CAPÍTULO 10 — SANGUE NA PISTA
Bia.
O grave tava tão alto que o chão da laje tremia. Cheiro de lança, suor, espetinho e fumaça de maconha grudado na pele. O baile no ápice.
Mas eu não tava quente por causa da música. Tava quente de raiva.
Minutos antes eu tinha levado o maior esporro da minha vida do Rafael na área VIP, na frente dos vapor dele. Ele me chamou de nóia desgraçada, devedora fudida, falou que ia mandar raspar minha cabeça na zero. E agora, do camarote, eu vi uma patricinha do asfalto, toda produzida, loira escovada, subindo pra se esfregar nele.
Na cara dura. No meu lugar.
Meu estômago virou.
Desci a escada da área VIP empurrando gente na marra. A patricinha já tava descendo com sorrisinho de quem achou que abafou. Fiquei no meio do caminho dela e tranquei a passagem com o corpo.
Bia: — Olha aqui, sua otária. Tu acha que tá em casa?
Ela piscou assustada, mas debochou.
Garota do Asfalto: — Sai da minha frente, favelada. Qual é a tua?
Bia: — Minha frente o c*****o! Quem tu pensa que é pra subir lá se esfregando no Patrão? p*****a de condomínio querendo dar uma de esperta na nossa biqueira?
Garota: — O Rafael é solteiro, lindo pra c*****o e não é tua propriedade não, sua noia! Se ele me deu bola, o problema é teu!
Bia: — Ele não te deu bola p***a nenhuma! Tu é só mais uma que ele vai usar e jogar no lixo!
Ela empurrou meu ombro com força.
Garota: — Vai tomar no cu! Se enxerga!
Foi o gatilho.
Puxei aquele cabelo loiro escovado com toda força, unhas voando. Caímos emboladas no meio da pista, derrubando copo, cerveja, tudo. Rolamos no chão de paralelepípedo sujo de poeira e mijo de cerveja. Dei um soco na cara dela que estalou, ela rasgou minha blusa quase toda.
A roda se formou em segundos. Galera gritando, filmando.
— Olha a briga! Puxa o cabelo dela!
Eu tava cega. Cega de ódio, de vergonha, de pó que ainda tava no corpo.
Foi aí que o ar mudou.
O grave continuava, mas os gritos da roda foram morrendo. Os celulares foram abaixando. Um silêncio pesado se alastrou.
Passos firmes no chão.
Uma bota preta parou do nosso lado.
Levantei os olhos, cabelo desgrenhado, boca cortada, sangue descendo.
Rafael.
Parado em cima da gente, rosto cortante como lâmina, pistola pesada na cintura, olhos escuros com um ódio frio que congelava. Leão logo atrás, mão no cabo da arma, com nojo da cena.
Rafael não gritou. A voz dele saiu baixa, rascante, cortando o paredão como tiro.
Rafael: — Que p***a tá acontecendo aqui no meu baile?
Nenhuma das duas respirou. A patricinha tremia igual vara verde, maquiagem borrada de choro e sangue.
Garota do Asfalto: — Patrão... foi ela... ela me atacou...
Bia: — Mentira! Essa vagabunda subiu lá pra se oferecer...
Rafael ergueu a mão. Um gesto seco. Minha boca fechou na hora.
Rafael: — Eu não perguntei quem começou. Eu perguntei que palhaçada é essa transformando meu morro em circo.
Ele olhou primeiro pra ela. Um olhar tão desumano que a menina quase desmaiou.
Rafael: — Tu. Sobe na tua SUV agora. Some da minha vista. Nunca mais bota o pé no meu morro. Se eu te ver aqui de novo, tu sai daqui direto pro caixão. Entendeu?
Garota: — Sim, Patrão... tô indo... juro...
Ela saiu correndo, tropeçando nas próprias pernas, chorando.
Aí ele virou pra mim. E se antes tinha ódio, agora tinha nojo.
Rafael: — E tu... tu não aprende nunca, desgraçada? Eu acabei de te falar pra sumir da minha frente e tu ainda arruma barraco na minha laje? Tu acha que é dona de alguma coisa aqui?
Bia: — Eu só não deixei ela...
Rafael: — Cala essa boca! — ele abaixou o corpo, ficando na minha altura, hálito de whisky na minha cara — Tu não é p***a nenhuma! Tu é só uma devedora fudida de 80 mil que vive cheirada fazendo palhaçada! Tu só tá respirando porque eu deixo!
Rafael: — Leão. Tira essa maluca daqui antes que eu perca a paciência e mande raspar a cabeça dela na zero e expulsar do morro.
Leão me pegou pelo braço como alicate, me levantando sem cerimônia nenhuma.
Leão: — Anda, Bia. Vaza. Tá feio pra tu.
Fui arrastada pra fora da praça, corpo dolorido, roupa rasgada, olhos ardendo de vergonha. Todo mundo olhando. Todo mundo filmando a fiel do morro sendo expulsa igual lixo.
Olhei pra trás. Rafael já tinha virado as costas, acendendo cigarro, como se eu nunca tivesse existido.
Leão me largou na viela escura. E quando levantei a cabeça, limpei o sangue da boca e vi quem tava parada na esquina me olhando?
Larissa.
Minha irmã mais nova. Cabelo preso, roupa simples de confecção, sacola do Bom Retiro na mão. A certinha. A contadora da Boca dele. A que todo mundo agora chama de Dama do Morro.
Ela viu tudo. Eu no chão, rasgada, apanhando, sendo humilhada.
Ela não falou nada. Só me olhou com aquela decepção que doía mais que soco.
E naquele segundo, meu ódio mudou de alvo. Não era mais da patricinha do asfalto.
Era dela.
Se ela acha que vai ficar com meu homem e ainda me olhar com pena, ela tá muito enganada.
NOTA DA AUTORA
Gente, que barraco! Bia sendo arrastada e a Lari vendo tudo! O que vocês fariam no lugar da Lari? Comentem Team Lari! Me segue que o próximo capítulo tem briga de irmãs dentro de casa que vai fazer o morro inteiro ouvir!