CAPÍTULO 12 — ENTRE O CORRE E A CONFUSÃO
Três e quinze da madrugada.
A neblina descia pelas encostas do morro, misturada com cheiro de esgoto a céu aberto e resto de cerveja do baile. O baile tinha acabado de minguar, mas a favela nunca dormia.
Leão tava na mureta da biqueira principal, fuzil cruzado no peito, quando o celular vibrou.
Rafael: — Traz a costureira. Agora.
Leão: — Agora? Três da manhã?
Rafael: — Agora. A irmã dela fez barraco no meu baile, foi arrastada, e amanhã a Vila Nova sobe aqui pra cobrar Se eu não tirar a Lari de casa hoje, levam as duas. Vai lá.
Leão desceu com dois vapor até a casa da Dona Lúcia. Bateu na porta. Dona Lúcia abriu de camisola, assustada.
Dona Lúcia: — Leão? O que houve?
Leão: — Patrão mandou buscar a Larissa. Pra proteger. Vila Nova vai vir cobrar a dívida da Bia amanhã. Ela não pode ficar aqui.
Larissa apareceu atrás da mãe, de short velho e camiseta larga de dormir, cabelo preso de qualquer jeito, olhos verdes arregalados de sono.
Larissa: — Agora? De madrugada?
Leão: — Agora, costureira. Leva só tua roupa de trabalho. Tu não dorme mais aqui essa semana.
Dona Lúcia chorando: — Vai, filha. É mais seguro com o Patrão.
Larissa pegou a sacola com a roupa simples de confecção e subiu a viela escura com Leão até a casa do Rafael no alto.
Rafael tava encostado na porta, descalço, sem camisa, só de bermuda, fumando. Olhou ela de cima a baixo. Parou na boca carnuda.
Rafael: — Entra.
Larissa tremendo no meio da sala: — Por que me trouxe aqui de madrugada?
Rafael: — Porque tu é minha contadora. Minha e de mais ninguém. E contadora minha não dorme em casa que Vila Nova pode invadir pra cobrar Tu dorme no quarto. Eu fico na sala.
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Manhã seguinte.
Manu tava correndo pela sala com um pé de tênis de cada cor, carteira evaporada, panela de pressão chiando na cozinha como escola de samba.
Mãe da Manu: — Ô, desgraça de menina! Acorda virada no Jiraya ou é de nascença? — apareceu com colher de p*u na mão.
Manu: — Mãe, cala boca que tô atrasada pra entrevista lá no Bom Retiro! Se eu perder o metrô quem paga minha passagem?
Mãe da Manu: — Vou soltar essa colher na tua orelha pra ver se aprende a ser gente, sua capetinha!
Manu: — Tá repreendida! Te amo, benção, tchau!
Saiu voando porta afora antes da bota vir atrás.
O morro de manhã cheirava café coado, pão quente da padaria do Seu João, sabão em pó nas lajes. Foi pra esquina da escadaria onde Larissa sempre esperava ela pra descerem pro asfalto juntas.
Ninguém.
Manu: — Cadê tu, Lari?
Mandou mensagem. Visualizou e não respondeu.
Subiu até a casa da Dona Lúcia.
Manu: — Tia, cadê Lari?
Dona Lúcia: — Levaram ela de madrugada, Manu. Três da manhã. Leão. Falou que o Patrão mandou buscar pra proteger da Vila Nova por causa da dívida da Bia. A Bia sumiu depois do baile, brigou na pista, foi arrastada.
Manu gelou. Bia, , viciada em balada e droga, sonhando em ser fiel de bandido, devendo 80 mil porque vendeu carga na Vila Nova.
Desceu em direção ao asfalto pra tentar vaga de costureira na mesma confecção onde Larissa trabalhava. Numa esquina perto do campinho, o clima tava trancado.
Dois rapazes da Boca armados vigiavam a entrada de um galpão abandonado. No centro, Leão num banquinho de plástico. Dois moleques seguravam um morador com rosto arrebentado de sangue.
Tribunal do Crime.
Manu passou pela viela de cima, acelerando o passo. Na favela, quem não vê nada, vive mais.
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Larissa acordou com sol na cara, num quarto que não era o dela. Cheiro de cigarro, perfume masculino caro e lençol limpo.
Sentou na cama assustada. A roupa simples de confecção tava dobrada na cadeira.
Rafael tava encostado na porta, já de roupa, olhando pra ela. Maxilar trancado.
Rafael: — Bom dia, costureira. Dormiu bem na minha cama?
Larissa queimou de vergonha.
Larissa: — Por que me trouxe pra cá?
Rafael chegou perto, parou a um centímetro da boca dela. A regra dele desde moleque é não beijar na boca. Nunca. Beijo prende.
Rafael: — Porque o corre não para. De dia tu é costureira no Bom Retiro, de noite tu conta meu dinheiro na Boca, minha e de mais ninguém. E de madrugada, quando a Vila Nova vem cobrar da tua irmã , tu dorme na minha casa. Entendeu? Ninguém encosta em você enquanto tiver aqui.
E ela ficou.
Porque no morro dele, a única regra que protegia era a dele