*Elisa*
Na segunda-feira, Elisa ficou sozinha com a tarefa de babá. Com mais um baile se aproximando, Camila não podia deixar a contabilidade de lado para ficar com Beatriz, não que Elisa se importasse, a cada dia que passava, gostava mais de cuidar da menininha. As duas já estavam até se familiarizando, e já que Jamaica ainda parecia abençoadamente normal, sem ciúmes, olhares ou insinuações, ela não via problema em ajudar.
Estava assistindo a Sessão da tarde, seguindo sua rotina habitual com Beatriz no carrinho ao seu lado, quando Jamaica chegou. Como em todos os outros dias da semana anterior, ele deixou a arma sobre o raque, tirou a camisa reclamando do calor e a cumprimentou com um:
— Iaí, como foi o dia de vocês? — se aproximou do carrinho — Como minha princesinha está?
— Tudo ótimo — Lis nem notou que sorria vendo-o babar sobre a menininha — Ela tá bem tranquila hoje.
— Isso aí, filhota, não vamo dá trabalho pra tia Lizzie, se não ela deixa a gente na mão — ele riu, se virando para Elisa, que também ria, pelo menos até ele se aproximar e curvar o corpo na sua direção — E você, tá de boa?
Jamaica deu um beijo na sua testa, observando o seu rosto antes de se afastar e se jogar no sofá ao seu lado. Mais uma vez, foi arrastada para um túnel do tempo, para a época em que ele sempre a cumprimentava com um beijo...
Precisou se concentrar para responder, enquanto revirava os olhos internamente para a reação i****a à um simples beijo na testa:
— Tudo bem.
Enquanto Jamaica estreitava o olhar na sua direção, ela tentava encontrar qualquer indício dos comportamentos “apaixonados” que ele vinha exibindo nos últimos anos. Não encontrou nada. Na verdade, ele parecia prestes a lhe dar uma bronca, o que a fez se consertar no sofá, tentando convencer seu corpo de que o beijo na testa não era mesmo nada demais, ele sempre fazia isso quando eram crianças, e talvez devesse até se sentir grata que ele tenha retomado à essa tradição e não à da adolescência, quando o beijo saiu da testa para acabar no canto da sua boca.
Elisa ainda conseguia lembrar com clareza a primeira vez que ele a surpreendeu com a mudança. Ela tinha quinze anos na época, tinha acabado de chegar de um fim de semana que passou na casa dos tios, Jamaica havia passado os dois dias fazendo ligações para saber como estava e para reclamar da sua ausência, e quando ela chegou na casa dele de surpresa, ele a abraçou, depois se afastou e segurou seu rosto como de costume, o que na época vinha lhe dando um frio na barriga mesmo que soubesse que beijaria sua testa. Mas naquele dia foi diferente, talvez tenha sido a saudade de passar dois dias longe, ela não soube ao certo, só não conseguiu controlar o olhar quando Jamaica sorriu, ainda a segurando. Seus olhos simplesmente resolveram se fixar nos lábios dele, então o sorriso dele foi sumindo, e quando Elisa se deu conta e voltou a encará-lo nos olhos, percebeu que ele também olhava sua boca. Ela prendeu a respiração, ignorou o estômago gelado e quase teve um ataque cardíaco quando ao invés de beijar sua testa, Jamaica se inclinou e beijou o canto da sua boca, deixando-a tonta.
Obviamente, ela reagiu assim que ele a soltou. O empurrou, cruzou os braços e esbravejou:
“O que é que você acha que tá fazendo?”
Jamaica sorriu, o maldito sorriso de quem sabia muito bem que era bonito e que podia usar isso ao seu favor.
“Te dando um beijo de boas-vindas” ele soou inocente, antes de estreitar o olhar para ela “Não vai me dizer que eu te abalei?”
Elisa revirou os olhos, o orgulho falando mais alto que tudo. Fora que ele não tinha lhe abalado, só a pegou de surpresa.
“Não seja i****a” ela havia rebatido, empurrando o ombro dele “A gente é amigo, porque um beijinho bobo desses ia me abalar?”
O sorriso de Jamaica se tornou ainda maior.
“Que bom que não abalou” ele passou o braço sobre os ombros dela, a levando para o sofá “Porque a partir de hoje, eu sempre vou te cumprimentar assim”.
