ALANA CLIVE
Já faz quase uma semana que eu me escondi em um hotel, fugindo de tudo, e principalmente de Daniel. E, desde aquela aparição fora da empresa, houve silêncio. Ali foi a última vez que eu o vi. Nenhuma ligação, nenhuma mensagem, nenhum sinal. Mas claro, eu troquei de número, bloqueei ele em tudo e, pela primeira vez, parece que ele entendeu o recado.
Assim eu espero.
O problema é que, mesmo com esse silêncio, não significa que a dor tenha ido embora. Ela ainda está aqui. Intacta.
Eu olho ao redor da minha casa assim que coloco a chave na porta. Está tudo exatamente do jeitinho que deixei quando saí às pressas. As minhas plantinhas na varanda parecem meio tristes, e eu me identifico tanto com elas agora. Sinto aquele aperto no peito, aquele nó na garganta, e respiro fundo outra vez.
"Você precisa ser forte, Alana. Você está sendo forte."
Mas é impossível não lembrar. É impossível não se perguntar como, em que momento, tudo desandou. Eu... eu amava o Daniel. De verdade. Eu me entreguei, acreditei, planejei uma vida e um futuro. O nosso casamento. E, de repente, descubro que tudo não passava de uma mentira suja e nojenta.
Eu estava seguindo o plano certinho. Eu não tinha dúvida do sim e estava me guardando para isso.
Às vezes, eu me pego olhando fotos de vestidos de noivas, e as lágrimas simplesmente caem. Sozinhas. Silenciosas. Como se meu corpo precisasse, de tempos em tempos, colocar tudo isso para fora. E eu deixo. Eu permito que doa, que machuque. Mas não vou voltar atrás. Não vou. Nunca.
Bem aqui, eu recolho qualquer coisa que me lembre ele. Tem fotos na estante, tem um par de meias que ele deixou e vou atrás de mais alguma coisa. Eu não quero nada dele e já penso até em fazer uma faxina e mudar a decoração da casa toda.
Eu vou chamar a dona Ramirez para a faxina geral essa semana. Mas, enquanto isso, eu tenho umas belas roupas para lavar e uma cama para trocar os lençóis tudo mais.
{ . . . }
Termino de ajeitar as minhas coisas, tomo um banho longo, visto uma roupa confortável e vou em direção ao trabalho. A festa de lançamento está chegando e, graças a Deus, isso tem ocupado a minha cabeça mais do que qualquer coisa. Se eu forçar a minha mente a focar no trabalho, talvez eu consiga anestesiar um pouco essa dor.
Essa é a minha saída do momento e tem que funcionar. Nessa semana que se passou, eu literalmente foquei em tudo na editora.
Saio de casa e sigo caminhando na calçada, ajeitando a bolsa no ombro, conferindo mentalmente se não esqueci nada. Eu pego o meu carro e vou dirigindo, já imaginando um belo café da cafeteria ao lado do prédio e uns pãezinhos.
Estou faminta!
Mas, eu lembro que hoje é sexta feira e tem café da manhã no departamento e, com certeza, encomendaram algo dessa cafeteria. Maravilha!
Assim que eu estaciono o carro aqui fora mesmo, eu vou à farmácia à frente comprar o meu absorvente rapidinho e volto num pulo. Assim que eu viro a esquina da empresa, sinto quando alguém esbarra no meu ombro.
— Opa, desculpa... — Digo no automático, olhando pra frente. — Foi sem querer...
Quando ergo os olhos, meu estômago simplesmente revira. É um dos amigos de Daniel. Um daqueles que sempre estava nas festas, nos encontros, e que eu cumprimentava educadamente, sem muita i********e. Eu já o vi muitas vezes.
Ele me olha, abre um sorriso sem graça e balança a cabeça.
— Caramba... que situação, né? — Ele enfia as mãos nos bolsos da calça, todo desconfortável. — Eu... eu soube do que rolou entre você e o Daniel. E-eu sinto muito.
— Pois é... vida que segue. — Tento manter a postura, mesmo sentindo meu peito afundar.
— Olha, Alana... — Ele respira fundo, como se precisasse de coragem para dizer o que vem a seguir. — Eu nem sei se deveria falar isso, mas... de verdade, eu sinto muito. Você não merecia isso. Ninguém merece.
