Capítulo 03 - Perdido

1778 Words
*Jamaica* Levar uma criança para a base era uma péssima ideia, é claro que eu sabia disso. Por tanto, não sei explicar como acabei chegando na casinha principal da base. Entre carregar a cadeirinha onde o pacotinho estava e tentar não gritar junto com o choro dele, acabei entrando em um carro com algum vapor e chegando aqui. Que merda eu estava fazendo da minha vida? Ainda tentava responder essa pergunta quando Baroni, o dono do morro, abriu a porta do barraco e me encarou, os braços cruzados e as sobrancelhas franzidas. — Que barulheira é essa? — ele fixou o olhar na cadeirinha de segurança onde o bebê se remexia e gritava como se quisesse provar que tinha pulmões saudáveis. — É um bebê — respondi, ou acho que respondi. Naquele ponto minha cabeça já latejava, sem nenhum pensamento coerente. Só conseguia pensar que bebês deviam vir com um botão de “mudo”. — Sério? — Baroni fingiu surpresa — Se você não dissesse, eu não ia adivinhar — ele meneou a cabeça — Que c*****o um bebê tá fazendo aqui…? — É meu bebê — interrompi, falando mais para mim mesmo do que para ele. Talvez se repetisse mais algumas vezes, a ficha caísse e eu descobrisse o que devia fazer com a situação. — Como é que é? — agora ele parecia tão chocado quando eu. Ótimo — Jamaica? Como assim seu bebê, p***a? De onde você tirou essa criança? Dei de ombros por falta de resposta melhor. Não tinha cabeça pra explicar toda a nojeira da mãe abandonando o bebê como se não fosse nada. — Tem certeza que é seu? — Baroni me olhou com um misto de dúvida e incredulidade. Desviei minha atenção para a cadeirinha. O bebê ainda estava todo enroladinho em uma manta branca, a única coisa que eu conseguia ver era o rostinho. A pele ainda era meio avermelhada, daquela cor que os bebês tem antes de realmente atingir a cor de pele definitiva, e os olhos eram castanhos, o que queria dizer que ela podia ser minha… ou de qualquer outro cara de olhos castanhos entre os milhares de caras com essa cor de olhos que existia no mundo… — Jamaica? — Tenho certeza — respondi, sem desviar o olhar da bebê. Sinceramente, ela já tinha sido abandonada pela p*****a que pariu ela. f**a-se se era minha ou de outro cara qualquer, eu não ia abandonar a cria sozinha no mundo. Sabia muito bem o que era se sentir só, e se já foi barra pesada pra mim viver na solidão depois de grande, imagina pra uma coisinha desse tamanho? Ninguém merece crescer em uma realidade assim. — Vai me contar como isso aconteceu? — a expressão de Baroni não mostrava nada. Nem julgamento. Nem desdém. Nem dúvida. Na verdade, ele parecia meio preocupado, como se o bebê na cadeirinha fosse dele também. E era por isso que eu considerava esse cara um amigo. — Eu conto, assim que a gente fizer ela parar. Acho que faz m*l chorar tanto assim. A criança soluçava em meio ao choro, com certeza essa parada não era saudável. Enquanto eu seguia Baroni para dentro, me dei conta que a vaca da mãe dela não me disse nada sobre a cria. Nem sobre o que ela comia, ou sobre o que não comia, ou… Caramba, eu não sabia nem o nome dela. Será que tinha algum documento? É claro que não. — Cara? — O quê? — perguntei, voltando a olhar para Baroni. — Eu disse que acho melhor pedir ajuda pra Pat, o que tu acha? — Ótima ideia. Isso ou qualquer outra coisa que ele sugerisse, afinal, qualquer coisa seria melhor do que o que eu poderia sugerir agora, que era um redundante nada. A Pat chegou menos de dez minutos depois, não levei nem dois minutos para perceber como ela não era muito melhor que a gente no quesito "saber o que fazer com uma criança". — Acho que ela está com fome — ela se aproximou, mas não tocou na bebê, que ainda estava na cadeirinha em cima da mesa, onde eu tinha colocado em algum momento. Caramba, minha mente estava muito ferrada, eu nem lembrava quando coloquei ela ali. — Será que a gente pode dar leite normal a ela? — Baroni parou atrás da mulher dele, envolvendo a cintura dela com o braço. A Pat meneou a cabeça. — Não tenho muita experiência com bebês, mas acho que ela precisa de algum tipo de leite especial — ela mordeu o lábio, coisa que fazia sempre que estava nervosa — Vou pesquisar no Google. Nem comentei como era surreal que o bebê, meu bebê, dependesse de uma pesquisa do Google para se sustentar. Acho que depois da pesquisa a Pat saiu para pegar o leite, ou não, só sei que fiquei encarando a bebê, tentando bolar um plano na minha mente, e quando dei por mim, a Pat estava do meu lado de novo. — Encontrei a Lorrana no meio do caminho e acabei contando o que aconteceu — ela soou cautelosa, como se eu fosse brigar por isso. Sinceramente, ela podia falar pro morro todo se quisesse. Toda ajuda era bem-vinda — Ela disse que pode ajudar. Que tal