CAPÍTULO 15 — A CONTA NO PAPEL
Larissa.
A sombra dele caiu em cima da nossa marmita.
Rafael encostado na moto grande preta na porta dos fundos da confecção, boné baixo, cordão de ouro, pistola na cintura aparecendo por baixo da camisa. Todo mundo parou de comer.
Rafael: — Larissa.
Ele pegou minha marmita da minha mão e jogou no lixo sem olhar. Pegou meu braço.
Rafael: — Tu não almoça marmita fria no chão. Tu almoça comigo. Quando eu quero, eu não peço. Eu tomo.
E me levantou na frente de todo mundo. Manu com frango entalado na garganta.
Ele me levou pra fora, me botou na garupa da moto e acelerou. Não me levou em restaurante caro. Me levou na laje mais alta do morro, onde só ele ficava. Vista pra favela toda.
Tinha uma quentinha lá. Arroz, feijão, bife e batata frita. Ainda quente.
Rafael: — Come.
Larissa: — Você me tirou da confecção na frente de todo mundo pra me trazer pra comer aqui?
Rafael sentou do meu lado, perto demais. Olhos escuros cravados na minha boca.
Rafael: — Te tirei de lá porque a partir de hoje ninguém te vê comendo no chão. Tu é minha contadora. Minha e de mais ninguém. Costureira minha não divide marmita no banquinho de plástico.
Comi tremendo. Ele não comia, só me olhava.
Larissa: — Por que você faz isso?
Rafael: — Porque tua irmã de vinte e três anos deve 80 mil e tá virada na droga querendo ser fiel de bandido, tua mãe tá com pressão nas alturas chorando no chão da cozinha, e tu com dezenove anos tá carregando mundo nas costas costurando no Bom Retiro e fazendo bico na 25 de Março pra pagar conta que nem é tua.
Ele pegou meu queixo com dedo, levantou meu rosto.
Rafael: — Eu não deixo quem é meu passar fome no chão da confecção, Larissa.
Meu coração parou. Quem é meu.
Depois do almoço, ele me levou de volta pra confecção na moto, me deixou na porta na frente de todo mundo de novo, e subiu pro morro.
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Rafael.
Escritório no alto da biqueira abafado, fim de tarde, cheiro de fumo e zinco quente. Movimento engrossando lá embaixo, mas dentro da sala só ventilador velho girando.
Leão jogou caderneta preta na minha frente.
Leão: — Relação de quem tá atrasado. Topo da lista: Bia. Buraco ficando fundo.
Abri caderneta. Dívida da Bia passando do limite faz tempo. Se fosse morador comum, já tinha sido expulsa ou cobrada na pressão.
Mas minha cabeça tava na outra. Na que almoçou comigo na laje hoje.
Rafael: — Quanto falta pra Larissa cobrir o que irmã estourou?
Leão riu desacreditado.
Leão: — Tá com fixação nessa menina, hein, Patrão? Se mata na confecção e bico no fim de semana pra juntar cada centavo, mas rombo que caloteira fez é grande. não some nem com bico na 25.
Fechei caderneta com baque seco.
Rafael: — Ela tá pagando sozinha?
Leão: — Mãe tá no talo, à base de remédio e choro. Quem segura bronca e aparece todo mês pra deixar dinheiro na mão dos cobradores é Larissa. vinte anos e carrega mundo nas costas.
Silêncio. Enquanto resto das garotas do morro subia pro baile querendo encostar em bandido, status e cordão de ouro, ela tava lá com coluna torta em cima de máquina de costura pagando dívida de irmã inconsequente só pra mãe não sofrer.
Leão: — Vai fazer o que? Manda apertar prazo dela lá no trampo ou deixa correr normal?
Peguei caneta preta. Não falei "deixa correr". Já falei isso três vezes. Dessa vez eu tomei.
Risquei BIA da caderneta e escrevi em cima, letra grande: LARISSA - - MINHA.
Leão arregalou olho.
Leão: — Que tu tá fazendo?
Rafael: — Não é mais dívida da Bia. É dívida da Larissa agora. Bia drogada de vinte e três anos não paga nem bala que fuma. A partir de hoje quem deve pra mim é Larissa. E Larissa me paga de outro jeito.
Leão sorriu safado.
Leão: — De que jeito, Patrão?
Fechei caderneta, peguei chave da moto.
Rafael: — Do jeito que eu quiser. Ela quer pagar costurando no Bom Retiro? Deixa. Mas ela não paga com ponto de overlock. Paga sendo minha contadora, dormindo na minha casa quando Vila Nova quiser cobrar, e almoçando comigo todo dia na minha laje. E hoje de noite ela vai entender o que é dever pra mim.
Desci a ladeira. Não pra cobrar ninguém na biqueira.
Pra cobrar ela.
NOTA DA AUTORA
Ele tirou ela da confecção, levou pra laje dele, deu comida quente e falou "quem é meu não passa fome no chão" 😍 E agora riscou a dívida e passou pro nome dela!
como será que ele quer receber em 🥵?
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