Capítulo 08 - O plano

2171 Words
*Jamaica* No meio da semana decidi fazer uma lista de motivos para não desejar a Dandara. Pois é, a conversinha da Pat estava zoando minha mente, isso ou a forma que a Dandara era maneira, principalmente com a minha filha. Toda tarde quando eu voltava encontrava comida pronta e as duas na sala, na maioria das vezes com a Dandara cantando pra Bebê, cheia de carinho. Juntando isso, a beleza dela e as conversas que me distraiam... Bom, eu precisava de uma lista com motivos para não fazer nenhuma besteira com ela. Motivo número um: eu ainda era apaixonado por outra mulher e a Dandara era boa demais para merecer algo assim. Motivo dois... Certo, eu tinha empacado no motivo número um, mas agora, sentado no camarote curtindo o baile, conseguia pensar em vários ótimos motivos para a lista. Começando com o motivo número dois: nós éramos opostos demais, ela ia acabar sofrendo por ter que me ver longe toda vez que eu fosse para um baile ou festa ou qualquer merda do tipo em que ela não pudesse me acompanhar por conta dos princípios da religião dela. Motivo número três: eu não podia desvirtuar a garota, e com certeza eu ia querer fazer isso em algum momento depois que beijasse ela pela primeira vez. Motivo número quatro: ela merecia coisa melhor que um traficante com os anos de vida contados. Motivo número cinco: pessoas como a Dandara não namoravam com qualquer objetivo além de terminar em casamento, e eu achava que não ia casar, tipo, nunca. Motivo número seis: essa coisa da Dandara foi ideia da Pat, a mesma pessoa que teve a ideia de eu trazer a Índia pro baile hoje pra “manter as mãos e os olhos e a mente ocupada”. Eu nem sei porque escuto os conselhos dela, pra começo de conversa. Mas sei exatamente porque me deu o conselho dessa vez: a Elisa veio para o baile e a Pat sabia que o meu lado incontrolável ia ficar vidrado na Lizzie assim que eu visse ela. Provavelmente a Pat também sabia que a Elisa ia agir como uma desenfreada e ficar com o primeiro cara que sorrisse para ela. Cara, era realmente inacreditável como essa merda ainda me atingia tanto mesmo depois de anos vendo o mesmo acontecer todas as vez. — A Dandara gostava de você — a voz da Índia me fez desviar o olhar da Lizzie, pela décima vez em menos de uma hora, para ela. — O quê? — Na escola, ela gostava de você. — Me diz que você não vai começar a viajar com isso igual a Pat — murmurei, apoiando a mão na coxa dela pra ajeitar a posição no meu colo. Lorrana meneou a cabeça. — Não tô viajando, a Dandara me contou — eu já ia protestar, quando ela acrescentou: — Ela me disse que descobriu esses dias que você achava que ela rezava quando você tocava nela, por causa do contato, mas ela rezava por causa do que o contato causava nela. Ela tinha medo de você descobrir que ela era a fim de você e tinha mais medo ainda de você desviar ela pro m*l caminho — a Índia riu. Eu não achava graça, na verdade, a informação me pegou de surpresa. Agora fazia sentido os murmúrios da Dandara e todas as vezes que ela estremeceu com meu toque. Caramba, e eu achando que ela rezava pela minha alma. — Ela era novinha e isso foi no passado... — E se não for? — a Índia me interrompeu. Estreitei o olhar pra ela. — Essa pergunta tá baseada em algo que você sabe ou só em suposições criadas pelas vozes da sua cabeça? Ela estalou a língua, desfazendo da minha fala. — Você é bonito e ela fala de você com bastante empolgação... — Não viaja, Lorrana. A Dandara fala de um monte de coisas com empolgação — ela abriu a boca para argumentar, mas interrompi: — Você por acaso andou conversando com a pat? O sorriso que ela me deu me fez querer fugir. — Ela criou um plano — Lorrana riu como um diabinho se deleitando com uma ideia — O projeto desencalha Jamaica. Não consegui segurar o riso. Só a Pat mesmo para inventar uma coisa dessas. — Vocês