*Elisa*
Uma parte de Elisa começava a acreditar que estava vivendo em uma realidade paralela bizarra. Primeiro, o irmão e a melhor amiga entrando em um romance proibido onde só ela sabia como os dois eram nocivos um para o outro, o que quase a fez se tornar a megera da história. Depois, entrou em um relacionamento tóxico com um x-9 que quase matou seu irmão e sua cunhada. Agora, quando finalmente voltou para a realidade, pronta para enfrentar tudo e seguir em frente, descobriu que Jamaica tinha um bebê e que isso, por algum motivo que preferia ignorar, a abalava de um jeito inexplicável e despertava mil perguntas que não podia fazer, além de uma vontade quase incontrolável de ir até ele só para... bom, checar. Quer dizer, era o Jamaica, o que ele faria cuidando de um bebê sozinho? Não que ela devesse se importar com isso, mas... Caramba, aquilo nunca seria fácil.
E como se tudo isso não fosse o bastante, antes que pudesse criar um plano de ação onde saberia o que fazer da vida, a sua mãe teve mais um ataque cardíaco.
Elisa não conseguia discernir se tudo aquilo era realidade ou pesadelo.
Tinha acordado tarde na segunda-feira, depois de levar horas para dormir na noite anterior sendo assombrada por seus próprios pensamentos. Quando saiu do quarto estranhando o silêncio da casa, encontrou a mãe caída no chão da cozinha.
Ela não registrou o momento em que ligou para o irmão, nem como de repente estava no hospital, com a bolsa cheia de documentos m*l guardados, vestindo roupas amassadas que não combinavam e esperando por notícias da mãe em uma sala com paredes em tons neutros.
Quando sua vida saiu dos eixos assim?
— Familiares de Luísa da Silva Prazeres — um médico chamou do outro lado da sala. Elisa se levantou rápido, quase correndo até ele. Odiava a sensação sufocante de ficar esperando notícias quando uma parte sua sabia que a mãe poderia nem mesmo estar viva àquela altura.
— Eu sou filha dela.
O médico, com toda a sua postura impecável, roupas alinhadas, cabelos lisos e olhos claros, a analisou de cima à baixo, com atenção o suficiente para fazê-la cruzar os braços, impaciente. Sim, sabia que estava m*l vestida e com os cabelos presos de qualquer forma no alto da cabeça. Sim, sabia que aquele hospital cheio de pompa não costumava atender gente da periferia como ela e a mãe.
E não dava a mínima para o que o doutor riquinho achava sobre isso.
— Como a minha mãe está?
— Diagnosticamos um caso de doença arterial coronariana, o agravamento dessa condição foi o que causou o ataque cardíaco que a paciente sofreu horas atrás. Conseguimos estabilizá-la, porém precisamos realizar um procedimento... — o médico continuou falando, explicando com palavras difíceis os riscos que sua mãe corria por conta de um agravante da pressão arterial alta, tentando amenizar a situação com falas sobre como a qualidade de vida dela seria melhor após o procedimento — No entanto — ele continuou, mudando o modo como a encarava — o valor de uma angioplastia coronária fica em torno de doze mil reais, fora os gastos com a equipe auxiliar. Sugiro que converse com nossa assistente social, ela pode te instruir no melhor encaminhamento para um hospital público e...
— Não se preocupe com o dinheiro, doutor — ela se obrigou a usar um tom neutro controlado. Se aquele médico soubesse como Elisa tinha um pavio curto, não estaria perdendo tempo com aquele discurso preconceituoso cheio de sutilezas — Acredito que você não tenha checado o histórico médico da minha mãe, ou tenha deixado esse detalhe escapar, mas já gastamos bastante com procedimentos médicos e consultas, até mesmo nesse hospital — de merda, ela quis acrescentar — Mas se o senhor se sentir mais confortável, posso adiantar o pagamento da cirurgia, sabe, só para garantir.
Ela cruzou os braços. O médico pigarreou, desconfortável. Era bom que ficasse desconfortável mesmo.
— Ah, não... Não há necessidade — o homem desviou o olhar para a prancheta, quando voltou a olha-la, parecia menos perdido — De qualquer forma, preciso que converse com a assistente social. Devido as condições de saúde prévias da sua mãe, o procedimento terá uma margem maior de risco, por isso preciso que assine um termo de autorização, já que sua mãe permanece inconsciente — ele fez uma pausa, provavelmente vendo como Elisa empalidecia, então acrescentou em um tom tranquilizador que de nada servia: — Não precisa se preocupar, já realizamos esse procedimento inúmeras vezes. O hospital possui uma equipe qualificada e todo equipamento necessário para garantir o sucesso da operação.
— Se não precisasse mesmo me preocupar, você não precisaria que eu assinasse um termo — ela levou a mão à testa, tonta. Queria muito que o irmão estivesse ali, ele era o durão dos dois, ela só fingia, e naquele momento não conseguia sustentar muito bem a fachada — Vamos logo falar com a tal assistente social.
***
Estava exausta quando voltou para a sala de espera. Assim que sentou na cadeira acolchoada, o primeiro pensamento que teve foi “eu devia ligar para o Jamaica, ele...” e aí se interrompeu. Aquilo era tão irritante. Vinha afastando Jamaica há oito anos. Oito anos e ele ainda era a primeira pessoa em quem pensava quando se sentia perdida.
