Logo depois de consultar Tales, o outro paciente que eu iria ministrar o coquetel de remédios apareceu no consultório. Sua condição, felizmente, não era tão urgente quanto a do paciente anterior. Ele era um paciente com HIV, já habituado aos coquetéis semanais de remédios. A consulta transcorreu de forma rotineira e bem tranquila.
Depois que ele saiu, fiquei sozinha no consultório. O silêncio me convidou à reflexão sobre o dia, um alívio após a intensidade da emergência. Por um momento, a discussão com Ricardo se dissipou, e eu me permiti focar na minha performance profissional. Senti um orgulho discreto por ter sido uma boa médica, por não ter deixado que os pensamentos intrusivos que ele plantou me desviassem do meu propósito ali. O trabalho, afinal, era o meu santuário.
Meu expediente terminaria às 14h. O relógio marcava 13h, o ponteiro avançando lentamente. Faltava exatamente uma hora para sair da penitenciária. Um suspiro leve escapou, pensando no jantar com Sarah, a promessa de uma conversa leve e descontraída.
Escuto batidas na porta. Um ritmo familiar. Inicialmente, pensei ser Monique, ela tinha falado que viria no consultório para me deixar um doce.
— Pode entrar — digo calma, a voz um pouco mais suave do que o habitual, já esperando o sorriso dela.
Ainda estava distraída em minhas anotações, o arranhar da caneta no papel era o único som no consultório, mas mantive a cabeça baixa, esperando por Monique. Esperei que ela falasse alguma coisa, um "bom dia" ou um comentário sobre o doce, mas um silêncio pesado preencheu o espaço. Não o silêncio confortável de antes, mas um silêncio carregado, quase elétrico.
— Boa tarde, Doutora — aquela voz grave preencheu o consultório, e um arrepio percorreu minha espinha. Não era Monique. Meus olhos correram de encontro à porta, e ali, parado na soleira, estava Cyber. Seu olhar, intenso e presunçoso me observava. E mais uma vez fui totalmente surpreendida por sua presença, pela forma como ele parecia preencher o ambiente sem precisar dar um passo.
Por um momento, minha mente ficou em branco, os olhos fixos na figura imponente dele. Fiquei paralisada, um nó na garganta me impedindo de reagir. Era como se o ar tivesse rarefeito no consultório, e apenas a presença dele importasse.
Um sorriso de canto, quase imperceptível, mas que carregava uma dose de desafio, surgiu nos lábios dele.
— Posso sentar? — perguntou, apontando para a cadeira à minha frente, a voz grave mais uma vez preenchendo o espaço.
Saí do transe.
— Sim, claro. Fique à vontade. — Minha voz soou um pouco mais fraca do que eu gostaria.
Ele se sentou na cadeira à minha frente, mas seus olhos, intensos e fixos, não se desviaram dos meus. Senti um calor incômodo subir pelo meu pescoço, como se estivesse sendo minuciosamente analisada, cada fibra da minha pele exposta. Para quebrar o silêncio pesado e o desconforto que ele causava, tentei assumir o controle da situação.
— Então, Cyber, como você está se sentindo? — perguntei, buscando a ficha, a voz profissional. Queria entender o motivo de sua consulta repentina, para quebrar aquela tensão.
Ele não respondeu de imediato, seu olhar ainda preso no meu, um pequeno sorriso ainda dançando em seus lábios. O silêncio se esticou por alguns segundos antes que ele falasse.
— Você fez medicina, certo? — perguntou, a voz calma, mas com uma estranha ponta de curiosidade. Assenti, confusa.
— Então já deve ter assistido alguma aula sobre psicologia. — Minha testa franziu em confusão. Aquela pergunta era completamente inesperada, destoando de qualquer protocolo médico. — Sendo assim, acho que você serve para ser minha psicóloga.
Minha mente girou, tentando assimilar a audácia e a peculiaridade daquela "proposta". Psicóloga? Eu? Ali, na penitenciária? Era tão absurdo quanto intrigante. Minha voz saiu um pouco tensa, mas eu precisava entender.
