*Jamaica*
A Índia dormiu na minha casa a primeira semana inteirinha. Ela disse à irmãzinha que era um trampo de babá e que as duas precisariam dormir fora por uns dias, já que não ia deixar a irmã sozinha.
Mesmo que eu estivesse pagando pelo tempo dela, sentia que nunca ia quitar tudo o que fez por mim e pela bebê.
— Você tem que escolher um nome para ela — ela observou na segunda-feira, enquanto arrumava as coisas para ir embora. Seria a minha primeira noite sozinho com a bebê, eu realmente esperava que a Índia fosse me dar umas cem dicas do que fazer para não surtar nas próximas horas, por isso franzi a sobrancelha quando ouvi falar do nome. Tinha tanta coisa na minha cabeça, que eu nem tinha pensado na história de dar um nome pra minha cria — É sério, a gente não pode ficar chamando a menina de bebê a vida toda.
— Eu sei — murmurei, tentando me concentrar no assunto — Mas não sei se consigo pensar em um nome maneiro ainda. É muita responsabilidade escolher como uma pessoa vai se chamar pelo resto da vida.
A Índia sorriu, tinha acabado de fechar o zíper da mochila com as coisas dela e da irmã dentro, meu coração acelerou com a constatação de que elas iam mesmo dar o fora e me deixar ali.
— Respira — ela riu, se aproximando e apoiando as mãos nos meus ombros, era tão baixa que eu tinha que baixar a cabeça pra olhar nos olhos dela — Vai dar tudo certo, e se você achar que precisa de ajuda, é só me ligar.
Eu queria dizer que precisava de ajuda naquele momento, mas disfarcei. Qual é, eu era gerente do morro. Já tinha feito um monte de coisas loucas na vida. Já tinha quase morrido no ano passado depois de uma invasão dos inimigos no morro. Não ia agir como um covarde agora, quando tudo o que precisava era sobreviver a uma noite com um bebê.
— Beleza — assenti para a Índia. Ela ainda me observou por mais alguns segundos, como se quisesse garantir que eu não ia correr.
— Vejo vocês amanhã de manhã.
Observei ela chamar a irmã e sair na maior calma do mundo. E então olhei para a bebê. Ela era linda, mas ficava ainda mais bonita quando dormia feito um anjinho, sem chorar por coisas que eu não sabia o que eram.
Aproveitei que ela estava apagada no carrinho e fui dar uma geral na casa. O carrinho tinha sido presente da pat, era enorme e todo cor-de-rosa. Ela e o Baroni vinham me ajudando demais nos últimos dias, sempre que eu piscava, um dos dois aparecia com algum presente ou mandava uma mensagem perguntado se eu precisava de ajuda. Era bom saber que não estava só, mesmo que me sentisse assim na maior parte do tempo.
Eu tinha acabado de preparar a mamadeira da bebê, quando ela acordou já no volume dez de choro. Era esse tipo de coisa que me deixava louco. Como uma criatura tão pequenininha podia fazer tanto barulho?
Dei a mamadeira do jeito que a Índia vinha me ensinando, não que eu fosse tão bom quanto ela, ainda tinha a sensação de que minhas mãos eram grandes e desengonçadas demais para segurar a criança. E é claro que estava todo torto no sofá enquanto tentava equilibrar o bebê e a mamadeira no ângulo certo que a Índia ensinou. Mas esqueci todo o desconforto quando ela olhou para mim. Era estranho, a bebê não sabia falar nem nada, mas o jeito que me olhou sem parar enquanto se alimentava, fez uma coisa estranha aquecer meu peito.
Foi a primeira vez que realmente entendi. Ela era minha filha. Minha responsabilidade. Sangue do meu sangue.
Pela primeira vez enxerguei a chegada dela não como uma coisa louca e inesperada do universo para me zoar, mas como o que realmente era: minha família.
