Capítulo 06 - Almoço

1434 Words
*Elisa* Dois dias depois, Luísa estava de volta em casa, repetindo a cada dois minutos que “o médico disse que eu posso fazer tudo como sempre”. Elisa iria enlouquecer. Cada vez que a mãe se esforçava em alguma tarefa, ela sentia o coração se apertar, mesmo sabendo que o médico realmente explicou como Luísa poderia seguir com suas atividades cotidianas normalmente. A verdade é que Elisa estava com tanto medo da tal terceira notícia r**m, que começava a duvidar da capacidade do médico de definir o tipo de esforço que a mãe poderia fazer. Para completar, uma semana depois de vir do hospital, Luísa decidiu fazer um almoço para comemorar sua saúde, o que fez Elisa passar a manhã no quarto após se dar conta que ela mesma acabaria tento um ataque cardíaco se continuasse vendo os esforços da mãe na cozinha, ou a ideia fixa de ignorar a parte da “alimentação controlada” que também foi uma instrução do médico. Elisa duvidava muito que um monte de azeite de dendê em pratos super pesados, fizesse parte do lado controlada da dieta. — Posso entrar? Elisa ergueu o olhar para a porta, por onde Camila já entrava, apesar da pergunta. Ela se preparou mentalmente para seja lá qual fosse a conversa que trouxe a amiga até ali. Levando em conta o olhar cauteloso da outra, não esperava nada bom. — Já sabe o que vai vestir hoje? — Camila usou um tom cheio de causalidade forçada. Elisa se sentou na cama e estreitou o olhar para ela. — Por que não fala de uma vez? — Falar o quê? — a outra se fez de desentendida, mas mordeu o lábio, traindo o seu nervosismo. Elisa revirou os olhos. — Não veio até aqui perguntar o que eu vou vestir — ela observou — Você nem se importa com essas coisas... — Convidei o Jamaica para o almoço — a amiga falou de uma vez, como se confessasse um crime. Elisa manteve a expressão neutra. — Ok — ela alongou a palavra. Camila continuou a observando, como se esperasse alguma outra reação — Era isso? — Você está bem com isso? — os olhos esverdeados analisavam sua expressão com cuidado. Ela deu de ombros. — Por que não estaria? Depois de um segundo de silêncio carregado, Camila jogou as mãos para o ar. — Ah, pelo amor de Deus — disse, exasperada — Por que não para com isso? Você se importa com ele. Eu sei disso, o mundo todo sabe disso. Por que fica fingindo que não liga? Eu sei que você quer saber do bebê e dele, pelo amor... — Por que não para de drama? Não é como se... — Para, Elisa — o tom exaltado da outra fez ela se calar. Camila era sempre tão boazinha e paciente, que as explosões dela tinham aquele efeito surpreendente — Eu não entendo como vocês dois podem continuar nisso por tanto tempo. Qual é o problema de admitir que gostam... — Talvez você devesse parar de alimentar essa fanfic na sua cabeça — interrompeu, sem querer escutar o que a outra diria — Eu sei que você acha que... — Ele ficou magoado! — O quê? — mais uma vez o pensamento de Elisa foi cortado. Sua atenção focou automaticamente na outra. — Ele achou que você não tinha voltado e perguntou como eu achava que seria a sua reação quando soubesse do bebê. Então eu disse que você já tinha voltado e... Ele ficou arrasado quando descobriu que você sabia e não tinha ido lá. — Isso é o que você acha — Elisa se forçou a dizer, tanto para ela quanto para a amiga. Podia ter se afastado de Jamaica nós últimos anos, mas a ideia de o machucar nunca lhe deixava bem. O problema é que nunca sabia se estava ou não machucando ele de verdade. É essa a sensação que se tem quando alguém em que você confia mente para você, é impossível confiar cem por cento no que é real ou não depois disso. Por exemplo, no ano passado, enquanto esfregava Grego na cara de Jamaica apenas para tentar colocar na cabeça dele que aquela farsa de "quero namorar com a Lizzie" não daria certo, ela ouvia Camila afirmar que estava magoando Jamaica com suas