— Por que você precisa tanto de uma psicóloga?
Ele ficou em silêncio por um momento, e pela primeira vez desde que entrou na sala, seus olhos desviaram dos meus, fixando-se em algum ponto no chão. A mudança em sua postura, um leve enrijecimento nos ombros, entregava que o que viria a seguir não era fácil. Por fim, sua voz, que antes era de desafio, assumiu um tom mais grave e carregado de algo que parecia ser cansaço.
— Porque eu preciso conversar sobre as merdas que passei, e preciso de conselhos para melhorar quem sou.
A proposta de Cyber ecoou no consultório, uma melodia dissonante que eu tentava, a todo custo, decifrar. "Psicóloga? Eu?" A pergunta girava em minha mente, repetindo-se como um mantra. Eu era médica, minha função era cuidar de corpos, diagnosticar doenças, prescrever tratamentos. A linha entre o físico e o mental era tênue, sim, mas havia um limite profissional claro, uma barreira invisível que ele estava prestes a testar. Jamais imaginei que, em uma penitenciária, um detento me colocaria diante de um dilema tão íntimo e complexo.
O pedido de Cyber me atingiu de uma forma que as acusações de Ricardo mais cedo não conseguiram. Ricardo me havia desvalorizado, tentado controlar, questionando minha dignidade e profissionalismo por causa de uma calça jeans. Cyber, um preso, estava ali, vulnerável, pedindo ajuda para "melhorar quem sou". A ironia era c***l. O homem que deveria me amar desconfiava de mim, enquanto um estranho, em um ambiente hostil, confiava a mim uma parte tão íntima de sua alma. Era um contraste gritante que me fez questionar o que era o verdadeiro respeito e a confiança.
Uma parte de mim, a profissional, gritava: "Não faça isso! É perigoso! É contra o protocolo! Minha carreira está em jogo!" As regras da penitenciária eram rígidas, e a ideia de me envolver em algo tão pessoal com um detento era um risco imenso. Poderia custar meu emprego, minha licença, tudo o que eu construí com tanto esforço.
Mas, por baixo dessa camada de cautela, uma curiosidade genuína começava a brotar. O que levaria um homem como Cyber a fazer um pedido tão incomum? O que ele havia "passado"? A proposta era perigosa, sim, mas também estranhamente instigante. Havia algo nele, ou na situação, que me puxava para um território desconhecido, testando não apenas meus limites profissionais, mas também minha própria humanidade.
Finalmente, consegui encontrar minha voz, um pouco mais firme do que esperava.
— Cyber, eu sou médica, não psicóloga. — Minha voz soou profissional, tentando estabelecer a linha que ele parecia querer cruzar. — Minha função aqui é cuidar da sua saúde física. Existe um profissional específico para as questões que você mencionou, alguém capacitado para isso. Como você mesmo disse, uma psicóloga.
O olhar de Cyber permaneceu fixo em mim, e, por um instante, um lampejo de algo que parecia frustração cruzou seu rosto, mas desapareceu tão rápido quanto surgiu. Ele não disse nada, apenas me observou. Ele se inclinou levemente para a frente, a voz em um tom mais baixo, quase uma sugestão.
— Não precisa me responder agora, doutora. Só pense na proposta.
Eu não tive tempo de formular qualquer resposta. Ele já se levantava da cadeira com uma calma calculada, movendo-se em direção à porta. Justo quando pensei que ele sairia sem mais palavras, ele se virou novamente, o corpo parcialmente fora da sala.
— Boa tarde, doutora. — Ele lançou um sorriso sutil, um brilho enigmático em seus olhos, quase como uma promessa. — Sei que vai pensar sobre.
E então, ele se foi, deixando o consultório em um silêncio que agora parecia ainda mais pesado, preenchido apenas com a sua proposta e as minhas próprias indagações.