*Elisa*
Não era a primeira alternativa. Camila estava armando, Elisa teve certeza quando, menos de dez minutos depois da amiga sair, Jamaica entrou pela porta da frente.
— Foi m*l pela demora, Pat, eu... — ele se interrompeu ao vê-la sentada no sofá — Lizzie?
Ela tentou ignorar como ele parecia genuinamente surpreso em vê-la ali, como se aquilo fosse um fenômeno impossível. Também tentou ignorar como uma parte sua sempre sentia falta de escutar o “Lizzie” dele, e como uma outra parte sua, contraditoriamente, sempre se irritava ao escuta-lo depois de tudo.
— Não tinha relatório nenhum, não é? — ela murmurou, se levantando do sofá.
— Que relatório? — Jamaica franziu as sobrancelhas, Lis meneou a cabeça.
— Esquece.
Os dois ficaram em silêncio. Ela não tinha o que falar, e pelo modo como ele a encarava incerto, ele não sabia como agir. Era triste ver como a amizade que tiveram, que um dia foi a coisa mais bonita que ela já cultivou, se deteriorou ao ponto de virar aquilo.
— Você ainda vai precisar sair? — perguntou para calar a confusão na sua cabeça. Uma parte sua, a que queria apenas ir embora, a repudiou pela pergunta. Mas a outra parte ignorou a crítica, afinal, por mais contraditório e inadequado que fosse, precisava checar se a bebê ainda necessitava de ajuda ou algo assim.
— Não, o Baroni me liberou para passar o resto do dia com a bebê. Você sabe, ele ama a Pat, mas admite que deixar um bebê sozinho o dia todo com ela, não é exatamente uma ideia genial.
Ela assentiu, se mantendo neutra da melhor forma que pôde.
— Então tá, eu já vou.
— Obrigado por cuidar dela pra mim... Aliás, cadê a Pat? Aquela maluca disse que ia ficar aqui.
Elisa deu de ombros.
— Pelo que entendi, ela está esfregando coisas na cara do Baroni ou algo do tipo.
— Ok — ele arrastou a palavra, desviando o olhar para o carrinho — Deixa eu ver como a bebê está.
Elisa encarou a porta, aquela era a deixa para ir embora, sua mente praticamente gritava para que saísse logo, ao invés disso, se ouviu indagando:
— Não deu mesmo um nome a ela?
Se surpreendeu com a pergunta, ou melhor dizendo, se surpreendeu por ter cedido à sua parte que queria saber a resposta, à sua parte que não estava assim tão desesperada em ir embora, não de verdade, como o seu lado racional insistia em estar.
Para quem olhava de fora, parecia fácil se manter longe de Jamaica, simplesmente virar e deixá-lo para trás, mas não era bem assim. Se manter longe sempre foi complicado, muitas vezes exigia um esforço enorme, ainda mais quando tinham assuntos delicados no meio, como o fato de ele ser um pai solteiro totalmente perdido. Era como se cada instinto seu quisesse que o ajudasse.
Mas assim como resistiu todas as outras vezes durante os últimos anos, também resistiria dessa. Tinha que resistir. Só que... não faria m*l descobrir porque a criança ainda era chamada de bebê, certo?
— Eu só não consegui pensar em um nome bom o bastante — ele se sentou no sofá, de frente para o carrinho, focando a atenção na bebê como se olhá-la fosse fazer o nome surgir no ar.
— Isso ou você está com medo de escolher o nome que alguém vai ter que usar pelo resto da vida — ela observou. O conhecia bem o bastante para apostar que era aquele o motivo.
— É, talvez — Jamaica voltou a olhar na sua direção, abrindo um daqueles sorrisos que lhe faziam recuar por instinto. Só que dessa vez, ao contrário de todas as outras, ele desfez o sorriso rapidamente e desviou o olhar.
Elisa franziu as sobrancelhas. Quase perguntou, por impulso, se ele estava bem. Ao invés disso, mordeu a língua.
Só vá embora, vamos lá...
— E se eu escolher um nome e ela realmente não gostar? — ele murmurou, mais para si mesmo que para ela. Elisa travou o maxilar, não é assunto seu, apenas vá embora, vá embora, vá...
— Você sempre disse que se tivesse uma filha, ela se chamaria Beatriz — se ouviu dizendo, lembrando dos momentos em que ele viajava na própria mente e fazia planos para o futuro que incluíam filhos e uma casa cheia de árvores.
— Ah, não sei, não — ele voltou a olhá-la, mas de um jeito estranho o bastante para fazê-la franzir as sobrancelhas.
— Por que não? Não gosta mais desse nome?
— Não, não é isso, eu ainda acho o nome tão maneiro quanto antes — ele engoliu em seco, o que só atiçou mais a sua curiosidade, sabia muito bem quando ele escondia algo e era exatamente o que estava fazendo ali. Lis o observou com mais atenção.
— Então qual o problema? Por acaso você pretende ter mais filhos e está guardando o nome para eles ou...
— Beatriz era o nome que eu daria se a filha fosse sua — ele interrompeu, falando de um jeito quase... nervoso? Elisa piscou.
— Como assim? — não era disso que se lembrava — Então você escolhia nomes para os meus futuros filhos?
Pausa silenciosa enquanto ele parecia decidir se dizia ou não o que quer que fosse dizer. Depois de segundos de um silêncio capaz de deixá-la quase perturbada, Jamaica fixou o olhar no seu e murmurou:
— Nossos, Elisa. Eram os nomes que eu daria para o nossos filhos.
