*Jamaica*
A ajuda da Índia foi o que me manteve são na semana seguinte com a bebê. A gente até entrou em uma rotina estável: ela cuidava da pequena enquanto eu ficava na base e eu assumia o posto durante noite. Mas no fim de semana a Índia me avisou que precisaria voltar para as aulas do cursinho, ou seja, eu estava ferrado, de novo.
— Não se preocupe, eu encontrei uma pessoa perfeita para te ajudar — ela continuou quando viu minha cara de desespero. Eu duvidava muito que fosse encontrar alguém tão perfeito quanto ela.
— E quem é? — perguntei só por perguntar, pra fingir que acreditava na ideia. Ela sorriu.
— A Dandara, filha da dona Vânia — a empolgação na voz da Índia foi o que me impediu de mandar um “mas que ideia genial”, com toda a ironia do mundo.
A Dandara era a mina mais crente que eu conhecia, não que eu fosse preconceituoso, mas sabia que chamar ela pra ser babá ia dar problema, e nem seria porque ela achava que tudo era pecado, mas porque ela nunca foi muito com minha cara. Nós estudamos juntos no ensino médio, o que não seria problema, se meu prazer não fosse tirar a mina do sério, fazer ela ficar vermelha de vergonha ou com medo de ir para o inferno só por ouvir o que eu dizia.
Pois é, agora imagina essa mina aceitando cuidar da minha filha. Sim, daria super certo.
— E ela concordou mesmo em vir? — duvidei, quando a Índia assentiu, acrescentei: — Você disse que o trabalho ia ser na minha casa?
— Eu disse tudo — ela riu, aposto que só achava graça porque não sabia da história toda — Ela precisa do dinheiro e vai te ajudar pelo menos por mais uma ou duas semanas, enquanto espera as respostas para as entrevistas de emprego que está fazendo.
Assenti. Se a Dandara realmente fosse me ajudar, seria provisório, ou seja, em menos de um mês eu estaria de volta nessa situação de não saber o que fazer da minha vida. Sinceramente, não achava que podia continuar naquele ritmo por muito tempo, não queria a minha filha crescendo sem uma figura feminina fixa na vida dela, eu podia apostar que isso era importante para uma criança. Se eu tinha sentido falta de ter uma figura feminina na minha vida quando era criança, imagina uma menininha passando por isso.
— Beleza, quando ela começa? — voltei a focar na conversa, tinha que administrar um problema de cada vez.
— Amanhã.
Cara, eu queria muito segurar a Índia e impedir que deixasse a gente. A mina era tão boa pra bebê, que eu podia dar o mundo só pra manter ela aqui, mas a verdade é que ela tinha nascido pra ser mais que uma moradora de favela. A Índia ia longe, qualquer um podia ver isso, seria uma merda tentar impedir que conquistasse o que queria só para mantê-la do lado da minha filha.
Ainda assim, a despedida foi uma merda. Mesmo ela dizendo que viria visitar a bebê o tempo todo, que eu podia ligar caso precisasse de algo e que ela arranjaria outra pessoa ainda melhor quando a Dandara fosse embora... Nada conseguiu evitar que sentisse vontade de pedir pra ela ficar.
No fim das contas não pedi.
A bebê dormiu a noite toda, coisa que vinha acontecendo há alguns dias, depois de as cólicas finalmente terem dado uma pausa.
Agradeci a Deus por mais uma noite sem desespero e levantei cedinho pra arrumar tudo. Queria causar uma boa primeira impressão na Dandara, só pra tentar apagar todas as péssimas impressões do passado. Eu até coloquei uma roupa mais legal naquela manhã, nada de camisa de time e nem de camiseta. Não que isso fosse o bastante para cobrir a minha cara de flagrante, mas pelo menos eu estava tentando, certo?
A Dandara chegou às seis horas em ponto. Fui atender a porta com a bebê, que tinha acabado de acordar, no meu braço.
— Bom dia — ela sorriu para mim antes de focar toda a atenção na bebê.
Lembra que disse que ela era uma das minas mais crentes que eu conhecia? Ela também era uma das mais gatas. Talvez fosse toda a modéstia combinada com os cabelos encaracolados, os olhos castanhos, a boca bem desenhada e o corpo que, mesmo com as roupas compridas da igreja, se mostrava perfeito. Não que eu estivesse reparando na babá da minha filha, só tô fazendo uma observação pra vocês, claro.
— Entra aí — dei passagem a ela, fechando a porta assim que entrou.
— Essa é a princesinha de quem eu vou cuidar? — ela se aproximou, nenhum sinal da pose “quero ficar longe do pecado”, que eu me lembro que usava na escola comigo — Qual é o nome dela?
— Ela ainda não tem um — murmurei, deixando a bebê ir para o colo dela quando estendeu os braços. Dandara franziu as sobrancelhas, mas não fez nenhum comentário sobre a falta de nome — Por enquanto a gente chama ela de bebê.
— Tudo bem, e o que eu preciso saber sobre essa bebê linda?
Expliquei da melhor forma tudo o que a Índia tinha me ensinado ao longo dos dias. O que a bebê gostava, os horários da alimentação e do banho. Mostrei onde ficavam as coisas que ia precisar e disse que era pra se sentir à vontade na casa.