Fico em silêncio, segurando cada expressão simples no meu rosto.
— Mas... — Ele passa a mão na nuca, olhando pro chão. — Aqui para nós dois, se serve de alguma coisa... isso... isso não foi de agora. O Daniel... ele te traía há muito tempo, Alana. Desde o começo, para ser honesto. Só que, sabe como é... todo mundo meio que passava pano, porque... é o Daniel, né? — Eu não esperava ouvir isso. — Ele é conhecido, bem relacionado... ninguém queria se meter. E... é o jeito dele. Todo mundo sabe.
Sinto minha garganta queimar. O chão parece se mover nos meus pés, como se tudo em volta girasse. Meu corpo inteiro trava.
— Eu... eu achei que vocês davam certo, sabe? Mas... quando eu soube do término, não consegui fingir que não sabia. Achei que você deveria saber. — Eu não sei quem é pior.
Daniel por fazer tudo o que fez, ou, esse aqui que sabia de tudo há tempos e nunca disse nada, mas diz agora por nada. E é porque são amigos.
Meus olhos piscam várias vezes. Travo o maxilar, respiro fundo e ajeito a bolsa no ombro.
— Agradeço por me contar... — Respondo, seca, tentando não transparecer que por dentro eu estou desabando. E ainda dou de ombros. — Tenha um bom dia...
— Se quiser, a gente pode tomar um café. Conversar um pouco... sei lá... — Ele oferece, com um olhar até simpático, mas eu sei que tem coisa. Como ele ainda tem coragem de me chamar para tomar café?
Eu o encaro por um segundo, mas balanço a cabeça friamente.
— Não, obrigada. Eu só quero distância de tudo... de tudo que tenha a ver com ele. — É a única coisa que eu digo.
Sem esperar resposta, sigo o meu caminho. Meus passos são rápidos e firmes, como se eu pudesse, de alguma forma, correr desse sentimento que está apertando meu peito. Esmagando o meu coração.
Quando chego na empresa, faço questão de respirar fundo, ajeitar o cabelo e alinhar minha postura. Ninguém precisa saber que por dentro eu estou desmoronando. Ninguém. E eu me recuso a chorar aqui e agora.
Eu vou engolir!
Assim que entro no setor, vejo meu chefe vindo na direção da minha mesa, segurando alguns papéis. O semblante dele é bem animado.
— Alana! — Ele sorri. — Queria te parabenizar. O material da campanha do próximo lançamento ficou impecável. Sério, você se superou dessa vez. — Os meus olhos até brilham um pouco.
— Sério? Ah... obrigada, de verdade! Eu... eu me esforcei muito nisso. — É, tomei muito café e ouvi muita música para me distrair e me entregar à campanha.
— Dá para ver. E é isso que quero da equipe para essa festa que está chegando. Precisamos manter esse nível. — Eu aceno bem rápido.
— Pode deixar. — Respondo, sentindo uma pontinha de orgulho preencher aquele vazio que tem tomado conta de mim nos últimos dias.
Ele me entrega alguns ajustes de outro projeto e se afasta. Eu respiro fundo, olho para tela do computador e, por um momento, eu me sinto melhor. Mais leve. Como se, aos poucos, eu fosse encontrando uma nova versão de mim. Uma que não precisa de migalhas, que não se contenta com mentiras, que não aceita ser enganada.
"Se concentre no que importa, Alana."
Abro meu e-mail e lá está. Mais uma atualização sobre a festa de lançamento das adaptações literárias. A lista de convidados confirmados está enorme, e a pressão também. É um dos maiores eventos do ano e eu faço questão de dar meu melhor. As cores do evento são perfeitas e as fotos do local são incríveis.
Eu deixo tudo aqui e vou atrás do banquete para ir comendo e vou me distraindo um pouco.
Por mais que, vez ou outra, eu ainda sinta aquele aperto no peitö, aquela vontade absurda de chorar, eu sei que isso vai passar. E, olhando ao redor, o bom clima aqui e a leveza do meu trabalho, eu continuo no meu esforço.
"Vai passar. Essa dor toda vai passar e esse tempo rüim vai ficar no esquecimento geral.”
Agora é focar, trabalhar e fazer história nessa empresa. E, principalmente, me reconstruir.
Por mim.