deviam procurar ajuda, isso não é normal — zombei. Ela deu de ombros. — A questão aqui é: você ficaria com ela? Porque a gente pode passar pra próxima candidata, se você não tiver interessado. — Primeiro, a Dandara não é mina pra “ficar”. Segundo, não quero vocês arranjando candidatas como se minha vida fizesse parte de um programa de namoro. Terceiro, não, eu não ficaria com a Dandara. — Você nem... — Eu até fiz uma lista com todos os motivos para não me aproximar dela assim — isso fez ela parar de protestar. E quando eu achei que já tinha desistido do assunto, ela acrescentou: — E se ela quiser? Juro pra vocês, durante toda a semana que passei divagando sobre o assunto, eu nunca pensei na possibilidade dela querer. Quer dizer, minas como ela desejam caras da igreja, certo? Tipo, caras certinhos, com emprego de carteira assinada, cargo na igreja e tudo mais? — Ela não tá interessada — garanti, mas minha voz não soou tão certa como eu queria. Lorrana sorriu. — A gente só vai saber se você tentar. Estava prestes a mandar ela parar de loucura, quando a risada alta e forçada de Elisa chegou na gente. Ela tinha sentado do outro lado da mesa, no colo do cara que tinha acabado de conhecer. Voltei a olhar para Lorrana, aquela sensação r**m tomando o meu peito de novo. — E como você sugere que eu faça isso sem perder a babá da minha filha? Como resposta, ela sorriu para mim, pena que até eu conseguia ver a compaixão no sorriso dela. Escutei os conselhos da Índia enquanto torcia para que a Dandara resistisse a tentação. E para que em algum momento eu me sentisse menos merda por tá pensando em usar ela como distração. Mas a verdade é que... Talvez, se ela quisesse, eu poderia tentar, e faria de tudo para dar a ela tudo o que ela merecesse. No fim das contas, a Pat tinha razão, eu tinha que olhar as possibilidades. Continuar esperando o dia em que eu deixaria de amar a Lizzie não ia rolar, e eu precisava tocar minha vida. Como dizia a minha avó: paixão é superestimada e amor se constrói. Se eu tivesse a chance de fazer a Dandara, ou qualquer outra mulher, feliz, eu faria, e rezaria para o tal amor realmente se construir algum dia, ou não. *** Você tem que ir com calma, foi o que a Índia me disse depois que a gente saiu do baile, quando ela, e talvez todo mundo na mesa, notou como eu estava a ponto de surtar com o comportamento da Elisa no colo do outro cara. O plano da Índia era só me aproximar da Dandara, sem nenhuma pretensão. Virar amigos, tá ligado? Eu achei uma péssima ideia. Ou você vira amigo ou vira namorado, eu era prova viva que passar por uma etapa para chegar na outra, era furada. Mas se a Índia falou, tá falado, afinal, ela sempre foi a mina mais esperta que eu conheço. — Então não é pra eu dar em cima dela? — tinha perguntado, só pra garantir. — Claro que não — do jeito que ela falava, parecia que eu era i****a — Só se aproxime e veja ela de verdade, como uma mulher. A Dandara não é do tipo que fica, como você mesmo falou, e ela com certeza não vai morrer de amores se você pular etapas. — Beleza, entendi. Na verdade, não tinha entendido nada, mas como aquela história toda era só um tiro no escuro, decidi seguir o fluxo. Na segunda-feira, chamei a Dandara para dar uma volta com a bebê, para minha surpresa, ela ficou super animada. Eu juro que tentei “ver ela de verdade”, mas além de ver que ela era uma gostosa, que tinha uma voz bonita e uma paciência invejável, não via mais nada. Eu podia levar ela para a cama? Sim, sem nenhum tipo de sacrifício. Na verdade, sei que seria incrível para mim, já que tinha a atração necessária por ela. O problema é que eu não queria levar ela pra cama, se fosse mesmo enxergar ela como mulher, seria para algo sério. Não que alguma parte minha realmente acreditasse que alguém como ela fosse se interessar no tipo de futuro que eu posso