Agora, tudo o que eu precisava era dar o fora pra base, só que uma coisa tava me incomodando tanto, que acabou escapulindo antes que me controlasse:
— Você não lembra de mim?
Dandara, parou de trocar a fralda da bebê na minha cama, ergueu o olhar e sorriu daquele jeito espontâneo que sempre sorria.
— Claro que lembro, do tempo que você ainda era só o Tiago que gostava de me tirar do sério — ela voltou a atenção para a bebê, não parecia nem um pouco chateada, na verdade, parecia achar graça da lembrança.
— Falando assim parece que tirar você do sério era um hobby pra mim — rebati, mesmo que, se fosse admitir, assumiria que era mesmo um hobby.
Dandara voltou a me olhar, estreitando os olhos, ainda com o ar de diversão.
— Você sentava atrás da minha cadeira quase todas as tardes só para ficar puxando as minhas tranças durante a aula. E você nem gostava de sentar na parte da frente da sala, mas sentava só para me tirar do sério!
— E você ficava rezando o tempo todo para Deus me afastar de você — ri, lembrando de como achava engraçado o jeito que ela murmurava uma oração toda vez que eu tocava o cabelo dela — Tu achava que ia parar no inferno só por eu tocar seu cabelo?
A risada dela tomou o quarto todo.
— Claro que não — meneou a cabeça, voltando a olhar para a bebê — Não era por isso, mas não se preocupe. Eu cresci. Um exemplo disso é como não acho que vou parar no inferno por estar na sua casa, se é isso que está te preocupando.
— Eu só queria garantir que você tá de boa mesmo em tá aqui — murmurei, meio sem graça. Colocando dessa forma que ela colocou, pareceu até que eu era algum tipo de preconceituoso.
— Amo crianças, sempre gostei de cuidar delas — ela tirou a bebê da cama, embalando nos braços — Se não tivesse passado quatro anos em uma faculdade para aprenderam uma profissão, ficaria feliz em ser babá. Mas como me matei de estudar, quero pelo menos exercer a profissão.
— Parece justo — observei, seguindo pra fora do quarto — Então, beleza. Fique a vontade, minha casa é sua casa. Agora tenho que ir pra base.
Saí com o coração bem mais leve do que pensei que poderia, a Índia tinha razão, a Dandara parecia super qualificada pra cuidar da minha pequena.
***
Assim que cheguei na base, encontrei a pat já na minha sala, ou melhor, nossa sala desde que o Baroni colocou ela pra cuidar das contas, função que antes era minha. A verdade é que eu era péssimo com a contabilidade, mas o Baroni era cismado demais para colocar alguém no meu lugar, então continuei me embolando com as contas até a pat surgir, ganhar a confiança dele e começar a me ajudar. Não que agora ela passasse muito tempo na nossa sala, ficava mais na sala do Baroni, “ajudando o patrão”. Pelos barulhos que ouvia vindo da sala dele, imaginava o tipo de ajuda. Inclusive, adorava perturbar ela com esse assunto.
— Como está nossa bebê? — a pat não me deu nem tempo de fechar a porta antes de perguntar. Achava maneiro o jeito que ela e Baroni vinham praticamente adotando a minha filha. Era bom saber que não estava sozinho, pra variar.
— Melhor que eu — fui pro meu lado da sala, agora que eu cuidava das vendas, não precisava de muito espaço, só uma mesa com o computador e o radinho pra passar as ordens pros caras — A Índia arranjou uma babá de responsa para ela, a Dandara.
— Não faço ideia de quem seja — a pat franziu as sobrancelhas. Apesar de toda história que ela viveu no morro, ainda fazia poucos meses que morava aqui, por isso não conhecia nem metade dos moradores — Ela é legal?
— Mais legal do que eu lembrava — murmurei distraído, checando quanto de mercadoria os vapor tinham passado no fim de semana. Quando voltei a erguer o olhar, a pat me encarava de um jeito que só podia significar como a cabecinha dela estava bolando mais uma ideia sem sentido — Nem começa.
— Ela é bonita? — perguntou toda empolgada. Quis gemer de frustração, a versão cupido da pat era a pior de todas.
— Não começa, não tem a menor chance.
— Por que não? Você chegou dizendo que sua bebê estava melhor que você porque está com ela, depois disse que ela é maneira e que é mais legal do que você lembrava, e você não falou isso de qualquer jeito. Falou com uma cara de...
— Qual é, pat? — me encostei na cadeira — Para de criar fanfic.
Eu quase achava fofo o desespero dela de me arrumar alguém. A pat sabia melhor do que ninguém como eu já tinha passado por poucas e boas por gostar da Lis. O problema é que ela não podia ficar criando uma história de amor diferente pra cada mina com quem eu tivesse contato. Muito menos com a Dandara.
— Só me diz por que não pode pensar nela como uma opção — ela me desafiou.
Pense em uma mina insistente, é a pat.
— Ela é crente, pat, do tipo que acha que xingar é pecado.
