Eu acordo lentamente, o som baixo da TV ainda ecoando na sala, mas tudo parece suavizado, quase como se o mundo lá fora estivesse distante. Estou confortável, muito mais do que imaginava que estaria. Sinto uma leve pressão ao meu redor, um abraço firme, mas suave, que me mantém segura. Tento me mover, mas o braço de Matteo está sobre mim, e não posso negar que, mesmo sem querer, me sinto... bem.
A luz suave da sala ilumina seu rosto, e eu o vejo dormindo tranquilamente. Seu rosto, normalmente tão sério e focado, agora está em paz. Ele respira devagar, o queixo repousando contra a minha testa, os fios de cabelo caindo levemente sobre sua testa. Eu não sei em que momento ele me abraçou, mas agora que estou assim, não tenho vontade de sair. Não quero me mover. Não quero que nada mude.
Eu fecho os olhos por um momento e deixo que a sensação me envolva. Às vezes, desde que descobri que estava grávida, o medo tem sido meu companheiro constante. O medo do futuro, o medo de não ser capaz, o medo de enfrentar tudo sozinha. Eu me pergunto o que teria acontecido se alguém tivesse aparecido para cuidar de mim e do bebê. Alguém que quisesse estar ao meu lado, alguém que não me deixasse carregar o peso sozinha.
E agora, aqui estou. Com Matteo. Meu chefe. A última pessoa que eu imaginaria disposto a fazer o que ele está fazendo. Cuidando de mim. Sendo gentil. Tão diferente de tudo o que eu esperava dele. Talvez eu tenha me enganado sobre ele, ou talvez ele tenha mudado. Mas a forma como ele cuida de mim, com paciência, com esse toque inesperado de ternura, é algo que eu nunca imaginei que ele fosse capaz de oferecer.
Eu me acomodo um pouco mais contra o peito dele, sentindo o calor do seu corpo. E, de repente, o ar parece mais leve, mais fácil de respirar. Matteo inspira profundamente, como se também estivesse relaxando. Seu queixo se encaixa ainda mais contra a minha testa, e ele sussurra, sonolento, mas com uma voz suave que me faz sorrir:
— Fica, não vai embora.
Eu não consigo evitar, mas um pequeno sorriso se forma nos meus lábios. É como se, naquele momento, ele tivesse percebido o que eu estava sentindo, mesmo sem que eu dissesse uma palavra. Como se ele soubesse que, ali, na quietude daquela sala, eu estava mais calma, mais em paz do que estive nas últimas semanas.
— Você tem um cheiro bom. — sussurro de volta, quase sem querer, como se isso fosse o mais natural do mundo. E, no fundo, sei que é isso que eu preciso agora. Ficar. E que ele fique também. Por um momento, apenas isso parece ser suficiente.
Seu peito se move em uma risada preguiçosa.
— Tomei banho e nem é sabado. — responde brincalhão.
Matteo inspira profundamente e, ainda com a voz baixa e sonolenta, diz:
— Acabei de descobrir que eu gosto de te abraçar, sabia? — Sua voz tem um tom suave, quase como se fosse um segredo entre nós dois.
Eu fico em silêncio por um momento, ponderando sobre as palavras dele. Como ele consegue ser tão direto e, ao mesmo tempo, tão... cuidadoso? Algo em mim se aquece, e antes que eu perceba, respondo, quase sem pensar:
— Ser abraçada por você é... bom. — As palavras saem sem que eu precise tentar, como se fosse a coisa mais natural do mundo, e, para minha surpresa, eu sinto um alívio imenso ao dizê-las.
Ficamos em silêncio por um instante, apenas o som suave da TV preenchendo o espaço entre nós, enquanto a escuridão da noite nos envolve. Eu me sinto segura, mais tranquila do que tenho me sentido em semanas. Matteo está ali, ao meu lado, de um jeito que nunca imaginei que ele estaria. É quase como se o tempo estivesse pausado, como se eu pudesse esquecer os medos, as incertezas e apenas me deixar levar pela sensação de estar no presente, no agora.
