O relógio no painel marcava 13h55. Larguei a caneta, minhas anotações parecendo triviais diante do turbilhão de pensamentos. Encerrei o expediente em um torpor. Os últimos cinco minutos foram uma eternidade, minha mente já longe dali.
Ao sair da penitenciária, o sol da sexta-feira me atingiu com uma intensidade que parecia querer queimar as últimas cenas do dia. Atravessei os corredores, cumprimentando os guardas com um aceno mecânico, a mente ainda girando em torno de Cyber. Na recepção, peguei meus pertences de volta, a aliança de noivado em meu dedo parecendo pesar mais do que o normal. O metal frio, antes um lembrete do atrito com Ricardo, agora se misturava à estranha e perturbadora "proposta" de um detento.
O caminho para casa foi feito no piloto automático. As avenidas movimentadas, o calor típico, tudo passava como um borrão pela janela do carro. Eu precisava de um banho demorado para lavar não só o cansaço do dia, mas também a sensação de ter sido exposta a algo tão cru.
Quando a chave girou na fechadura do apartamento, o silêncio do lar me envolveu, um contraste gritante com a tensão da penitenciária. Joguei a bolsa e o jaleco no sofá, sem me importar com a bagunça. A primeira coisa que fiz foi ir para o chuveiro, deixando a água quente escorrer pelo corpo, na esperança de levar embora o peso das últimas horas. Mas, mesmo sob o chuveiro, a voz grave de Cyber, seu sorriso enigmático e a pergunta "preciso conversar sobre as merdas que passei" continuavam a ecoar em minha mente.
[...]
Vesti uma calça de tecido leve e uma blusa solta, nada demais. Afinal, era só um jantar casual com Sarah, e o conforto era a minha prioridade. Enquanto me olhava no espelho, a imagem de Ricardo surgiu em minha mente. A raiva da manhã ainda me ardia, aquele ciúme controlador dele, a forma como tentou ditar o que eu vestia para o trabalho. "Você quer chamar atenção, Marcela." As palavras dele ecoavam, pesadas. Ele era tão… previsível em sua insegurança. E eu estava tão cansada de ter que me moldar aos humores dele. O relógio na parede indicava que a chegada dele estava próxima, e eu agradecia mentalmente por estar saindo antes.
A campainha tocou, tirando-me dos meus pensamentos. Era Sarah. Abri a porta e fui recebida por um abraço apertado e o turbilhão de sua voz.
— Amigaaa! Que saudade! A semana foi uma loucura, não é? Preciso te contar tanta coisa! — ela tagarelava, animada, enquanto entrávamos na sala.
Eu sorri, um pouco forçado, e murmurei um "Também senti sua falta", enquanto ela continuava a falar sobre a semana, uma fofoca de trabalho aqui, um desabafo sobre o trânsito ali. Tentei prestar atenção, mas minha mente estava em outro lugar, dividida entre a mágoa persistente por Ricardo e a proposta estranha de Cyber. A voz de Sarah parecia distante, e eu me sentia desconectada, esforçando-me para não deixar transparecer meu desinteresse.
Sarah finalmente fez uma pausa, olhando ao redor do apartamento.
— Cadê o chato do Ricardo? — perguntou, com seu tom de brincadeira. Dei de ombros, pegando minha bolsa.
— Ainda não chegou do plantão. — A voz saiu mais seca do que eu pretendia. — Mas eu vou mandar uma mensagem para ele avisando que saí com você.
Peguei o celular e abri o aplicativo de mensagens. Digitei rapidamente, sem pensar muito nas palavras.
“Saí para jantar com a Sarah.”
Enviei a mensagem sem esperar uma resposta. Apenas o "enviada" na tela me deu uma sensação de pequena vitória. Guardei o celular e olhei para Sarah, forçando um sorriso mais convincente.
— Vamos? Estou morrendo de fome.
[...]
Formos um restaurante próximo ao meu apartamento, ficava a algumas quadras apenas mas Sarah quis ir de carro. Não a questionei, pois estava com a cabeça cheia.
Quando chegamos escolhemos uma mesa reservada e Sarah não parava de olhar para o garçom,ela estava flertando com ele ali na cara dura. Às vezes, ou muitas vezes, não gostava muito dessas suas atitudes, mas apenas relevava. 'Isso não é da minha conta', repeti mentalmente, desviando o olhar para o cardápio. Às vezes, ou muitas vezes, eu não gostava muito dessas atitudes dela, mas apenas relevava.
