado, e veio em minha direção com aquele jeito dramático e invasivo que eu já conhecia tão bem.
— Desculpaaa, amiga, por vir sem avisar… Mas eu pensei que a gente pudesse sair pra comemorar. — disse, com aquele sorriso largo e as mãos estendidas para mim, quase me obrigando a me levantar do sofá.
Eu me ergui, ainda tentando processar tudo. Meu rosto ficou meio tenso, por dentro eu estava um pouco irritada também. Ela nem parecia perceber que tinha invadido um momento íntimo, que tinha interrompido algo que eu precisava, algo que me fazia bem e me lembrava porque eu estava disposta a enfrentar tudo.Eu queria gritar que não, que eu não queria sair, que ela tinha arruinado a única calma que eu estava encontrando.
Sarah me abraçou, e eu retribuí com um gesto um pouco mais frio do que o normal. Ricardo, atrás dela, cruzou os braços e me lançou um olhar que eu sabia bem o que significava: “Você vai mesmo sair com ela agora?”
— Sarah, eu… não sei se quero sair hoje. Tô nervosa demais…
— Ah, Marcela! — ela insistiu, segurando minhas mãos. — Só hoje, por favor! Um brindezinho pela nova concursada!
Olhei pra Ricardo, que parecia não gostar nada da ideia, mas também não disse uma palavra. Sabia que se eu dissesse não, ela ia ficar insistindo até eu ceder. Eu me levantei devagar, com o coração meio apertado. Não consegui evitar de ficar um pouco irritada, nossa noite tinha sido interrompida, e eu precisava tanto daquele carinho e daquela paz. Mas também… Sarah parecia tão empolgada, e ela era minha amiga. Não queria brigar.
— Tudo bem, Sarah. A gente pode sair um pouco. — falei, tentando controlar o tom.
Sarah vibrou, me abraçando de novo.
— Vai ser ótimo! Já chamei Marisa, Lilia, Naomi, Anna, Renan , Maycon, Ruan. Vamos comemorar como se deve!
— Você chamou meus amigos? — Ricardo ergueu a sobrancelha, mas a voz dele estava calma, como se tentasse esconder a irritação.
— Claro, por que não? — Sarah sorriu. — É uma conquista dela, e vocês dois têm que celebrar juntos.
Ricardo me olhou e, mesmo sem falar nada, entendi que ele não estava nem um pouco feliz com aquilo. Mas não ia deixar transparecer na frente de Sarah. Ricardo suspirou e foi para a cozinha, provavelmente para se acalmar. Ele odiava esse jeito impulsivo dela, e eu entendi. Eu mesma estava meio exausta, mas ao mesmo tempo, tinha um pedacinho meu que sabia que aquela comemoração era importante. Eu tinha conquistado algo grande.
— Então vamos. — ele disse apenas, pegando a chave do carro. — Vai ser só um brinde rápido, certo?
— Certo. — respondi, mas no fundo sabia que com Sarah nunca era só um brinde rápido.