De repente, o silêncio é quebrado por um som inconfundível: o ronco da minha barriga. Eu coroo um pouco, e antes que eu consiga dizer qualquer coisa, Matteo ri baixo, uma risada leve, e coloca a mão sobre a minha barriga. Ele olha para mim com um sorriso curioso e, com um tom brincalhão.
Eu sinto que a tensão no ar muda, e antes que eu possa perguntar, ele me abraça com um pouco mais de pressão, como se precisasse de algo mais de mim. Seu peito se movimenta de maneira mais pesada, e ele solta as palavras, quase como um sussurro, como se estivesse compartilhando uma parte de si que nunca havia contado a ninguém.
— Giorgia era o nome da minha avó… E seria o nome da minha filha se eu... Se eu não a tivesse perdido. — Sua voz tem um tom de dor abafada, algo que eu não havia esperado ouvir.
Eu sinto uma pontada no peito ao perceber a fragilidade dele, algo que ele nunca deixou transparecer, mesmo nos momentos mais próximos que tivemos.
Meu coração se aperta ao ouvir essas palavras. Eu não sabia que ele tinha perdido alguém tão importante, tão cedo, e entendo agora o motivo de tanto cuidado e proteção, tanto zelo por mim e pelo bebê. Ele não está apenas cuidando de mim por ser o "chefe", por um impulso de bondade. É algo mais profundo, algo que ele carrega há muito tempo.
Eu coloco a mão sobre o peito dele, quase instintivamente, tentando transmitir o quanto eu sinto por ele. Mas não encontro as palavras certas, só o silêncio confortável que parece nos envolver. Eu respiro fundo, tentando organizar meus pensamentos.
— Matteo... Não precisa falar sobre isso se for muito doloroso. — Eu falo baixinho, sem saber se o que eu estou dizendo é o suficiente, ou se estou invadindo algo muito íntimo dele.
Mas ele não hesita. Ele continua, e a sua voz sai mais baixa, mas firme, enquanto ele me conta algo que eu jamais esperaria ouvir.
— Quando eu era mais jovem, eu me apaixonei por uma garota... E jurava que amava ela incondicionalmente. Era tudo o que eu queria, o que eu sonhava. Eu tinha estabilidade e acreditava que finalmente tinha encontrado o amor. Estava encantado pela ideia do tipo de vida que minha família aprecia. — sua respiração se torna densa — Então, depois de alguns meses, eu descobri que seria pai. E achei que minha vida não poderia ser mais perfeita. Era tudo o que eu queria…
Ele faz uma pausa engolindo em seco, como se aquilo ainda o machucasse.
— Estavamos com o casamento marcado, construindo a nossa casa dos sonhhos, mas no fundo era um sonho só meu. Em uma noite depois de chegar de uma viagem ao Japão, descobri que minha noiva estava me traindo... Eles estavam juntos no nosso apartamento, enquanto ela estava esperando a minhha filha, era um dos meus sócios e para piorar os dois estavam roubando a empresa, minha irmã foi quem descobriu, na verdade. Por isso ela é tão protetora. — ele inspira com dificuldade. — E foi como se o mundo tivesse desabado. Minha vida, minhas esperanças, tudo o que eu acreditava… tudo foi esmagado naquele momento. Ela me implorou para que eu a perdoasse, mas eu não consegui. Eu estava cego de raiva. Antonella saiu, pegou o carro, e sofreu um acidente. Bateu contra um poste no meio de uma das avenidas movimentadas em Roma.
Eu tento abraça-lo como se pudesse arrancar aquilo dele.
— Quando cheguei ao hospital ela estava sendo operada. Ela estava com oito meses de gravidez… E os médicos tentaram salvar o bebê, mas não conseguiram salvar nenhuma das duas. Eles não conseguiram salvar minha garotinha.