oferecer. Fora que não conseguia me imaginar amarrado a alguém que não amava, e nem ia me perdoar se conquistasse ela só pra depois ficar pegando mulher em uma relação extraconjugal... — Você tá bem? — Dandara me perguntou, me fazendo perceber que encarava ela há um tempão. Desviei o olhar para um dos brinquedos ali por perto. A gente estava na pracinha, sentado em uma dessas mesas de concreto que enfeitavam o lugar. A bebê dormia no carrinho na maior tranquilidade, enquanto Dandara só continuava sentada, emanando aquela paz toda própria dela. — Tô de boa — murmurei, voltando a encarar ela — E você? Nossa, que pergunta i****a. Ela riu. — Estou ótima — respirou fundo, olhando ao redor — Faz tempo que não venho aqui, ou que não faço algo só por fazer, sabe? Às vezes a gente passa tanto tempo focado em uma coisa que esquece de viver o que realmente quer. — Como assim? — franzi as sobrancelhas, tentando me concentrar na conversa e não no duelo de "o que fazer ou não fazer com a Dandara" rolando na minha mente. — Eu passei os últimos seis anos focando nos estudos — ela deu de ombros — Queria muito provar algo para mim, mas acabei me isolando de tudo enquanto mergulhava em uma busca desenfreada por... Algo — ela sorriu, como se achasse graça de si mesma — Eu não estou fazendo sentido, né? O que eu quero dizer é: aprendi que existe um tempo certo para cada propósito de Deus na terra. Não adianta se esforçar para fazer algo só porque você acha que é a hora de fazer, se não for a hora certa, não vai acontecer — ela fixou o olhar no meu — Não se esforce tanto. Juro pra vocês, eu me arrepiei. Era como se ela soubesse de todo o esforço que fazia ultimamente pra arrancar a Elisa da mente, para colocar ela no lugar da Lizzie. E a convicção na voz dela só me fez perceber que eu não devia estar tentando envolver logo a Dandara no meio daquela história. Qual é, usar uma mina do bem como ela pra esquecer a única mulher que eu já amei na vida? Que ideia de merda... — Sei que você não é cristão — ela continuou, tocando na minha mão — Mas Deus tem planos para todas as pessoas. Ele tem um plano para você, não precisa tentar dar passos maiores que seus pés para adiantar o processo. — Então eu tenho que continuar parado? Como é que eu vou saber o que é ou não para fazer? — acabei perguntando, eu até podia não ir para a igreja, mas nunca brincava com as coisas de Deus, e, sério mesmo, eu tinha a impressão de que aquilo que ela estava me falando não vinha só dela. Ela deu de ombros. — O que vem de Deus traz paz. Pensei que fosse dizer mais alguma coisa, mas não. Ela só tinha agido como se estivesse dentro da minha mente e parado do nada. — Por que me disse isso? — perguntei, sem saber exatamente o que fazer com a confusão na minha mente. Ela inclinou a cabeça, me observando com atenção. — Porque você precisava ouvir. Seja lá o que esteja tentando fazer, espere o tempo de Deus. Você pode não entender o processo, mas no fim vai perceber que tudo aconteceu para um propósito maior. E isso não quer dizer que você deva ficar parado apenas esperando as coisas caírem do céu... Só lembre que o que realmente vem de Deus, traz paz e não desassossego. Assenti, e depois de refletir por mais alguns minutos, tive quase certeza que aquele tinha sido um recado de Deus para eu esquecer o plano de conquistar ela, porque com certeza, a ideia de usar Dandara não me trazia paz. Antes de deixar o parque, aproveitei a deixa de comunicação com o Todo poderoso para pedir que ele me mandasse alguém. Se ele tinha mesmo um plano para mim que não envolvesse um futuro sozinho, ele podia apressar os passos da mulher da minha vida, certo? Talvez, sei lá, fazer ela brotar na minha casa ou bater na minha porta um dia desses? Porque, sério, estava mesmo difícil continuar do jeito que estava.
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