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1292 Words
Cheguei na penitenciária no horário exato. Ainda estava abalada pelo ocorrido mais cedo com Ricardo, mas não deixaria isso transparecer, não no meu ambiente de trabalho. Respirei fundo umas três vezes, sentindo o ar expandir meus pulmões numa tentativa de expulsar o nó que se formara em meu estômago. O sorriso que forcei para os guardas parecia colar em meus lábios, frágil como um vidro prestes a quebrar, mas me recusei a deixar que a discussão com Ricardo me abalasse ali. Não naquele ambiente. Embora as palavras dele ainda estivessem gravadas em minha mente, e um misto de raiva e tristeza pairasse como uma névoa densa. Saí do carro, apertei o botão da trava e entrei na penitenciária. Dei um bom dia aos guardas com um sorriso meigo nos lábios, porque ninguém tinha culpa da minha tristeza e isso não significava que eu teria que ser m*l-humorada com eles. Fui agradável com a recepcionista, deixando algumas peças que estavam no protocolo da prisão, como, por exemplo, anel, brinco e cordão. Pelo regimento da penitenciária, os presos poderiam pegar esses pertences dos médicos, e isso se configuraria como furto. A fim de evitar tal ato, todas as pessoas que trabalham no consultório e na enfermaria deixavam todos os seus pertences na recepção em um pequeno saco transparente. Tirei o anel de noivado, a aliança gelada em meus dedos, um contraste amargo com o calor que ainda queimava em meu peito por causa da discussão com Ricardo. Por um instante, o metal parecia pesar uma tonelada, um lembrete físico do nó que se apertava em meu estômago. Com um suspiro, deixei-o cair no pequeno saco transparente junto ao colar. Peguei a chave do consultório, seguindo pelo corredor. Coloquei meu jaleco e, em seguida, escutei batidas na porta. — Pode entrar — falei, ainda arrumando as minhas coisas. Monique apareceu com um sorriso agradável nos lábios, sua presença imediatamente trazendo uma leveza ao ar. — Bom dia, Marcela — disse, aproximando-se de mim e me abraçando. Monique era carinhosa; nos conhecemos há uma semana e ela já me tratava como se me conhecesse há tempos. Eu precisava daquele abraço acolhedor. Por um momento, o peso nos meus ombros diminuiu, e as palavras de Ricardo pareceram se afastar, mesmo que por alguns segundos preciosos. Era como se, por um instante, o mundo exterior com seus problemas pudesse esperar. — Bom dia, Monique — disse depois que nos separamos. — Doutora, hoje temos um dia cheio — falou, me mostrando uma ficha. Tinha alguns nomes nela. — Vamos dar um coquetel de remédios a dois detentos. Eles são pacientes do Doutor Robson, mas infelizmente ele não virá hoje, então os pacientes dele passaram para você. O primeiro é Tales Mikeias. Ele tem tuberculose e passou m*l ontem à tarde, não estava tomando os remédios adequadamente. Temos que ter bastante cuidado quando ele chegar. Você mais que eu sabe que tuberculose passa de uma pessoa para outra. Tentava absorver tudo o que Monique falou. O primeiro ponto era que o outro médico não veio, sendo assim, eu teria que cuidar de seus pacientes. O segundo ponto: iríamos ministrar um coquetel de remédios para um tuberculoso, e isso corria o risco de infecção. Para tuberculose, utilizamos quatro remédios combinados para tratar a infecção. Então, seriam quatro remédios. A tuberculose é uma doença infecciosa causada por bactérias e é contagiosa. Além disso, a pessoa que tem essa doença, no seu estágio mais grave, tem febre constante e também tosse muitas vezes acompanhada de sangue. — Qual o estágio dele? — perguntei. Monique leu a ficha. — Grave — falou. Ou seja, o paciente estava muito m*l. — Okay. Irei pegar um remédio injetável, certo? E os outros três podem ser em comprimido. Monique assentiu com a cabeça. — Irei na farmácia pegar todos os remédios — ela falou, indo até