Ela recuou institivamente. Aquele era exatamente o tipo de coisa que soava como um sinal vermelho na sua cabeça. O tipo de coisa que ficaria rondando sua mente e lhe atormentando por dias, que ficaria zombando de como, mesmo após anos, Jamaica ainda achava que podia enganá-la.
— Relaxa — ele sorriu, não o sorriso leve de costume, o que lhe dava agora era indiferente — Isso foi no passado, com a minha versão que imaginava essas coisas — a acusação de “mentira” ficou travada na garganta dela, a raiva começando a acordar em seu estômago. Odiava quando ele insistia em fingir que existia uma versão que a amava daquele jeito. Jamaica deu de ombros — Agora eu já entendi que isso era loucura, não vai acontecer.
— Entendeu?
Seu coração disparou sem nenhum motivo aparente. Elisa trocou o peso entre os pés enquanto tentava entender a mudança na bagunça que era sua mente. Aquele não era o momento em que deveria ser tomada por felicidade? Se ele estava dizendo que entendeu, significava que finalmente pararia com o teatrinho sobre ser apaixonado por ela. E isso era exatamente o que havia esperado que acontecesse nos últimos oito anos, certo...?
Tentou encontrar a satisfação que imaginou que sentiria, mas não achou nada além de uma vontade estranha de se mover para tentar fazer sua mente reagir do jeito adequado.
— Isso aí — a voz dele chamou sua atenção novamente — Acho que eu viajei esse tempo todo — ele voltou a olhar para a bebê, ela sentiu vontade de ir lá e virar o rosto dele de volta. Pelo amor de Deus, tinha esperado por aquele momento durante oito anos. Oito anos aguardando ele admitir que nunca foi apaixonado de verdade. Oito anos esperando parar com aquela palhaçada que a irritava. E ele admitiria sem olhar nos seus olhos? Talvez fosse disso que ela precisasse, afinal. Talvez precisasse que ele a olhasse nos olhos, assim sua ficha cairia e ela reagiria do jeito certo... — Você sempre foi muito importante para mim... — ele apertou os lábios, meneou a cabeça — Acho que eu só confundi as coisas.
Ok, ele não admitiria a mentira toda, mas pelo menos estava interrompendo todo o teatro da paixão. E ela... Ainda não parecia ter assimilado tudo do modo certo, quer dizer...
— Então você nunca foi apaixonado por mim? — alguma parte sua precisava ouvir com todas as letras. Jamaica continuou evitando seu olhar enquanto dava de ombros e suspirava como se estivesse cansado.
— Não sei, Lizzie, eu acreditei que era.
Isso não é uma resposta, quis rebater, mas aquilo não ia dar em nada, não é? Ele nunca admitiria a verdade. E para evitar cair na tentação de acusa-lo por tudo de uma vez, se ouviu questionando:
— Ok, então, se entendeu mesmo que nunca foi apaixonado por mim... qual o problema dela se chamar Beatriz? Quer dizer, você gosta do nome e sabe que nunca teremos nada, então nunca teremos filhos — Deus do céu, porque estava cutucando ele daquele jeito? Por que não podia apenas aceitar a desistência e seguir em frente? O que estava acontecendo com sua cabeça? Ela simplesmente não conseguia... entender.
Mais uma vez Jamaica deu de ombros.
— Não tem problema nenhuma — ele sorriu para a bebê — O que você acha, pequena? Beatriz? O bom é que se você não gostar, pode culpar a tia Elisa pelo nome.
— É um nome bonito, ela não vai desgostar dele — murmurou, só porque de repente se sentia atordoada com sua falta de reação à mudança dele e com o modo como, a despeito disso, o seu cérebro queria processar tudo frenteticamente. Jamaica assentiu e levantou.
— Você tem razão, Lizzie, é por coisas assim que sinto falta de ser seu amigo — ele se aproximou e, antes que ela pudesse reagir, segurou seu rosto e o inclinou na sua direção. Elisa achou que fosse ter um ataque cardíaco com o nível de batimentos que o seu coração alcançou enquanto olhava nos olhos dele. Aqueles malditos olhos bonitos... Fazia quanto tempo que não os via assim tão de perto? — Você sempre foi incrível, obrigado por me ajudar a escolher o nome.
E... ele beijou a sua testa. Não durou nem um segundo, mesmo assim, quando se afastou, ela m*l conseguia respirar.
Que merda de reação era aquela?
— Tá com fome? Por que eu tô morrendo de fome, vou preparar alguma coisa, se você quiser... — ele não esperou resposta antes de seguir para a cozinha.
— Ah, não, eu vou... para casa — merda, estava balbuciando, seu cérebro parecia ir de m*l a pior a cada segundo que passava parada ali.
— Beleza, a gente se vê.
Ela assentiu, mesmo que ele não pudesse ver. Já estava quase na porta quando o choro da bebê a parou. Elisa olhou sobre os ombros, viu Jamaica largar a panela e correr para o carrinho. Seu lado racional, prevendo a hesitação da sua partizinha burra e perdida, começou a gritar um comando de vá embora.
Ela segurou a maçaneta, mas aí lembrou de Jamaica dizendo que estava morrendo de fome, ouviu o choro da bebê intensificar, e quando deu por si, já estava voltando.
Não faria m*l ajudar só dessa vez, pensou enquanto se aproximava de novo, ele finalmente desistiu daquele jogo i****a, finalmente tinha “entendido” que os dois nunca seriam nada. Não tinha porque agir como se a proximidade com ele fosse algum tipo de risco para sua vida, certo?
Não era um risco porque ela não se importava.
E no fim só ia ajudar com a bebê. Só naquele dia. Sim, só isso, e depois finalmente assimilaria a mudança dele e ficaria feliz, como devia ficar.