*Jamaica*
A vida gostava mesmo de brincar comigo.
Quer dizer, não fazia nem vinte e quatro horas desde a conversa motivacional com a Dandara e do meu pedido ao Todo Poderoso por minha futura namorada ou qualquer coisa do tipo, e aí o que acontece? Eu chego em casa e encontro a Elisa, que, vejam só, sempre foi o maior obstáculo entre mim e qualquer outra mulher, sentada no meu sofá, cuidando da minha filha.
Sério mesmo, será que o cara lá de cima estava testando minha força de vontade antes de mandar meu futuro para mim?
E para completar, além do esforço danado que precisei para seguir meu plano de parar de agir como um cachorrinho enquanto via ela na minha casa, eu ainda deixo escapar a parada dos nomes dos “nossos filhos”, dificultando ainda mais o processo. Não que eu tenha falado sobre o nome de propósito, a confissão só saiu quando notei que ela ia insistir na questão do nome Júlia. E não era mentira, realmente já tinha escolhido o nome dos nossos filhos com a ajuda dela, mesmo que na época ela não soubesse e achasse que estava apenas me ajudando com sugestões bobas.
Eu sei, era meio bizarro planejar minha família com uma melhor amiga alheia ao que eu sentia, mas f**a-se, a minha versão que planejou tinha quase certeza que acabaria casado com ela.
E como todos podem ver, estava completamente enganado.
Mas o pior nem foi mencionar os “nossos filhos” sem querer. Ou ter dito aquela mentira deslavada de “ter me enganado sobre o que eu sentia por ela”. O erro foi ter visto como ela ficou desnorteada com a confissão e depois ter agido exatamente como minha maldita versão adolescente: levantando, segurando o rosto dela e fazendo todo aquele suspense antes de beijar a testa dela.
Acho que sou masoquista, sério mesmo, foi uma tortura auto imposta ficar tão perto e não desviar o olhar dos olhos dela para os lábios cheios, ou não beijar aquela boca ao invés da testa. E mesmo assim, um lado meu se satisfez só em ver a Liz prender o fôlego e congelar com o olhar no meu.
Isso aí, eu mesmo produzia material para me iludir.
A mina provavelmente estava travada de raiva ou seja lá que tipo de sentimento r**m vinha alimentando por mim nos últimos anos. Mas é claro que uma parte minha queria se alimentar daquilo e cogitar os “e se”. E se ela achou que eu ia beijar e simplesmente não desviou? E se existir a mínima possibilidade de eu não ter me iludido no passado e entendido os sinais dela certo?
Claro, porque isso ia acontecer logo agora, de uma hora para outra.
Não. Eu não ia me iludir. Não dessa vez. Realmente precisava deixar o sentimento não correspondido para trás. Por isso ignorei as perguntas que tentavam se infiltrar na minha mente e fui pra cozinha preparar qualquer coisa para comer, ou ao menos pensei em fazer isso, antes que a bebê, ou melhor, a pequena Beatriz, disparasse a chorar.
E, sim, ela se chamaria Beatriz. Primeiro, porque eu realmente achava o nome lindo e sempre quis ter uma filha com esse nome. Segundo, porque não adiantava guardar ele para a fantasia de ter uma filha com a Elisa. E terceiro, porque, f0da-se, eu era um o****o que gostava de migalhas e estava meio contente da Lizzie ter me ajudado a escolher o nome da minha filha, independente do motivo que a levou a fazer isso. Não que isso significasse algo em relação ao plano inicial de esquecer minha paixão por ela, mas não é porque eu ia deixar para trás a ideia de ficar com ela que eu precisava agir como se fosse minha inimiga ou algo assim, entende?
A Lizzie sempre seria a melhor amiga que já tive, não ia deixar nada manchar essa lembrança, nem as atitudes de merda que ela veio tomando nos últimos anos.
Larguei a panela no fogão, me obrigando a parar de racionalizar tanto o assunto relacionado a Lis e ao nome da minha filha, e fui ver a bebê, torcendo pra conseguir acalma-la logo porque estava mesmo com muita fome.
Odiava sair do morro, sério mesmo, ainda mais quando era pra ir molhar a mão dos fardados na nossa folha de pagamento. Alguns deles eram mais maleáveis, aceitavam a p***a de uma transferência bancária, mas tinham os mais paranoicos que preferiam o pagamento na mão, para evitar “rastros”. E aí era eu que pagava o pato de descer pro asfalto pra encontrar os filhos da mãe. Acho que meu desgosto com a tarefa me fazia consumir energia extra, já que sempre voltava cansado e com fome.
Enquanto me agachava na frente do carrinho, me forcei a focar o olhar na bebê e não na b***a da Lizzie, enquanto ela se afastava para a porta. E foi por isso que me surpreendi quando a voz dela soou ao meu lado:
— O que você ia cozinhar?