Depois de passar anos sozinho no mundo, perceber que tinha uma família, fez o calor no meu coração crescer ainda mais.
— Vou fazer de tudo para que você seja a pessoa mais feliz desse mundo, vou te proteger de tudo o que eu puder, eu prometo — murmurei, mesmo sabendo que ela não entendia. Era uma promessa e eu ia cumprir.
Ela continuou me olhando e se alimentando enquanto eu pensava no meu passado. Não posso dizer que fui uma criança azarada. Tinha minhas avós e meu pai, minha mãe morreu quando eu era guri, e apesar de não lembrar dela, sei que cuidou muito bem de mim enquanto pôde. Assim como as minhas avós faziam de tudo por mim e para ajudar meu pai. Meu coroa também não ficava para trás, era um cara muito bom. Infelizmente, tive que assistir a morte de cada um deles ao longo dos anos. Primeiro minha avó materna, que morreu de velhice enquanto dormia. Depois a mãe do meu pai, que teve um problema do coração, ignorou por anos, e no fim morreu com um ataque fulminante. E por fim o meu coroa, que perdeu a batalha contra um câncer. Lembro que quando ele morreu, eu perguntei a Deus o motivo de ter tirado tudo de mim. Eu pedi que minha família voltasse. Pedi para não ficar sozinho. E o Todo Poderoso foi bom o bastante para me dar uma família reserva: a Elisa, que na época ficou ainda mais grudada em mim, o Baroni que, apesar de se manter o mais distante possível, sempre estava lá quando eu precisava, e a dona Luísa, mãe da Elisa, que cuidava de mim o máximo que podia.
Não era como ter uma família de sangue, mas foi o suficiente para não surtar nos primeiros meses. Quando entrei pro movimento, tinha coisas o bastante na mente pra não pensar nas minhas perdas.
Mas depois que a Elisa se afastou de mim, a sensação de não ter nada voltou com força, e mais uma vez perguntei a Deus por que ele me dava as pessoas se tiraria elas de mim.
Olhando para minha bebê, questionei pela primeira vez se tudo não contribuiu para chegar até ali.
E pedi a Deus que não a tirasse de mim, nunca.
***
A bebê acordou no meio da madrugada. Nada era capaz de acalmar ela. Tentei trocar frauda, dar mamadeira, até cantei uma música. Qual é, eu nem sei cantar. Quando vi que não ia ter jeito, liguei para a Índia, odiando acordá-la às três da manhã.
— Ela deve estar com cólica — a Índia disse com a voz sonolenta, depois de me ouvir falar sem parar sobre tudo o que já tinha tentado para acalmar a bebê — Você tem que esquentar a barriga dela. Tenta encostar a barriga dela na sua, mas tira sua blusa de vocês antes. O calor do seu corpo vai aquecer ela.
Duvidei que fosse funcionar, não vou mentir. Só que estava desesperado o bastante para tentar, então assim que ela desligou, tirei minha camiseta e encostei a bebê na minha barriga. Durante dez minutos, não fez efeito nenhum, mas depois de caminhar com ela para lá e para cá, ainda fingindo que sabia cantar, a bebê simplesmente se acalmou.
Fiquei tão feliz e tão aliviado que tive medo de afastar ela do meu corpo, mesmo depois que voltou a dormir. Quando minhas pernas protestaram por continuar andando no quarto, me deitei devagar na cama, de barriga para cima, com ela ainda apoiada em mim. Só queria descansar minhas pernas, não sei quando, exatamente, dormi.
Quem me acordou foi a pequena chorona, mas dessa vez ela só estava protestando por causa da frauda suja. Depois de trocar ela, segui a rotina: preparar mamadeira, alimentar, embalar no carrinho...
— Vim ver meus bebês — a voz da pat inundou a minha sala.
— Só tem um bebê aqui nessa sala — corrigi, retribuindo o sorriso que ela me dava. A pat estreitou os olhos. Tinha olhos lindos, verde claro como a água de um rio. Acho que foi a primeira coisa nela que deixou o Baroni fissurado.
