CAPÍTULO 22 — O PRIMEIRO TURNO (de verdade, o segundo)
Larissa
O relógio na parede da confecção parecia rodar em câmera lenta. Cada minuto arrastado empurrava meu estômago mais pro fundo.
11:30 a quentinha chegou. De novo.
A menina da portaria gritou: "Larissa da máquina 7, quentinha do Patrão!" As costureiras todas olharam. Bife, ovo, arroz soltinho, tudo com bilhete: R.
Eu comi com vergonha, mas comi. Porque desde que ele começou a mandar, minha tontura do meio-dia sumiu.
Às cinco e meia, sirene final. Costas latejando, dedos calejados, mas o cansaço físico era o menor dos problemas. O problema real começava às sete. Todo dia.
Peguei minha bolsa, corri pelo Bom Retiro, metrô, ônibus, ladeira. Na entrada do morro os vapores da guarita nem perguntaram mais nada. Já sabiam. Só abriram espaço. O Leão tava encostado na porta do escritório com dois copos d'água.
Leão: — Pontualidade inglesa de novo. E hoje comeu tudo? Patrão perguntou.
Revirei os olhos e empurrei a porta.
O escritório tava mais arejado, janela basculante aberta. Na mesa, a mesma pilha grossa de cadernos antigos, recibos rasurados da associação e dos comércios locais que eu já tinha começado a organizar ontem - a mesma pilha onde eu achei o furo.
E o Rafael tava lá. Mesma cadeira, jaqueta aberta sem camisa por baixo, fumando despreocupado enquanto mexia numa calculadora. Levantou o rosto quando o trinco bateu.
Rafael: — Achou que eu ia esquecer? — voz baixa, deboche que me dava coceira na mão. — Senta aí, contadora. O serviço de escritório te espera.
Fechei a cara, sentei do outro lado, cruzei os braços.
— Eu não fujo de acordo, Rafael.
Ele tragou lento, soltou fumaça pro lado e empurrou a pilha pra perto de mim, mas dessa vez em cima tinha a pasta do rombo que eu achei ontem, com meu grifo de caneta vermelha.
Rafael: — Menos pressa, Larissa. Ontem você achou que alguém mexeu nas contas. Hoje você vai me provar onde.
Abri o caderno com relutância. Cabeça estourada da confecção, mas cerrei os dentes, puxei a calculadora velha e comecei a cruzar número por número: taxas de segurança dos comércios da pista com o que entrou de caixa nas últimas semanas.
Silêncio. Só ventilador e meu lápis no papel.
Mas mesmo sem olhar, eu sentia a queimação do olhar dele fixo em cada movimento meu. E de cinco em cinco minutos:
Rafael: — Comeu a quentinha toda hoje? A menina da portaria me falou que deixou o ovo.
Eu: — Você mandou alguém me vigiar comendo?
Rafael: — Mandei cuidar do que é meu pra trabalhar direito. Minha contadora não desmaia na minha mesa.
Eu voltei a somar, com o rosto quente, tentando ignorar que até o que eu comia no Bom Retiro agora tinha o nome dele.