CAPÍTULO 11 — O CORRE NÃO PARA
Leão.
A neblina da madrugada descia pelas encostas do morro, misturada com cheiro de esgoto a céu aberto, poeira e resto de cerveja derramada na praça. O baile tinha acabado de minguar, paredões desligados e caixas empilhadas nas carroças, mas a favela nunca dormia de verdade.
Pra quem era da Boca, o fim da festa era só começo de outro turno.
Eu tava encostado na mureta da biqueira principal, limpando unha com ponta de canivete, enquanto movimento na viela continuava constante. Não era morador. Era clientela do asfalto que aproveitava madrugada pra subir.
Carros importados com vidro fumê abaixado desciam devagar pelas ladeiras estreitas, ou motos de alta cilindrada cortavam silêncio da madrugada. Playboys de condomínio, filhinhos de papai e patricinhas que perdiam linha nos fins de semana vinham buscar veneno.
Um Golzinho prata encostou perto da mureta. Moleque no volante, camisa de marca amassada e olho arregalado de quem já tinha cheirado até retrovisor, abaixou vidro.
Playboy: — Irmão... salvamento aí. Tem dois pinos e uma grama?
Olhei pra ele com cara fechada, fuzil cruzado no peito. Dei dois passos até janela, cuspi no chão de terra batida.
Leão: — Tu tá na pista errada pra vir pedir fiado ou dar vacilo, playboy. Desce dinheiro primeiro.
Cara puxou bolo de nota amassada do bolso da bermuda, tremendo de pressa. Joguei pinos em cima do banco do passageiro e peguei dinheiro sem olhar na cara dele.
Leão: — Vaza daqui antes que polícia passe e ache que tu é brinde. Anda.
Motorista cantou pneu, subindo poeira na cara de duas garotas que vinham logo atrás a pé.
Duas figuras carimbadas. Subiam morro toda semana, sempre de madrugada, roupas coladas e chamativas, com marra de quem achava que tava em filme de máfia. As chamadas marmitas de bandido — garotas do asfalto ou de quebradas vizinhas que vinham atrás de bandido armado, querendo status, droga de graça e quarto pra passar fim de semana se exibindo pros vapor.
Uma delas, cabelo loiro oxigenado desgrenhado e batom borrado, parou na minha frente sorrindo maliciosa.
Garota: — E aí, Leão, beleza? O Patrão tá lá em cima ainda? A gente subiu direto pra ver ele.
Encarei com nojo profundo. Pra nós, aquilo ali não passava de lixo descartável. Vinham subindo serra inteira só pra dar pros soldado em troca de pó e um pouco de atenção de quem mandava no morro, achando que iam virar rainha do tráfico.
Leão: — O Patrão não tá pra gracinha, e muito menos pra duas tontas fedendo a álcool e lança. Dá fora daqui antes que eu mande vocês descerem a pé e sem sapato.
Garota tentou peitar, sorriso falso.
Garota: — Ah, qual é, Leão? A gente só queria...
Leão: — Tu não quer nada, p***a nenhuma! — rosnei, dando passo à frente com arma balançando no peito — Some da minha vista antes que eu perca paciência. Morro não é abrigo de caridade pra p**a folgada.
As duas recuaram na mesma hora, percebendo que brincadeira acabou, e saíram trotando ladeira abaixo, resmungando baixo.
Nisso, um dos vapor da segurança chegou correndo pela viela, respirando fundo.
Vapor: — Mano, o Beto tá lá embaixo na entrada cobrando caloteiro daquele mercado velho. Cara tá inventando história de novo que não vai pagar imposto da semana.
Apertei cabo do fuzil. Morro tinha dono, e engrenagem do crime não parava por causa de marmanjo caloteiro.
Leão: — Vamos lá resolver isso. O Patrão não gosta de cobrança atrasada. E avisa pros moleques: quem vacilar na pista hoje vai pagar dobro.
Eu ia descer quando meu celular vibrou.
Rafael.
Rafael: — Onde tu tá?
Leão: — Na biqueira principal, segurando madrugada. Por quê?
Rafael: — Deixa vapor lá e sobe aqui na minha casa agora. Traz a costureira.
Meu sangue gelou. Três da manhã.
Leão: — A Larissa? Agora? Ela deve tá dormindo depois da confecção...
Rafael: — Eu sei que horas são. Traz ela. Agora. A irmã dela fez barraco no meu baile hoje, foi arrastada pra fora, e amanhã o morro inteiro vai cobrar a dívida de 80 mil dela. Se eu não tirar a costureira de casa hoje, amanhã a Vila Nova sobe aqui pra buscar a Bia drogada e leva a Larissa junto.
Desligou.
Olhei pra viela escura. O corre não parava mesmo. Enquanto resto da cidade dormia, nosso mundo girava à base de chumbo, pó, dívida e sangue.
E hoje, pela primeira vez, o Patrão tava tirando uma mulher de casa de madrugada não pra cobrar.
Pra proteger.
NOTA DA AUTORA
Meninas, o Rafael mandando buscar a Lari de madrugada pra proteger ela da Vila Nova! O que será que vai acontecer na casa dele às 3 da manhã? Comentem Team Rafael! Me segue que no próximo capítulo ele quebra a regra de não beijar na boca