— Tem certeza?
Ignorei a provocação. Gostava da pat, soube que era uma mina firmeza desde o começo, e se não soubesse, descobriria no dia em que ela salvou a minha vida. A mina sempre foi toda assustada, tinha caído de paraquedas no morro e m*l tinha se adaptado a nossa vida quando rolou um tiroteio e eu fui atingido. Lembro de ter usado toda a minha força para chegar na casa da Elisa, o único lugar em que eu conseguia pensar enquanto sangrava sem parar, mas a Elisa não estava em casa, quem estava foi a pat, e mesmo com medo, ela me levou para dentro, estancou o sangramento e gritou com o dono do morro dizendo que ele não podia me deixar morrer. Nunca vi ninguém gritar com o Baroni daquele jeito, se eu não estivesse morrendo, teria rido na hora. Na real, acho que o desaforo dela foi outra coisa que fez ele gamar de vez.
A história dos dois era surreal. Ela era filha do policial que queria matar ele. Ele era a p***a do dono do morro. Mas nenhum dos dois fazia ideia de quem era o outro quando começaram a se envolver. Você deve imaginar a confusão que isso deu.
— Você já tomou café? — ela perguntou, se sentando no sofá.
— Tô esperando ela dormir.
— Deixa que eu faço ela dormir — a pat estendeu a mão na direção do carrinho — Ou eu posso fazer seu café-da-manhã...
— Aqui o carrinho — me apressei, fazendo ela rir.
Eu podia amar a pat, mas isso não me fazia fingir que tinha qualquer interesse em provar a comida dela. A mina era péssima na cozinha, o único que era obrigado a provar seus desastres culinários, era o Baroni. O cara era mesmo um guerreiro.
A pat fez a bebê dormir antes de eu terminar na cozinha, chamei ela para comer comigo, ela disse que o Baroni já tinha obrigado a comer mais que o necessário, mas que ia me fazer companhia.
A gente estava conversando sobre nada de importante quando, do nada, meu cérebro mandou essa:
— Será que a Lizzie vai ficar chocada quando descobrir que eu sou pai?
Eu não queria pensar na Elisa, muito menos trazer ela pra conversa. Na verdade, só me dei conta de como ela rondava minha mente quando a pergunta escapuliu.
A pat desviou o olhar e mordeu o lábio, nervosa. E então eu entendi.
— Ela já sabe — murmurei. A pat suspirou — Ela já voltou?
— Faz uma semana — ela não me olhou enquanto murmurava a resposta. Era bom mesmo que não olhasse, odiaria ver a pena no olhar dela — Eu contei no dia que ela voltou.
E ela tinha ignorado. Aquilo não deveria me surpreender, muito menos deveria doer. Qual é, eu tinha que estar acostumado. A Elisa vinha me tratando como estranho a maior parte do tempo desde o dia em que me declarei para ela. E ultimamente parecia muito determinada em acabar com o que restou da nossa amizade de uma vez. Perdi as contas de quantas vezes ela me atingiu com alguma merda no ano passado. Sempre me ignorando, sempre esfregando o lance dela com o Grego na minha cara.
— Eu sinto muito — a pat murmurou, me trazendo de volta. Meneei a cabeça.
— Não tem problema, a Lizzie nunca foi de fingir se importar com o que não se importa de verdade.
Ignorei como machucava saber que a mulher que eu amava não se importava comigo ou com a minha filha, que não se importa nem um pouquinho, nem sequer para ter curiosidade de vir ver a gente.
Cara, eu juro, se soubesse que me declarar para ela fosse cagar nossa amizade assim, eu não me declararia. Seria melhor sofrer de amor em silêncio tendo ela sempre do meu lado, nos bons e nos maus momentos como no passado, do que abrir minha boca e sofrer sem ela.