Fizemos o pedido do jantar e, quando o garçom saiu de perto:
— Ele é muito gato — Sarah falou, ainda o observando, com um sorriso de canto.
Apenas dei com os ombros, sentindo um peso enorme. Aquilo era o menor dos problemas que eu tinha que me preocupar, uma gota no oceano de pensamentos que inundava minha mente.
— Então, amiga… acho que finalmente escolhi qual é a especialização que eu quero.
Sarah tinha passado um ano pensando na sua especialização, mas não queria fazer nenhuma, pelo simples fato de não querer atuar em nada e fazia questão de deixar isso claro. Eu até tentei ajudar ela impulsionando em várias áreas, como pediatria, mas ela não gostava de criança, ou então ginecologia, mas disse “já basta eu ver minha bucet@ todo dia”. Tinha outras, mas ela também não se identificava, arrumando sempre uma desculpa esfarrapada para não atuar em nada. Sarah vinha de uma família de médicos, e era um fardo para ela ter que seguir os passos deles, principalmente no quesito de sua especialização. Eles não queriam que ela fosse apenas clínico geral.
— Sério? Que bom, amiga! — falei, surpresa, e Sarah sorriu. Eu realmente estava feliz por ela ter escolhido a especialização depois de tanto tempo. — Qual especialização?
— Cardiologia! — A palavra me fez engasgar com o ar. Olhei para Sarah com incredulidade. Era a última coisa que eu esperava. Ela nunca gostou de cardiologia, dizia que essa área era péssima e que ela não servia para cuidar do coração dos outros porque o dela já era o suficiente. E outro ponto que a fazia não escolher essa especialização era que Ricardo também era cardiologista, e ela sempre odiou a área por conta disso.
— Escolheu assim do nada? — a questionei, e ela me deu um sorriso que parecia prever minha próxima pergunta.
— Claro que não, Mar. Olhei o salário de cada uma das profissões, e o cardiologista está ganhando bem melhor que as outras especializações — falou como se fosse óbvio. Sarah visava muito dinheiro, e esse era sim um ponto requisitado por ela. — Acho que Ricardo vai me odiar mais depois que souber.
Ela deu uma gargalhada, um som estridente que ecoou no restaurante. Sarah gostava de perturbar Ricardo, e os dois não se bicavam de vez em quando; eu sempre acabava no fogo cruzado, um mediador exausto de suas farpas mútuas. O falatório incessante de Sarah, que em outro momento seria divertido, agora parecia um zumbido distante em meus ouvidos. Não queria pensar em Ricardo, porque isso me retomava à nossa discussão de manhã, e eu precisava de um respiro.
Sarah, que até então estava envolvida em sua própria empolgação, parou subitamente. Seus olhos, sempre tão expressivos, fixaram-se nos meus com uma perspicácia que eu conhecia bem. O sorriso dela desvaneceu um pouco.
— Marcela, o que você tem? Você está estranha, aérea.
Minha garganta se apertou. Por um momento, hesitei, ponderando se deveria desabafar sobre o soco no estômago que a manhã havia me dado. As palavras de Ricardo, o ciúme, a falta de respeito… e a proposta enigmática de Cyber, tudo se misturava em uma névoa pesada. No fim, respirei fundo, decidindo pela versão mais resumida possível. Não valeria a pena. Eu já sabia qual seria a resposta, o conselho de sempre, repetido à exaustão, que viria com a força de um martelo.
— Eu e Ricardo discutimos hoje — eu disse, a voz baixa, desviando o olhar para a mesa. Não queria falar mais que isso, porque já sabia que Sarah iria me dar o mesmo conselho de sempre: acabar o namoro com Ricardo.
Antes que eu pudesse sequer pensar na insistência que viria, Sarah se inclinou sobre a mesa e me abraçou, um gesto rápido, mas cheio de carinho que me pegou de surpresa.
— Oh, amiga! — Sua voz, agora mais suave, mas ainda com a energia peculiar dela, ecoou perto do meu ouvido. — Espero que ele se desculpe, seja lá o que ele tenha dito. Eu nem preciso que me conte o que aconteceu, eu sei que ele está errado. Homens sempre estão errados!
As palavras de Sarah, carregadas de uma lealdade inabalável e um humor despretensioso, me atingiram de uma forma que eu não esperava. Um pequeno sorriso, genuíno, surgiu em meus lábios. Uma parte da tensão que eu carregava se desfez. Era um alívio ter Sarah ali, com sua simplicidade e seu apoio incondicional, mesmo que ela não soubesse da complexidade real dos meus problemas.