Elisa enfiou as mãos nos cabelos e abaixou a cabeça, rezando silenciosamente para que tudo desse certo com a mãe, e pedindo a Deus que seu irmão fosse logo liberado da reunião com o comando da facção, assim poderia ir ali fazer seu papel de forte, e ela finalmente deixaria escapar um pouquinho da agonia que vinha acumulando nos últimos dias.
***
A operação de Luísa durou quase duas horas. Pouco antes do médico vir comunicar que tudo ocorreu bem, o irmão de Elisa chegou no hospital.
Se as pessoas olhavam para ela com julgamento, com ele a coisa era ainda pior. Por mais que ele tenha vestido algo “normal e discreto”, que consistia em calça jeans escura e uma blusa de mangas para esconder todas as tatuagens que tinha nos braços, havia algo que denunciava o perigo que escondia sob a fachada dele.
— Como você se chama hoje? — ela perguntou em um sussurro, assim que ele se sentou ao seu lado e passou um braço sobre seus ombros.
Lucas sempre usava identidades falsas quando saía do morro. Não que alguém do lado de fora soubesse que o nome verdadeiro do famoso Baroni, era Lucas Gonçalves. A identidade verdadeira do seu irmão foi uma das poucas coisas que Grego não conseguiu comprometer.
— Luiz da Silva Prazeres — ele murmurou, sem se abalar.
Mesmo que ele nunca tenha dito, ela sabia que aquela identidade falsa era a favorita dele, porque nela ele era filho de Luísa. Não que Elisa e a mãe já não o considerassem como filho dela, para as duas, o sangue diferente correndo nas veias era só um detalhe, Lucas era filho de Luísa desde o dia em que ela o tirou da rua.
— Como tá a coroa? — ele perguntou depois de dar um beijo na sua têmpora.
Elisa resumiu tudo o que aconteceu e o que sabia. Ocultou de modo consciente a parte em que o médico a julgou com o olhar e insinuou a falta de dinheiro, coisa que ela duvidava muito que fizesse com os outros pacientes. Não precisava contar a Lucas porque, por mais que o irmão não fosse de perder o controle e causar terror, ela sabia muito bem o impacto que o olhar irado dele tinha, não havia necessidade de ver o médico se atemorizar quando encarasse seu irmão.
— Ela vai ficar de boa — Lucas garantiu. Elisa assentiu, se para ela era difícil ver a mãe passando por aquilo, imagina para ele, que havia perdido a avó depois de um ataque do coração — A Pat tá surtando porque não deixei ela vir comigo.
— Ela nem pode sair do morro — e aquela era mais uma das consequências de merda causadas por Grego. Depois de ele expor Camila como “a filha dos policiais mais famosos do estado, que tinha se tornado mulher do dono do morro”, em uma manchete no maior telejornal do estado, a facção pediu a cabeça dela. Foi uma verdadeira luta manter Camila viva, ainda mais quando não era apenas a facção a perseguindo. A polícia e o próprio Lucas entraram na caçada. Mas no fim, Camila mostrou onde estava sua lealdade e a facção permitiu que ela ficasse viva e com Baroni, contato que nunca saísse do morro sem autorização prévia. Era horrível, mas se comparado a todos os riscos de morte que ela sofreu no último ano, era uma benção.
— Você fala como se a Pat fosse de obedecer ordens — ele zombou. Elisa revirou os olhos, sabia como a amiga era teimosa.
— Depois eu ligo para ela e digo que não precisa se preocupar — ela suspirou. Não queria ligar, amava a amiga, mas vinha a evitando ultimamente, muito provavelmente porque Camila fazia parte do time “Elisa precisa ajudar o Jamaica e blábláblá”.
Os dois ficaram na sala de espera até serem chamados pelo médico. Elisa tremia ao seguir para o escritório do homem, enquanto Lucas continuava inabalável ao seu lado. Com a presença de Lucas, o médico foi bem mais sucinto e neutro que antes. Explicou que o procedimento foi um sucesso e que Luísa ficaria no hospital por mais um dia para ser monitorada. Quando Elisa estava quase respirando aliviada, o médico acrescentou que alguns exames adicionais detectaram uma alteração em uma das artérias do cérebro dela. Elisa sentiu a pressão na garganta aumenta, duvidava muito que fosse aguentar mais alguma tragédia sem surtar.
— Não é algo que possa ser revertido cirurgicamente — o médico continuou, depois de usar um monte de termos que ela não entendia e que apenas a apavoravam — Uma cirurgia colocaria a vida dela em um risco muito grande, mas podemos controlar a evolução do quadro com exames e medicamentos. Também serão necessárias algumas medidas preventivas, como alimentação controlada e, principalmente, não submetê-la a situações de estresse ou a mudanças bruscas de emoção.
Foi Lucas quem respondeu, enquanto Elisa tentava respirar e não chorar tudo o que vinha segurando dentro de si.
Quando saiu da sala do médico, sentia uma dor enorme no peito e um medo que a sufocava. Diziam que notícias ruins vinham em três, se as coisas continuassem progredindo naquele ritmo catastrófico, ela tinha medo de qual seria a terceira notícia.