a porta da sala e logo em seguida saindo. Hoje seria complicado. Seria a primeira vez que tratava uma pessoa com tuberculose. Lembrei-me da aula de doenças infecciosas, a professora foi bem clara que, quando tratávamos pacientes em estágio grave, todo cuidado era pouco e que, por precaução, seria indispensável o uso de máscara e luvas. Enquanto colocava as luvas, Monique chegou com todos os remédios, entregando-os. — Eu irei pedir aos guardas que tragam o detento — ela falou. Apenas assenti. Pouco tempo depois, ouvi batidas na porta. Apenas disse um "pode entrar" e os guardas entraram juntamente com o preso. Ele parecia visivelmente m*l. Estava pálido e desnutrido, andava vagarosamente. Monique entrou logo em seguida. — Podem-no colocar na maca, por favor — digo aos guardas. O detento se deitou. Fui até ele. — Bom dia, meu nome é Marcela e eu irei te atender hoje. Peguei a sua ficha. Iria confirmar algumas informações sobre ele. — Seu nome é Tales Mikeias, tem 35 anos, e contraiu tuberculose há 8 meses — ele assentiu com tudo que eu falei. Por um momento, senti pena. Ele estava m*l. — Pode me dizer onde está doendo, por favor? Ele apontou para o tórax. Comecei a apalpar seu tórax. Depois peguei o estetoscópio e ouvi seu coração; dava para sentir sua dificuldade para respirar. — Certo. Irei te dar três comprimidos para tomar agora. Eles servem para tratar da tuberculose juntamente com um injetável — falei, já pegando todos os remédios. Monique se certificou que ele tomou todos os remédios e logo ela também aplicou o injetável. — É visível que você está com dificuldade na respiração. Também passei um remédio para isso, okay — ele assentiu. E depois começou a tossir desesperadamente e eu vi sangue. Rapidamente peguei um papel toalha para que ele se limpasse. Ele não poderia ficar dessa forma. Não mesmo. — Monique, por favor, quero que pegue um corticoide injetável. Ele está sentindo falta de ar — digo rapidamente. Comecei fazendo uma massagem no seu tórax para aliviar. Monique logo chegou e injetou o corticoide. Tales soltou um grunhido, convulsionando de dor. — Monique, chame os enfermeiros! Ele precisa de oxigênio. Está com baixa oxigenação pulmonar. Ele precisa ser levado para a enfermaria — digo rapidamente, ainda fazendo a massagem no tórax. Monique saiu rapidamente do consultório. Meus olhos fixos em Tales, tentando acalmar o coração acelerado. Eu estava apavorada que ele parasse de respirar a qualquer momento. Enquanto eu continuava a massagem no tórax, as palavras saíam da minha boca quase que por instinto: — Vai ficar tudo bem. Você vai voltar a respirar. — eu disse isso com a voz firme, porque ele precisava de esperança, mas no fundo, um medo gelado me apertava o peito. E se não ficasse tudo bem? E se ele não voltasse a respirar? A responsabilidade pesava, e a imagem do pior cenário piscava em minha mente, mesmo enquanto eu lutava para afastá-la. A porta se abriu e os enfermeiros o levaram na maca para a enfermaria. Ele não conseguia falar pela falta de ar. Fui junto com ele. Chegando lá, a equipe da enfermaria rapidamente colocou uma máscara de oxigênio nele. O efeito foi imediato. A respiração ofegante e a tosse intensa, que o dominavam segundos antes, começaram a diminuir gradualmente. Pouco a pouco, o ritmo de seu peito se regularizava. Um alívio imenso me envolveu. Ele não poderia piorar sob meus cuidados. A ideia de falhar ali era insuportável. Eu tinha que pôr em prática tudo que aprendi. Eu me sentiria uma péssima médica se o deixasse piorar. — Deixe-o no oxigênio por meia hora. Se ele não melhorar a respiração, deixe mais meia hora, okay? — disse ao enfermeiro que estava ao meu lado. Ele assentiu. Quando saí da enfermaria, senti um alívio de dever cumprido. Eu o tinha ajudado, e aquela sensação não tinha preço.
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