Só por causa do orgulho, ela havia dado de ombros e desdenhado dele, como se não houvesse quase infartado com a porcaria do beijo. Mas na verdade, enquanto se acomodava sob o braço dele e esperava escolher algo para assistir, pensava em como, se pudesse escolher, escolheria não se sentir tão estranha com a proximidade dele como vinha se sentindo naqueles dias. E infelizmente para o pobre coração fraco da Lis do passado, Jamaica havia mesmo mudado o cumprimento dos dois para o beijo perigosamente perto dos lábios e a atormentado com isso durante o ano que se seguiu antes dele estragar toda a amizade dos dois.
— A Pat disse que a tia Luísa ligou para ela — a voz dele a trouxe para o presente, fazendo Lis piscar e lembrar como estava prestes a tomar uma bronca — Sua mãe tá preocupada com você.
— Não tem motivo para isso — rebateu na defensiva — Eu estou bem.
— Mas não precisa estar, Lizzie — sentiu o olhar dele cravado em seu rosto, por isso se esforçou em dobro para manter a expressão neutra.
— Eu sei que não, mas realmente tô bem. Já superei o que aconteceu. Fui enganada? Sim. Mas não foi a primeira vez que um cara achou que podia me fazer de boba — ela deu de ombros antes de se virar para ele — E acho bom você nem começar com um papo de terapeuta, beleza? Ou eu abandono vocês e a culpa nem vai ser da Bea.
— Não tá mais aqui quem falou — ele ergueu as mãos, desviando o olhar antes de se recostar no sofá — Mas só pra garantir, quero que saiba que eu tô aqui, caso você precise conversar, surtar ou qualquer coisa. Beleza? Eu sempre estive aqui e isso não vai mudar.
Ela se remexeu desconfortável no sofá. Eu sempre estive aqui, a frase rondou sua mente pelos minutos seguintes, mesmo depois de Jamaica desviar a atenção para o filme. Por um momento, se perguntou: e se ele sempre esteve mesmo ali? E se ela estragou a amizade deles por nada? E se tudo o que tivesse que fazer no passado fosse abrir o jogo com ele, xinga-lo por ser um i****a e depois simplesmente perdoa-lo? E se tivesse perdido um melhor amigo quando não precisava ter perdido...?
Não. Ela franziu as sobrancelhas. De onde tinham saído aquelas dúvidas? Não tinha como ele continuar sendo seu melhor amigo, porque não existia amizade firmada em mentiras, e mesmo se ele admitisse o que fez depois dela o confrontar, nunca mais confiaria nele cegamente como antes.
Fora que não adiantava ficar questionando aquelas bobagens a si mesma agora. A amizade deles já tinha ido pelo ralo, o passado não podia ser mudado, nem mesmo se ela insistisse em pensar no assunto.
— Não sabia que a Camila fazia fofoca da minha vida com você — ela murmurou pouco depois, se esforçando a calar os pensamentos que a atormentavam. Jamaica deu de ombros.
— A gente é amigo, ela faz fofoca da vida de todo mundo comigo — ele riu, ela não conseguiu fazer o mesmo.
— Não sabia que eram tão amigos — murmurou mais para si mesma do que para ele.
— O quê? — Jamaica desviou o olhar da televisão e inclinou o corpo na sua direção.
— Disse que a Camila é mesmo uma fofoqueirinha, mesmo que eu ame ela.
— Pois é, a Pat é maneira, mas ama falar — ele sorriu de novo — e também ama inventar planos idiotas — murmurou distraído, esfregando a testa, como se estivesse cansado.
— O que ela fez dessa vez?
Ele hesitou, pareceu arrependido de mencionar o assunto, apertou os lábios e olhou para a televisão novamente antes de retrucar:
— Nada, esquece.
— Ah, qual é, fala logo — Lis estreitou o olhar para ele — Desde quando você faz suspense com as coisas?
— Eu não faço. Mas realmente é bobagem, ela só tá saindo do controle, mas já já ela cansa...
— Se é mesmo bobagem, me conta — incentivou. Sim, estava mesmo curiosa para saber do que se tratava, e claro que isso não tinha nada a ver com qualquer sentimento estranho que tinha com a ideia de ele ter arranjado outra melhor amiga. Claro que não, porque ela não era mais uma adolescente que se importava com esse tipo de coisa. Não mesmo.