Cara, odiava ser pego de surpresa por ela, isso sempre deixava meu cérebro travado, como se eu ainda fosse o mesmo adolescente do passado que m*l sabia reagir a ela.
— O quê? — peguei a bebê no colo e me levantei, focando o olhar na Lizzie.
— Você disse que tava com fome, não acho que vai conseguir cozinhar agora, a Bea tá bem manhosa hoje, não é meu amor? — a última parte foi dita para a bebê, com uma dessas vozinhas mais finas que as pessoas usam com crianças pequenas. Enquanto ela se aproximava da minha cria e brincava com a mãozinha dela, minha mente tinha travado no fato dela ter dado um apelido para minha filha. E nada de julgar minha emoção, eu disse pra você, eu vivo de migalhas, fora que ainda estava me adaptando a ideia de não agir feito o cachorrinho apaixonado, só que é difícil mudar quando se passa a maior parte da sua vida agindo assim — Se você quiser, posso cozinhar algo enquanto você acalma ela — Lizzie consertou a postura e focou o olhar na cozinha, me evitando deliberadamente — Acho que ela só está com saudade do papai.
Reage seu i****a, minha mente mandou quase em tom de ameaça. Mas, qual é, sabe o que é passar anos sendo evitado por uma pessoa, por uma pessoa que você ama, e do nada essa mesma pessoa decidir se aproximar e cozinhar pra você?
Porra, era como ter de novo uma amostra pequenininha da Lizzie do passado, da minha Lizzie que sempre colava comigo em todos os momentos. Essa merda estava danificando minha capacidade de reação. Estava confundindo minha mente. Era como se uma parte minha estivesse com medo de falar ou fazer algo errado e espantar ela de novo, enquanto a outra parte tentava me lembrar que eu não devia dar muita importância a isso, porque o plano agora era tirar a Lizzie do pedestal e enxergar ela como qualquer outra pessoa.
— O que você fizer, eu como — me obriguei a dizer do jeito mais normal possível.
— Beleza — ela murmurou, ainda evitando me olhar — Boa sorte com a princesa.
Segui seus movimentos com o olhar até a cozinha, sem conseguir evitar. Ela estava mesmo aqui? Estava mesmo me ajudando depois de tanto tempo agindo como se eu fosse a porcaria de um inimigo?
Eu daria tudo para que isso não fosse temporário. E eu nem tô dizendo que queria ela como mulher do meu lado, porque realmente estava decidido a desistir dessa ideia. Eu daria tudo simplesmente para tê-la como amiga de novo. Ver a Lizzie mexendo na minha cozinha com a mesma naturalidade do passado só me fazia pensar em como senti muito mais falta dela do que imaginava.
A bebê tinha acabado de se acalmar quando a Lizzie veio me dizer que a comida estava pronta. Levei o carrinho pra cozinha, minha barriga roncando com o cheiro delicioso vindo do fogão.
— Eu tinha esquecido que você cozinhava bem — disse, me sentando em frente ao prato que ela serviu para mim — Já fui tão torturado pela Pat, que esqueço que ela é uma exceção culinária.
Eu ri, metade pela piada, metade pelo nervosismo que me deu quando ela simplesmente sentou do outro lado da mesa, ao invés de ir embora, como eu achei que fosse.
Mas que p***a estava acontecendo com ela hoje? Não que eu estivesse reclamando, é só que... Sério que ela ia mudar comigo justamente quando eu decidi deixar ela para trás?
— Eu nem sei porque vocês ainda tentam comer o que ela faz — Lizzie zombou, desenhando círculos com o dedo na toalha de mesa, mantendo a atenção no movimento que fazia. Dei de ombros.
— A gente precisa fazer uma boa ação de vez em quando — levei a primeira garfada pra boca, quase fechando os olhos ao sentir como o macarrão estava gostoso.
Como eu senti saudade de comer algo feito por ela.
Quando meu pai morreu e eu fiquei realmente sozinho na vida, a Lizzie me trazia comida feita pela tia Luíza, mas às vezes ela embirrava que ia cozinhar pra mim. Eram as manhãs mais divertidas na cozinha, enquanto ela dava uma de master chef, eu era obrigado a ser o reles ajudante/faz tudo, que ainda por cima ouvia broncas até pelo que não tinha culpa, e é claro que eu fazia de tudo para tirar ela do sério enquanto curtia ver ela cozinhar pra mim.
— Isso aqui tá bom demais — elogiei assim que esvaziei a boca. Lizzie desviou o olhar para o prato e deu de ombros.
— Tudo que eu faço é bom demais — ela abriu um sorrisinho, pelo menos parecia menos esquiva que antes.