ações, às vezes a amiga era tão enfática, que Elisa chegava bem perto de acreditar, mas aí ela pensava: para ele se magoar por me ver com outro cara, ele precisaria estar realmente apaixonado por mim, e esse não era o caso, era? E daí, seguindo o círculo vicioso em que estava enfiada desde a adolescência, ela ficava irritada por pensar na falsa paixão dele, entrava na defensiva e fazia mais coisas para mostrar a ele que, primeiro, não era a fim dele, e segundo, não estava nem um pouco interessada ou sensibilizada com a "paixão ardente" que ele dissimulava por todos aqueles anos. — Isso é a verdade — Camila rebateu, ainda exaltada — Você acha mesmo que ele não se importa? Meu Deus, Elisa, por que tem tanta vontade de magoar ele? Ele sente sua falta e você... — É melhor você calar a boca — seu tom soou baixo, mas frio o bastante para calar Camila — Sei que você e o mundo todo acham que eu sou a maldita vilã da história, mas se não sabe da porcaria da história toda, é melhor calar a boca. — Do que você está falando? — Camila franziu as sobrancelhas. — Você acha que eu acordei uma manhã e pensei “nossa, que belo dia para acabar com os laços que eu tenho com o meu melhor amigo?”, já parou para pensar que tive um motivo para me afastar da minha pessoa favorita no mundo? — sua voz tremeu e ela se forçou a parar — Apenas não fale do que não sabe. — Talvez se você dissesse o que aconteceu... — Eu não preciso dizer nada. É passado, acabou, eu aprendi a lição. Fim — não deu a Camila a chance de argumentar antes de acrescentar: — Se você já acabou, eu preciso me arrumar para o almoço. A amiga hesitou, apertou os lábios em uma linha fina, mas por fim assentiu e saiu. Quase uma hora depois, Luísa avisou que a comida estava na mesa e que todos estavam esperando por ela. Elisa avisou que já estava indo, mesmo que não quisesse, então respirou fundo, ordenou a si mesma que deixasse de ser tão fraca e saiu. Não sabia exatamente porque estava tão apreensiva em entrar na cozinha para almoçar, a mãe já tinha feito dezenas de almoços como aqueles... Mas em nenhum deles você ia conhecer a filha dele, sua mente cantarolou, como se precisasse do lembrete. Ela ignorou. Só que, no fundo, talvez estivesse mesmo apreensiva com a presença de Jamaica e do bebê, tanto que não conseguiu disfarçar a expressão quando entrou na cozinha e não os viu. — Ele não vêm — Camila avisou, como se lesse sua mente — A Índia teve um imprevisto e precisou sair, então ele preferiu ficar em casa com a bebê. — A Índia? — Elisa deixou escapar antes que pudesse se conter. Camila assentiu. — Ela está ajudando o Jamaica com o bebê, passa o dia todo com eles... Camila continuou tagarelando sobre como a Índia era boazinha e blábláblá, mas Elisa não prestou atenção. Enquanto se sentava à mesa e se servia, sua mente divagava sobre como podia apostar em que tipo de ajuda a Índia estava dando a ele, com toda aquela beleza e bondade dela. Sabia que Lorrana e Jamaica já tinham ficado várias vezes, principalmente no fim do ano passado, quando os dois serviam de álibi para Camila e Lucas ficarem juntos sem ela saber. Os quatro saiam juntos, e enquanto Lucas e Camila faziam o que queriam e bem entendiam sem que Elisa soubesse, Jamaica e a Índia aproveitavam a companhia um do outro para matar o tempo, enquanto para o resto do morro, quem ficava com Jamaica era Camila e quem ficava com Lucas, como de costume, era a Índia. Elisa meneou a cabeça e espantou os pensamentos, odiava ser enganada, pensar naquilo fazia lembrar justamente de como aqueles quatro tinham a enganado. Aliás, foi enganada por praticamente todo mundo no ano passado. Uma grande maravilha. Quando o almoço finalmente acabou, ela pediu licença e voltou para o quarto, prometendo a si mesma que não pensaria mais em nada que envolvesse o passado, Jamaica ou o bebê.
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