— E daí? — cruzou os braços. Encarei ela com minha melhor cara de “Sério mesmo?”.
— A mina vai pra igreja mais do que vai pra qualquer outro lugar no mundo. Ela é toda certinha e eu sou traficante, gerente do morro, coberto de tatuagens, e tenho quase certeza que ganhei meu passe livre pro inferno há anos.
A pat fez uma careta.
— Por que você só enxerga as coisas ruins? — ela parecia meio indignada, o que quase me fez rir — Ela ser da igreja não é um motivo para descartar a ideia, a menos que você queira desviar a garota.
— Claro que não...
— Então — a animação voltou a brilhar nos olhos dela. Era até meio assustador, sério mesmo — Não tô dizendo para você ir pra cima dela, é só pra abrir a possibilidade. Se acontecer. Se ela demonstrar interesse. Se você achar que vale a pena... Talvez você devesse só... Enxergar a possibilidade.
O “pela primeira vez” ficou subentendido. Porque, sim, a pat sabia tão bem quanto eu, que passei os últimos oito anos ignorando qualquer possibilidade de me envolver de verdade com alguém. Era sempre só sexo e diversão. Nunca deixava ir além, nunca nem olhava pra uma mina com qualquer interesse além do s****l, a Pat sabia disso, mesmo que eu nunca tivesse dito a ela.
— Beleza — murmurei, mais pra fazer ela esquecer o assunto do que como uma possibilidade real. A pat mordeu o lábio.
— Sério, Jamaica. Você não pode passar o resto da vida sozinho, sei que não vai querer que sua filha cresça vendo uma centena de mulheres diferentes frequentando sua cama — assenti, não que eu costumasse levar as minas que eu comia pra minha casa, mas entendia o que a Pat queria dizer — Talvez você devesse mesmo começar a enxergar todas as possibilidades que sempre estiveram aí e que você ignorou, não precisa ser a Dandara, é claro. Apesar que ela me parece perfeita para o papel.
— Perfeita para o papel? — eu ri, meneando a cabeça — Você precisa parar de ler esses seus romances doidos. Mas, beleza, vou olhar para as possibilidades.
— Promete? — estreitou o olhar para mim. Foquei o meu nas íris claras dela.
— Prometo.
E estava falando sério. Aquele era o plano desde o começo do ano, certo? Eu disse que seguiria em frente. Estava na hora, de um jeito ou de outro.
Passei o dia tentando me concentrar nas atividades na base, mas a verdade é que minha cabeça estava na pequena que deixei em casa. Não que duvidasse da capacidade da Dandara, mas me dava um aperto no peito não saber o que elas estavam fazendo. Talvez eu devesse pedir o número dela, assim podia mandar mensagem, tipo, a cada dez minutos, perguntando se minha filha estava de boa.
No meio da tarde a Pat fez o Baroni me liberar, ela disse que não aguentava mais me ver bater os dedos na mesa com minha inquietação. Agradeci, repetindo, talvez pela milésima vez desde que a gente se conheceu, o quanto ela era maneira.
Desci com minha moto direto pra minha casa, que ficava perto da base, na parte alta do morro. Assim que entrei em casa notei duas coisas: a música e o cheiro bom vindo da cozinha. Nada de choro.
Dandara estava ao lado da mesa, ajeitando um prato com um bolo que ainda fumaçava, enquanto cantava um louvor. Ela tinha uma voz impressionante.
— Ah, meu Deus — ela levou a mão ao peito, se assustando quando virou e me viu na entrada da cozinha.
— Foi m*l, acabei de chegar — ou talvez tenha ficado uns dois minutos te ouvindo cantar sem que você notasse — Tá tudo bem por aqui?
— Tudo ótimo — ela voltou a se ocupar com o bolo — Aproveitei que a bebê dormiu e preparei um bolo, espero que não se importe, é que vi os ingredientes e pensei que seria uma boa ideia.
— Se o gosto tiver tão bom quanto o cheiro, foi uma ótima ideia.
Ela sorriu, apontando para uma das cadeiras.
— Melhor você provar para a gente descobrir.
Nós dois acabamos sentados, comendo o bolo, que estava uma delícia, e relembrando o tempo da escola. Durante o tempo que levou para devorar quase metade do bolo, toda vez que a Dandara sorria daquele jeito espontâneo, a conversa da Pat voltava para a minha mente.
Pensar na possibilidade.
Sinceramente, a Dandara tinha tudo o que qualquer cara podia desejar, o problema é que, mesmo que fosse linda, cozinhasse bem e cuidasse da minha filha com todo carinho, eu não sentia nada por ela além de um leve interesse físico, já que a porcaria da minha mente e do meu coração faziam questão de sempre voltar para a única mulher que eu nunca teria.
A diferença é que dessa vez, quando Elisa surgiu na minha mente, eu mandei a imagem dela bem para o fundo da minha consciência e me concentrei na cadência da voz da Dandara, e talvez a Pat tivesse razão, porque eu consegui, pela primeira vez, olhar pra outra mulher e imaginar algo mais que um transa com ela.
Talvez eu só devesse praticar isso com outra pessoa que não corresse o risco de perder a salvação por minha causa.