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1248 Words
A semana passou rápido, e hoje já era sexta-feira. Meu horário era das sete da manhã às duas da tarde. Ontem à noite, Sarah me ligou para combinar um jantar no restaurante. Ela queria “colocar a conversa em dia”, como ela sempre dizia. Às vezes fazíamos isso com frequência, e eu já imaginava que ela teria novidades. Um novo crush, um encontro frustrante ou alguma história sobre um boy que “transa m*l”. Nada que eu não esperasse. Marcamos para às seis da noite. Ela passaria no meu apartamento, e iríamos juntas. Eu já estava me arrumando para o trabalho, finalizando a semana. Hoje, deixei meu cabelo solto, só prendi um broche de lado. Escolhi uma calça jeans e uma blusa social. Ricardo estava no banho. Ele acordou de mau humor, e nem quis conversar. Tudo bem. Eu entendia. Deve ser cansativo trabalhar em dois hospitais. Me olhei no espelho e gostei do que vi. Soltar o cabelo me deixava com um ar mais jovem, e afinal, eu ainda tinha 25 anos. Quando Ricardo saiu do banheiro, me olhou através do espelho. Seu olhar sério, quase frio. — Você vai assim pro trabalho? — perguntou, a voz carregada de desdém. Eu franzi a testa. "Assim como?", pensei. Eu estava vestida normalmente. Ricardo tinha essa mania de implicar com minhas roupas. Às vezes, eu ignorava. Outras, acabava mudando para evitar brigas. — Assim como? — perguntei, olhando para ele pelo espelho. Ele balançou a cabeça, como se eu estivesse fazendo algo imperdoável. — Você tá vestida como se fosse pra um shopping, não pra trabalhar. Fiquei sem acreditar. Eu estava com jeans, nada demais. — De jeans? Tem algum problema? — perguntei, já sentindo o sangue ferver. — Sim. Tem. — A voz dele saiu firme, grossa. — Inacreditável. Qual é o problema em ir de jeans? — insisti, agora claramente irritada. Virei para encará-lo de frente. Ele sorriu de forma sarcástica, como se eu fosse ingênua ou burra. — Você quer chamar atenção, Marcela. Já não basta ser nova no trabalho, ainda quer se vestir assim? — disse, a voz carregada de raiva. Eu senti como se ele tivesse cuspido as palavras. — Por que você tá com raiva? — perguntei, aumentando o tom. Ricardo apenas bufou, pegando uma camisa social no armário. — Me responde! Ele se virou, ignorando minhas perguntas. Não ia deixar passar. — Você não pode ter raiva só porque eu escolhi uma roupa que você não gosta — falei, o peito ardendo de indignação. Ele nem olhou pra mim. Passou por mim e saiu do quarto, me deixando ali, frustrada. Peguei minha bolsa, meu jaleco, celular e estetoscópio. Quando entrei na cozinha, ele estava de costas, mexendo no café e na torrada. Abri a geladeira e peguei minhas marmitas, um suco e um iogurte. Resolvi ignorá-lo também. Mas quando eu já estava saindo, ouvi a voz dele atrás de mim, carregada de frustração. — Você vai mesmo assim? Com essa calça? — disse, como se não acreditasse que eu não fosse ceder. — Ainda não entendi qual o problema com a minha calça — respondi, o tom de voz cada vez mais frio. Ele riu, balançou a cabeça negativamente. — Você quer chamar a atenção dos presos, não é? — perguntou, e dessa vez senti como se ele tivesse me dado um soco no estômago. Como ele podia pensar isso? — Por que você pensa assim? — perguntei, a voz tremendo de raiva. — Porque eles vão te desejar do mesmo jeito que eu te desejo. E pensar nisso me deixa puto. — Ele quase cuspiu as palavras. Eu fiquei em silêncio, sentindo a tristeza e a decepção me invadirem. Ele não confiava em mim. Não confiava no meu profissionalismo. — Você me conhece. Sabe que eu jamais deixaria que eles me olhassem dessa forma — gritei, a voz falhando no final. Ele apenas me olhou, sem dizer nada. Então, murmurou: — Tenho certeza que eles vão falar “olha lá, vem a médica gostosa”. Uma lágrima de raiva e vergonha desceu pelo meu rosto. Eu a limpei com as costas da mão. Sem trocar mais palavras, fui até a porta. Peguei a chave do carro e minha bolsa, não queria ficar nem mais um segundo ali. Ele veio atrás de mim, apressado. — Marcela… — disse, segurando meu braço para que eu olhasse para ele. Eu não queria. Sentia nojo daquela visão que ele tinha de mim. Eu não era um corpo para ser desejado. Eu era uma médica. Uma profissional. — Eu vou me atrasar para o trabalho — murmurei, soltando meu braço da mão dele. Abri a porta. — Marcela… eu não queria dizer isso… — tentou, mas eu só balancei a cabeça. — Mas disse. E agora eu tenho que ir — falei, saindo antes que minha voz falhasse de novo. Antes de fechar a porta, ouvi Ricardo soltar um porr@. Mas eu estava magoada demais para me importar. Saí do apartamento sentindo o chão sumir sob meus pés. Cada passo era pesado, como se meus sapatos estivessem cheios de chumbo. A porta se fechou com um clique abafado atrás de mim, mas o barulho de Ricardo soltando um "p***a" ainda ecoava em meus ouvidos, misturado às minhas próprias palavras de raiva e àquelas que me feriram profundamente. O elevador parecia levar uma eternidade para chegar, e me vi encarando o reflexo distorcido no metal polido, o rosto contorcido pela mágoa que tentava segurar. Quando as portas se abriram no térreo, a luz da manhã, que antes parecia prometer um novo dia, agora parecia dura e implacável. Caminhei pelo estacionamento com a visão embaçada, as lágrimas que havia contido ameaçando transbordar a qualquer momento. Meu carro, um compacto prata, parecia um refúgio distante. Cada metro percorrido era uma tortura, revivendo as acusações de Ricardo, a incredulidade em sua voz, a humilhação. "Você quer chamar atenção dos presos", "eles vão te desejar", "a médica gostosa". As frases se repetiam em um looping c***l, e eu sentia um nó apertado na garganta, misto de raiva e uma profunda vergonha que não deveria existir. Ao alcançar a porta do carro, minha mão tremia ao tentar destravar. Entrei, batendo a porta com mais força do que o necessário, e me joguei no banco, mas não liguei o motor. Em vez disso, reclinei o assento e fechei os olhos, respirando fundo, tentando acalmar o turbilhão de emoções. As lágrimas, que eu havia teimosamente segurado, finalmente desceram, quentes e abundantes, escorrendo pelas têmporas até os cabelos soltos. Eu precisava desse momento. Precisava processar a crueldade das palavras, a desconfiança dele. Sentia-me invadida, violada em minha dignidade e profissionalismo. Era como se a imagem que Ricardo tinha de mim me diminuísse, transformando-me de médica em mero objeto de desejo. O cheiro do estofamento do carro e o silêncio ,quebrado apenas pelo som de minha própria respiração instável, eram um contraste gritante com o caos que havia deixado para trás e que agora habitava meu peito. Ali, no pequeno espaço de meu carro, eu podia, por um breve instante, ser apenas Marcela: ferida, confusa, mas buscando força para continuar. O relógio no painel marcava as horas, e eu sabia que o trabalho me esperava, mas a verdade é que eu precisava de muito mais do que alguns minutos para me recompor. Precisava entender como o homem que eu amava podia desrespeitar-me e duvidar de mim de uma forma tão brutal.
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