— A Pat ainda acha que eu devo investir na Dandara — ele confessou, parecendo nem um pouco animado em dividir o assunto, o que só fez Lis pensar em como, no passado, ele já teria falado sobre aquilo com ela, cheio de empolgação. Ela notou que sentia... falta daquele tipo de interação. Também notou como era realmente muito r**m sentir falta de coisas que não se tinha mais. Que não podia e nem queria ter — Ela já envolveu a Índia na ideia, e não é brincadeira. Cara, você não faz ideia de como eu tenho medo do tipo de coisa que a Índia pode fazer — ele riu — Os planos da Pat tudo bem, porque normalmente são só bobagem que não vão pra lugar nenhum, mas a Índia é toda esperta, tenho até medo do que aquelas duas podem aprontar juntas.
— E o que você acha disso? — se ouviu perguntando.
— Uma maluquice, né? Essas duas se juntando...
— Não, não delas duas planejando seu futuro — tentou rir, depois pigarreou quando não conseguiu forçar graça onde não via nenhuma — Quero dizer o que você acha da ideia de investir na Dandara.
O silêncio fez Lis consertar a postura. Realmente queria ouvir a resposta, afinal, aquele era Jamaica “o cara que não namorava”. Fala sério, a única vez que ele fez menção a namorar foi com o pedido absurdo de namoro para ela anos atrás. Então, sim, queria saber se a tal Dandara seria a responsável pelo milagre de tirar ele da solteirice.
— Sei lá, Lizzie, a mina é toda certa e eu sou todo errado — ele começou depois de pensar um pouco — Tudo bem que eu já tenho minha passagem pro inferno, mas não preciso agravar a situação desvirtuando ela.
— Mas você gosta dela? — indagou, cada vez menos capaz de refrear as perguntas. Jamaica deu de ombros.
— Acho que não dá pra gostar de alguém tão rápido assim, faz poucos dias que a gente voltou a se ver.
Lis franziu as sobrancelhas.
— Você já conhecia ela antes?
Jamaica se virou completamente na sua direção, e como a conversa estava ficando séria, pelo menos para ela, Lis mudou de posição no sofá para encará-lo também.
— A gente estudou junto, eu aposto que já falei dela para você. Ela era a mina crente que eu amava irritar.
Lis tentou se lembrar do passado, de todas as conversar em que Jamaica falava de alguma menina do colégio, infelizmente não foi difícil lembrar.
Pois é, ele falava mesmo dela, falava até demais.
— Ah, sei — ela murmurou — É que você nunca falou o nome dela, era sempre “a garota crente”.
— Pois é — ele riu, meneando a cabeça — Uma ironia a mina que eu mais perturbava ter virado a babá da minha filha, né não?
— Muita ironia mesmo — de uma hora para outra, estava meio enfadada com aquela conversa, ainda assim continuou: — E ela não guarda nenhum ressentimento?
— Não, na verdade eu descobri que... — ele se interrompeu de novo, desviando o olhar antes de completar: — Que ela não se importa.
— Tem mais coisa aí — observou, estreitando o olhar — O que mais você descobriu?
— Esquece, é bobagem, coisa do passado...
— Tiago — repreendeu, ele revirou os olhos, murmurou algo sobre ela ser mandona, mas quando viu que não desistiria, confessou:
— A Índia descobriu que a Dandara não me odiava no passado, como eu achava que odiava.
— Ah, não?
Por que será que tinha a sensação de saber onde aquilo ia parar?
— Não. Ela era a fim de mim.
É claro que era, assim como metade das garotas do colégio, porque Jamaica era bonito, tinha aquele sorriso todo conquistador e aqueles olhos castanhos claros que humilhavam metade da população masculina do morro. Não era por esse motivo que ela passava mais tempo sendo ponte entre as meninas e ele do que estudando de verdade quando ainda frequentavam a escola juntos? Sempre tinha alguma garota risonha e sonsa pedindo para Lis “dar uma força” e arranjá-la com Jamaica.
O que era muito divertido, claro.
— Era a fim ou ainda é? — ela voltou a se concentrar na conversa. Jamaica estreitou o olhar.
— Caramba, você tá soando obcecada igual antigamente — ele riu. Lis se obrigou a rir também.
— Só fiquei curiosa, você sabe, não é uma boa ideia se envolver com a babá.
Talvez ela devesse se convencer com aquela desculpa também, para justificar o motivo de ainda estar insistindo no assunto.
— Eu sei, mas ela não vai ser babá por muito tempo. Só vai ficar com a Bea até o final do mês.
— Então tá mesmo pensando em se envolver com ela?
Uau, foi tudo o que sua mente conseguiu pensar com a ideia. Apenas... Uau. Depois de anos vendo Jamaica f********o sem compromisso com muitas mulheres, ele ia mesmo ficar com uma só?