se a gente levasse o bebê para a sua casa? A Lorrana vai encontrar a gente lá. Mais uma vez, minha mente parou de registrar os acontecimentos de modo coerente. Sei que peguei a cadeirinha com o bebê e saí da base. Acho que desci o morro no mesmo carro que subi. Tenho quase certeza que pat falou alguma coisa durante o caminho todo. Eu não registrei uma palavra. A bebê ainda chorava, minha mente ainda zumbia. Eu ainda não fazia ideia do que fazer. Mas o que eu tinha de perdido, a Lorrana tinha de habilidade para lidar com a situação. Assim que cheguei em casa e a gente entrou, ela pegou a bebê e começou a murmurar umas palavras em um tom baixinho enquanto checava tudo e fazia um monte de coisas. Menos de quinze minutos depois, a criança estava quietinha no colo dela, bebendo todo leite de uma mamadeira, que eu nem sabia de onde tinha vindo, e relaxando depois de ter sido trocada e embalada por Lorrana. A Índia, como a Lorrana era conhecida aqui no morro, era uma mina muito bonita. Baixinha, com cabelos escuros que batiam na bunda... e por falar em b***a, a dela era perfeita. Não era atoa que tinha sido uma das minas bancadas pelo Baroni antes dele arranjar uma fiel. Com certeza a Lorrana era uma das mulheres mais lindas daqui, mas enquanto ela embalava a minha filha, eu percebi que ela nunca tinha se mostrado tão bonita como naquele momento. Qual é, a mina não tinha obrigação nenhuma de me ajudar. A gente até tinha uma certa proximidade por conta do Baroni e do passado dos dois, mas nada que fizesse ela ter que me ajudar a cuidar de um bebê em plena manhã de um dia útil. Geral sabia quanta coisa a Índia tinha pra fazer. Ela cuidava sozinha da irmã mais nova, já que o pai das duas ganhou o mundo atrás de emprego e nunca mais voltou. Ela também trampava em tudo quanto era canto pra garantir o sustento das duas. E para completar, fazia aulas em um cursinho que o Baroni bancava pra ela, mesmo que agora os dois não se envolvessem mais. E não que o Baroni fosse alguma Madre Teresa pra ajudar garotas necessitadas, mas até ele via o valor que a Índia tinha e o quanto havia ajudado ele com a pat. — Ela dormiu — Lorrana desviou a atenção para mim — Você está bem? — O quê? — franzi as sobrancelhas. Ela me deu um sorriso. — Tá todo mundo preocupado com a bebê, mas acho que deviam se preocupar com você também. — Eu tô de boa — fiz esforço para soar coerente. Não que me sentisse de boa, ou sequer perto disso. Lorrana meneou a cabeça, os fios lisos do cabelo escorregando por cima do ombro. — Faz quase uma hora que você tá parado aí, encarando o nada — ela se ajeitou no sofá. Eu prendi a respiração, se o bebê acordasse... — Quer falar sobre o que aconteceu? Me afastei da parede e andei pela sala. Ela tinha razão, eu estava parado há tempo demais. — Acho que ainda não sei o que aconteceu — murmurei, passando a mão no meu cabelo, mesmo que a vontade fosse arrancar os dreads na força para ver se isso calava a confusão na minha mente — Quer dizer, eu sei, mas... Viu só, nem explicar eu sabia. A Índia assentiu. — Você ainda não registrou tudo — ela deduziu — Acho que também surtaria se descobrisse do nada que tinha uma criança dependendo de mim. Na verdade... — fez uma pausa, desviando o olhar para o bebê enquanto sorria. Tinha algo no sorriso dela que exalava um tipo diferente de calmaria — Acho que já passei por isso. Quando o meu pai foi para São Paulo procurar emprego e não voltou, ou melhor, quando eu finalmente admiti que ele não voltaria... — ela meneou a cabeça — Lembro que olhei para a minha irmã, enquanto ela devorava o último café-da-manhã garantido que a gente tinha, e pensei, meu Deus, o que tá acontecendo? O que eu faço agora? — E como você descobriu a resposta? — essa parte parecia importante, talvez ela me mostrasse o que eu deveria fazer, afinal, mesmo sendo nova, a Índia conseguiu controlar com maestria a situação com a irmã. Ela deu de ombros. — Fui vivendo um dia de cada vez. Claro que no primeiro dia eu chorei, mas aí percebi que não adiantaria de nada, e que precisava me manter forte pela minha irmã, então foi o que eu fiz. — Quando você fala assim, parece simples. — Ah, não foi simples. Foi complicado, as vezes ainda é. Mas quer saber de uma coisa? Cada aniversário da minha irmã, cada ano em que ela é aprovada na escola com boas notas, cada sorriso que ela dá... Me faz ver que valeu a pena até os momentos em que me senti perdida. E mesmo que pareça assustador para você agora, eu sei que no futuro vai ser assim que você vai se sentir, com a certeza que tudo valeu a pena. Eu assenti, sem saber o que responder, mas com uma sensação de que ela tinha razão. Ou talvez eu só desejasse muito que ela tivesse.
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