Eu sinto o peso das palavras dele caindo sobre mim como uma onda, e por um momento, tudo o que posso fazer é fechar os olhos, tentando absorver a dor que ele carrega dentro de si. O que ele está me contando não é só a perda de uma mulher que ele amava, é a perda de um futuro que ele havia sonhado, a perda de uma família que ele acreditava ter. E agora, olhando para mim, cuidando de mim e do meu bebê, é como se ele estivesse tentando reconstruir algo que perdeu muito tempo atrás.
Eu olho para ele, e pela primeira vez, vejo a fragilidade dele, aquela que ele sempre escondeu por trás da fachada de segurança e controle. Ele não é apenas o homem forte e decidido que sempre conheci. Ele também é alguém que já teve seu coração partido de formas que eu nunca poderia imaginar.
Eu passo a mão suavemente pela sua costas, tocando-o com um cuidado que não sabia que tinha, e sussurro:
— Eu sinto muito, Matteo. Eu... não sabia disso. E eu nunca imaginei que você tivesse passado por algo assim.
Ele suspira profundamente, como se um peso imenso estivesse sendo tirado de seus ombros, e sem dizer mais nada, me puxa para mais perto. Eu fico ali, nos braços dele, sentindo que, por mais que eu queira aliviar a dor dele, sei que há coisas que precisam ser curadas com o tempo.
Matteo permanece em silêncio por alguns momentos, os braços ao redor de mim apertando um pouco mais, como se estivesse tentando se segurar, tentar encontrar forças em algo que já havia sido perdido. A respiração dele ainda está pesada, e eu sinto a intensidade do que ele acabou de revelar, a dor que nunca parece ter sido totalmente curada.
Com uma voz baixa, mas firme, ele me diz:
— Stella... Eu sei que não posso mudar o passado, nem apagar o que aconteceu. Mas eu preciso que você me permita cuidar de você, agora. Eu... Eu preciso pedir desculpas, de alguma forma, pelo que aconteceu. Por não ter sido a pessoa que deveria ser, por não ter sido capaz de proteger o que eu mais amava... Mas, por favor, não me afaste. Eu não sei como lutar contra isso, contra essa vontade de cuidar de você.
Eu fico quieta, tentando processar as palavras dele, o peso delas. Não é fácil, não é simples. Eu entendo a dor de Matteo agora, e por mais que eu queira que ele não carregue essa culpa, sei que ela faz parte dele de alguma forma. Ele não consegue se libertar disso, e, de certa forma, não sei se seria justo pedir que ele o fizesse.
Eu o olho, tentando decifrar o que ele realmente precisa ouvir de mim, o que ele espera de mim, e então, com a voz suave, respondo:
— Matteo, você nunca teve culpa... Eu sei que você sofreu, mas... você não pode carregar isso para sempre. Você não pode se punir.
Ele balança a cabeça lentamente, como se minhas palavras não fossem suficientes para aliviar a carga que ele ainda carrega.
— Não sei como deixar isso para trás, Stella. Não sei como deixar de me culpar. Só sei que agora, aqui, com você, eu não consigo... Eu não posso.
Eu me aninho um pouco mais contra ele, tentando dar algum conforto, algo que ele precise ouvir para aliviar sua alma, mas ele não me deixa continuar. Ele segura meu rosto entre suas mãos, seus olhos buscando os meus de forma quase desesperada, e diz:
— Eu não posso lutar contra isso, Stella. Eu não consigo. Por favor, não me afaste. Deixe-me ficar ao seu lado.
Eu engulo em seco, sentindo meu próprio coração apertar, e, com um suspiro, digo:
— Eu não vou te afastar, Matteo. Você pode ficar.
E então, sem mais palavras, ele me puxa para um abraço mais apertado, como se, por um breve momento, o mundo lá fora não existisse. Como se, por um instante, fosse apenas nós dois, os dois lidando com suas próprias cicatrizes e, ainda assim, tentando seguir em frente, juntos.