— Eu não sei, Lizzie — ele se levantou, o que foi péssimo, porque queria continuar observando as expressões dele para saber o que realmente achava do assunto — Não é uma boa ideia, entende? Eu fiz até uma lista com motivos para não ficar com ela.
— Mas... — incentivou. Jamaica abriu a geladeira e se enfiou lá, acabando com qualquer chance de ver algo no olhar dele.
— Mas ela é legal e, sei lá, agora com a Bea, talvez eu devesse arranjar alguém, sabe? Minha filha vai precisar de uma figura feminina na vida dela — ele voltou com duas cervejas nas mãos.
Elisa aceitou uma das garrafas enquanto mandava uma ordem para sua boca se manter calada...
— Não acho que você precise de uma namorada por esse motivo.
E a ordem de “não se meta” tinha ido pelo ralo.
Jamaica esfregou o rosto com a mão livre.
— Eu sei, Lizzie, mas ia ser bom pra Bea. Se a filha da p**a que pariu ela não fosse uma vaca, eu não precisaria me preocupar, porque ela ia ter contato com a mãe e tal. Mas sem a mãe? Ela vai ficar bem tendo só um pai solteiro que na maior parte do tempo não sabe o que faz da vida? Ela vai precisar de uma figura feminina do lado dela.
— Mas ela vai ter figuras femininas. Eu, a Camila...
— Não é a mesma coisa — ele murmurou — Vocês vão ser tipo as tias dela, mas em algum momento as tias vão viver as próprias vidas, fora que, imagina ela crescer me vendo com uma mulher diferente a cada semana?
Mas você não pode arranjar uma namorada só porque quer dar uma mãe para sua filha. Isso é loucura!
— Acho que entendi — foi o que ela murmurou, ignorando o que realmente pensava — Então vai ser a Dandara?
— Não sei — ele deu de ombros outra vez — Ela é legal demais pra viver em um relacionamento que tenha começado com um motivo tão... egoísta da minha parte. Fora que eu não faço ideia de como chegar nela, sabe? Pelo amor de Deus, eu nunca namorei na vida, e se eu fizer merda? — antes que Elisa conseguisse controlar a surpresa, ou seja qual fosse a reação do seu cérebro à ideia de Jamaica estar mesmo pensando em levar aquilo em frente, ele continuou: — Quer saber, vamo esquecer esse assunto. A Dandara disse que eu não devia esquentar tanto a cabeça com as coisas, que tudo acontece no tempo de Deus.
— Falou com ela sobre isso?
— Claro que não — ele tomou mais um gole da cerveja — Mas ela me deu essa ideia do nada, como se tivesse lendo o dilema na minha mente.
— Hum — foi tudo o que conseguiu murmurar, antes de tomar metade da cerveja em quatro goles — Ela tá melhor da gripe? — não que se importasse em saber, mas queria preencher o silêncio.
— Tá sim. Acho que na segunda ela já vem ficar com a Bea.
— Então não vai mais querer que eu fique?
Caramba, sua voz soou ofendida?
Dessa vez, quando sentiu o olhar de Jamaica sobre si, não olhou para ele de volta. Que droga, por que é que não conseguia controlar sua maldita língua?
— Não quero ocupar seu tempo — ele murmurou, meio incerto.
Não tá ocupando o meu tempo, eu gosto de ficar com ela.
— Beleza — foi o que respondeu.
— Você ficou chateada — não foi uma pergunta, ainda assim, ela negou.
— Claro que não.
— Lizzie...
— É que não gosto que você fale como se ficar com ela fosse um fardo, beleza? — esvaziou o resto da cerveja, se acalmando antes de suspirar e completar: — Eu gosto de ficar com ela.
Gosto de ficar aqui, longe do meu quarto depressivo e da minha solidão de merda. Gosto do jeito que o olhar dela me traz paz.
— E eu me preocupando em com quem ia deixar a Bea quando a Dandara não pudesse mais ficar — ele cutucou seu ombro — Pode se considerar contratada como futura babá.
— Sério? — estreitou o olhar na direção dele. Jamaica sorriu.
— Sim, senhora.
Elisa queria não ter se sentido tão feliz com a ideia.
Uma semana, bastou uma semana para toda sua linha de ação mudar. Nove dias atrás, ela abominava a ideia de estar na casa dele, agora tinha baixado totalmente a guarda e estava sorrindo por saber que assumiria o posto de babá.
Isso, senhoras e senhores, é o poder que um bebê fofo tem sobre os outros, ou ao menos era nisso que Lis preferia acreditar para justificar sua mudança de comportamento.