Capítulo 13

1549 Words
*Jamaica* Cara, depois de uma semana inteira de idas e vindas entre o asfalto e o morro, eu estava um caco. Quando Baroni disse que me daria folga no sábado, senti que poderia ter beijado ele de tão grato que fiquei. Quando a manhã de sábado finalmente chegou, levantei da cama feliz, mesmo com a Bea me acordando aos berros, com uma frauda cheia. Acho que nunca fiquei tão feliz em limpar o bumbum de um bebê. Já tinha até planejado nosso dia: depois de alimentar minha cria, me alimentar e dar um jeito na casa, ia passar o resto do tempo relaxando com ela, assistindo, dormindo quando ela pegasse no sono e fazendo qualquer outro tipo de coisa que me desde na cabeça. Talvez até levasse ela no parquinho ou... Parei de divagar quando bateram na minha porta. Como ninguém além da Pat vinha pra cá sem avisar, já fui atender a porta atento, porque sabia que a Pat estava na base com o Baroni. — Quem é? — perguntei depois de deixar a bebê protegida na cozinha. — A Lis. Juro, achei até que tinha escutado errado. Meu primeiro impulso foi perguntar o que ela estava fazendo ali, mas como não queria soar como se não gostasse da presença dela ou qualquer merda do tipo, só abri a porta e sorri pra ela. — Iaí, tá perdida? — A Camila comentou que você estava de folga e que ela achava que você merecia um descanso — ela revirou os olhos — Depois ela basicamente me coagiu a vir aqui te ajudar enquanto ela terminava as coisas na base. E você veio? Uma voz chocada indagou na minha mente. Ainda não tinha me acostumado com a ideia da Lis voltando a se aproximar de mim. Talvez eu devesse conversar com Deus sobre o assunto, quer dizer, aquilo estava certo mesmo? — E aposto que ela ficou enchendo sua mente até te vencer pelo cansaço — observei, escondendo qualquer surpresa que sentia com sua presença. Lis deu de ombros. — Algo assim — ela desviou o olhar para o meu pela primeira vez desde que chegou. Apesar de não tá maquiada, tinha delineado os olhos deixando o castanho das íris mais destacado, o que foi o suficiente para que eu tivesse que me concentrar e não demonstrar como ficava bobo com toda a beleza dela. Eu precisava mesmo parar com aquilo — Aí eu aproveitei a deixa para trazer o presente que comprei pra Bea. Ela estendeu uma sacolinha, que eu nem tinha visto que segurava, pra mim. — Não é nada demais, mas vi que ela não tinha nenhum, então comprei... alguns... Como ela parecia meio hesitante com o que estava fazendo, eu peguei a sacola sem demonstrar qualquer tipo de reação e fiz sinal pra ela entrar. — Vamos ver o que você trouxe... Um monte de lacinhos, desses cheios de enfeite para colocar na cabeça dos bebês. O fato dela estar comprando algo pra minha filha, depois de eu ter achado que ela só ignoraria nossa existência no começo dessa história, me fez ver os laços como uma das coisas mais preciosas que a Bea já tinha ganhado. — Vai ficar lindo nela — murmurei. Enquanto repetia sem parar para mim mesmo: Segura a emoção, seu i****a. — Então — ela começou depois de pigarrear — No que eu posso te ajudar? Apesar do presente e da visita, dava pra ver que ela não estava muito confortável na minha sala, e sendo sincero, eu mesmo não estava tranquilo, já que tinha voltado pro modo “não faça nada que possa afastar ela”, o que era bem complicado, porque eu não fazia ideia do tipo de coisa que poderia afastar ela. Fora que ficava muito mais difícil esquecer a Lis quando ela havia passado a semana toda na minha casa cuidando da minha filha e estava aqui em pleno sábado para me ajudar. Acho que o universo gostava mesmo de me zoar, nos oito anos que eu corria atrás dela, não ganhava nem migalhas, agora que queria parar com aquilo, ele jogava a Elisa na minha rotina. Maravilha. — Hoje é dia de faxina — disse, decidindo que era melhor manter nós dois ocupados. Desviando a atenção dela, me virei pra o carrinho de bebê — Bora começar a dar um jeito nessa casa. Você não imagina o que é ser apaixonado por alguém no nível que eu sou pela Lis, é o tipo de coisa que faz até uma faxina mexer com sua mente. Sério, tive que usar metade da minha capacidade para manter um ritmo adequado enquanto limpava tudo, e a outra metade para não secar a b***a da Elisa no