— Exibida — murmurei em tom de brincadeira, ainda que uma parte minha continuasse com medo de ultrapassar alguma linha e espantar ela. Não que eu devesse me importar com isso... Caramba, eu estava confuso pra c4ralho — Tá com fome? Pega um prato.
— Eu só fiz pra você — ela deu de ombros, desviando o olhar do meu prato para a mesa. Queria muito que me olhasse, pelo menos assim eu podia medir o território em que estava pisando.
— Então pega um garfo — a sugestão escapuliu, juro. Só depois que falei lembrei que esse tipo de coisa, como dividir um prato de comida, só era natural pra gente no passado.
— Pra quê? — ela franziu as sobrancelhas do mesmo jeito que fazia sempre que estava prestes a se fechar. Uma parte minha, a que colocava Lizzie em uma posição elevada demais, frisou na mesma hora que eu devia recuar, mas aí lembrei que realmente não tinha que me importar tanto e só continuei:
— Pra comer comigo, né, bocó? Ou você vai comer com a mão?
— Você me chamou de bocó? — ela finalmente me olhou, os olhos estreitados. Um detalhe: aquele olhar mexia comigo... bem, mexia mais do que todas as outras coisas nela que também mexiam comigo. Sério mesmo, tirar a Lizzie do sério sempre me deixava... animado, se é que você me entende.
— Eu sempre te chamei de bocó — fiz questão de revirar os olhos para enfatizar que era tudo brincadeira. Ela apertou os lábios.
— Mas isso era quando a gente era...
— Amigo? — completei quando deixou a frase morrer — E a gente é inimigo agora, por acaso?
Lizzie piscou, como se tentasse assimilar minha intensão ou algo do tipo. Abri um sorriso pra ela.
— Não vai me dizer que eu te ofendi — provoquei, exatamente como fazia no passado, e a reação foi a mesma. Ela revirou os olhos e revidou:
— É claro que não, seu i****a.
— Me chamou de i****a? — levei a mão ao peito, fingindo ofensa. Quase fui nocauteado quando ela sorriu, não os sorrisos forçados de ultimamente, mas um sorriso de verdade, ainda que uma parte dela ainda parecesse meio perdida. Sério mesmo, era um sorriso lindo que eu não via há muito tempo.
— Não seja bocó — ela rebateu, ainda com ar de riso. E simples assim, a atmosfera mudou, a tensão sumiu. Eu não precisava mais me preocupar com ela correndo, porque ela não estava mais toda tensa na minha frente.
— Duas ofensas em dez segundos, e depois você ainda quer reclamar de mim — voltei a comer, enquanto ela murmurava que eu era dramático.
Mas como tudo o que é bom dura pouco, antes que eu puxasse qualquer outro assunto, a porta da frente se abriu e a Pat já entrou tagarelando.
— Eu juro que posso explicar sobre o...
Ela parou, arregalando os olhos com a mesma falta de sutileza de sempre. Eu amava a Pat, sério mesmo, mas quis xingar ela quando ouvi o som da cadeira da Lizzie arrastando no chão.
— Como seu reforço chegou, eu tô indo embora — Lis disse, já passando por mim. Nossa trégua temporária indo por água à baixo em segundos.
— Desculpa — a Pat murmurou assim que Elisa saiu pela porta da frente sem olhar pra trás. Fiz um esforço danado pra esconder a frustração — Eu não sabia que ela ainda estava aqui, achei que iria embora quando você chegasse.
— Relaxa, Pat, ela já ia, só ficou para me ajudar com a cozinha.
— Vocês ficaram esse tempo todo juntos, sem brigar?
Ah, não, a voz dela estava animada.
— Não foi nada demais...
— Claro que foi — exclamou, toda serelepe — Caramba, eu nem achei que o plano daria certo.
— Não começa, por favor...
Mas ela já tinha começado, ficou saltitando toda animadinha na cozinha enquanto me falava do tal plano para me fazer chegar em casa e encontrar a Lizzie à sós. Depois ignorou minhas críticas ao tal plano e começou a me encher de perguntas sobre meu tempo com Lis, como se realmente fosse um fato histórico nós dois passarmos mais que dez minutos sozinhos no mesmo ambiente. Bom, na verdade, era um fato histórico, mas eu não ia dar corda pra Pat.
Deixei ela tagarelando sozinha enquanto só murmurava qualquer coisa e reclamava de vez em quando. Não ia adiantar tentar parar ela.
Assim como não ia adiantar impedir meu cérebro de se perder um pouquinho mais com essa brechinha que a Lizzie me deu.
Pra quem estava obstinado a esquecer ela, eu estava fazendo tudo errado. Só que uma coisa era certa: eu não ia me iludir de novo com ela, nunca mais.