shortinho toda vez que ela abaixava para pegar algo, ou não reparar no suor escorrendo no decote dela, ou não ficar todo bobo com a naturalidade com que ela mexia nas minhas coisas, como se o tempo entre a gente nunca tivesse passado. Sério mesmo, foi tipo uma prova de resistência me manter focado na faxina e neutro a todo o resto, mas no fim, como um bom soldado, eu resisti a batalha. — Caramba, não sabia que tinha tanta coisa acumulada pra arrumar — murmurei depois de empilhar o último CD dentro do raque. A verdade é que talvez eu soubesse que tinha uma pilha de CDs velhos na estante, assim como sabia que as plantas no meu quintal precisavam de uma manutenção, mas ignorava tudo isso deliberadamente... E é claro que a Lizzie não me deixou ignorar nada disso porque, segundo ela, se era pra fazer faxina, tínhamos que fazer direito. O engraçado é que, apesar da fala, quem deu duro o dia todo no quintal e depois arrumando os CDs, fui eu. — Se você não juntasse por tanto tempo, não teria tanta coisa — ela retrucou da cozinha, onde terminava de passar um produto para dar brilho nas panelas, outra coisa que eu nunca fazia porque simplesmente não achava necessário. Quem precisa de uma panela brilhando igual a um espelho? — Tinha esquecido como você é mandona — zombei, me jogando no sofá — E intrometida. — E eu tinha esquecido como você é ingrato — ela rebateu. Me fingi de ofendido enquanto ligava a televisão e procurava algo para assistir, uma parte minha se coçou de vontade de chamar a Lizzie pra ver um filme comigo, uma coisa que seria super comum no passado. Mas não estávamos no passado, certo? E, sinceramente, eu preferia não forçar a barra. Então só coloquei o filme, depois de checar de novo se ela queria ajuda com a louça, e tentei focar a atenção na tela. No fim das contas, a ideia de chamar ela pra ver um filme não seria boa mesmo. Quer dizer, o plano ainda era enxergar outras possibilidades, o que seria difícil fazer se continuasse me intoxicando com a presença da Lizzie sete dias por semana. Era melhor mesmo deixar ela ir embora e... Os pensamentos se espatifaram quando ela se sentou do outro lado do sofá, sem dizer nada. Fiz o meu melhor pra parecer normal, e juro que nem fiquei olhando quando ela cruzou as pernas em cima do sofá, e nem imaginei como o shortinho dela era folgado e como seria muito fácil deslizar minhas mãos por baixo dele e... Desviei o olhar para a televisão. Ótimo, para quem estava tentando esquecer o quanto queria ela, eu só ia de m*l a pior. Foquei toda minha atenção na tela, mesmo tendo perdido todo o interesse pelo filme. Talvez se eu fingisse naturalidade e ignorasse todas as coisas que queria ou que sentia por ela, eu realmente deixasse de sentir. Não que alguma parte minha realmente acreditasse nisso. Porém às coisas realmente ficaram mais fáceis quando, no meio do filme, a Lizzie começou a comentar como era mentira toda a habilidade imbatível do protagonista em evitar a morte em situações impossíveis. Nem percebi quando comecei a zoar o filme junto com ela. Era quase como voltar para o passado, com toda aquela paz de rir de besteiras ao lado da única amizade que sempre amei. Quando a Lizzie gargalhou do meu lado com uma cena totalmente absurda, senti meu peito aquecer e decidi de uma vez por todas que nunca mais tentaria nada com ela, não era só pelo que tinha colocado na minha cabeça antes, mas porque nada valeria perder qualquer possibilidade de ter a amizade dela de novo. Nem mesmo um romance que eu desejei a vida toda. A Lizzie só foi embora horas mais tarde, quando o filme acabou e ela deu banho na Bea, insistindo que não era nada demais. Assim que ela passou pela porta de saída, me joguei no sofá e fechei os olhos, absorvendo a paz que foi aquela tarde. As palavras de Dandara ecoaram na minha mente vindas do nada. O que vem de Deus traz paz. Caramba, queria que ela tivesse certa, queria muito, muito mesmo que essa proximidade da Lis fosse um presente do Cara lá de cima e não mais um capricho da vida me dando uma pausa antes de puxar meu tapete. Mas do jeito que minha sorte era, só conseguia pensar que aquela calmaria toda era o prenúncio de uma tempestade.
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