Eu estava sentado no sofá, a mão direita repousando sobre o celular enquanto a outra descansava no meu joelho. Olhava pela janela para a cidade lá fora, observando as luzes começando a se acender enquanto a noite se aproximava. O silêncio no apartamento era um alívio, mas também um pouco pesado. Stella estava no quarto de hóspedes, descansando. Eu sabia que ela estava precisando de tempo para se recuperar, mas o espaço ainda me fazia sentir como se estivesse faltando alguma coisa.
Quando o telefone tocou, reconheci imediatamente o número da minha avó. Não pude evitar o sorriso que apareceu instantaneamente.
— Ciao, Nonna. — Falei no tom mais descontraído que consegui, deixando a tensão do dia um pouco de lado.
— Ciao, bambino. Esqueceu que tem avó? Como você está, querido? — a voz dela veio, sempre calorosa e cheia de amor. — E como vão as coisas na empresa? Está tudo bem? Eu já ouvi alguns rumores por aí, mas você sabe como é, não é?
Suspirei, afastando um pouco os pensamentos sobre os negócios.
— Ah, você sabe como é, Nonna. Sempre tem algo acontecendo. Mas... está indo. Não tenho do que reclamar. — Olhei pela janela novamente, deixando a conversa fluir. — E você, como está?
— Ah, eu estou maravilhosa! — A voz dela tinha aquele tom de quem está realmente em paz. — O clima aqui na Itália está perfeito, Matteo. Verão como você gosta. O sol está brilhando o dia todo, e eu estou aqui no vinhedo, aproveitando o tempo para descansar e pensar em tudo. Sabe como eu amo estar aqui.
Eu senti uma saudade tão grande naquele momento. A Itália, as vinhas, o calor do verão... Mas o que mais me fazia falta era minha avó. Ela e meu pai sempre foram a base da minha vida, e a ideia de não poder vê-la mais frequentemente me apertava o peito.
— Eu queria estar aí com você. — Respondi, o tom um pouco melancólico. — Já faz tanto tempo...
— Eu sei, querido, sei... E você tem que vir, a hora que puder. O vinhedo está esperando por você, e eu também. Não sou mais uma jovem como antes, mas ainda posso oferecer boas taças de vinho e boas histórias. — Ela riu, e sua risada me fez sentir uma sensação de alívio.
Olhei para o relógio, lembrando que Stella estava descansando, então decidi mudar de assunto.
— Está ficando mais difícil ficar tão longe de vocês, Nonna. A saudade bate forte.
— Ah, meu querido... eu sei o quanto você sente falta de casa, da terra onde cresceu. Você sempre foi tão conectado com tudo isso. E ainda bem que você tem isso em mente.
Eu ri, sabendo que ela estava certa. Eu nunca poderia me desligar completamente da Itália, do vinhedo, da família.
Ela mudou de assunto rapidamente, com aquele tom brincalhão que eu adorava.
— Mas então, Matteo... você tomou jeito ou ainda está com a cabeça perdida no trabalho? — Ela pausou antes de continuar, e pude imaginar o sorriso maroto no rosto dela. — Não quero morrer sem ver um bisneto do meu neto mais velho, você sabe, né?
Eu revirei os olhos e me recostei no sofá, tentando não rir. A avó nunca perdia uma chance de me provocar sobre isso.
— Nonna, você não vai morrer tão cedo, não faça drama... — falei com um sorriso no rosto. — Eu ainda não encontrei ninguém que... bem, seja capaz de me tirar da minha rotina.
Ou talvez tenha trombado com ela no elevador.
Ela riu, sabendo que aquilo era uma desculpa.
— Matteo, você já tem idade suficiente para pensar em outras coisas além do trabalho. Eu não vou ficar aqui, só esperando que você me mande mais vinhos e fotos dos seus projetos. Quero ver algo mais... alguém que te faça feliz. E quem sabe, de repente, um bambino correndo por aí.
Eu respirei fundo e me sentei mais direito, com a mente voltando para o lugar em que a conversa estava me levando.
— Eu sei, Nonna. Vou pensar sobre isso. — Tentei mudar o tom, não querendo que ela ficasse mais insistente. — Mas por enquanto, vou me concentrar em outras coisas.
Ela pareceu satisfeita com a resposta, mas não perdeu a oportunidade de deixar uma última provocação.
— Ah, Matteo, você sempre tem uma desculpa pronta. — Ela deu uma risada alegre, e eu não pude deixar de sorrir também. — Só não me deixe esperando muito, hein?
— Não se preocupe, Nonna. Não vou esquecer.
A conversa seguiu com mais histórias e risadas, mas ao final, quando desliguei, senti o peso da saudade novamente. Eu adorava ouvir sua voz, mas me sentia cada vez mais longe da minha terra, da minha família... e até de mim mesmo. O que eu queria, no fundo, estava se tornando mais confuso do que eu imaginava.
Desliguei o telefone, e o silêncio que tomou o apartamento me fez sentir o peso da saudade da minha avó. Suspirei fundo e me virei para ir até a cozinha. Quando dei o primeiro passo, algo me fez parar. Eu a vi, parada atrás da bancada da cozinha, olhando para mim com uma expressão curiosa, como se tivesse me observado enquanto eu estava no telefone. Ela não me fez perceber sua chegada, o que me fez ficar um pouco desconcertado.
— Stella? — Perguntei, ainda com a voz um pouco abafada, não esperando encontrá-la ali. — Você... precisa de alguma coisa? Não precisava ter se esforçado para sair, eu...
Ela levantou a mão de forma tranquila, me interrompendo com um sorriso.
— Estou bem. Só andei um pouco, devagar, como a médica me orientou. — Ela falou com a voz leve, mas com um toque de ironia.
Eu a observei por um momento, notando a forma como ela estava alisando a barriga, e, sem querer, meu coração disparou. Aquela visão me fez sentir um peso que eu não sabia de onde vinha. O que estava acontecendo comigo?
— Está com fome? — Perguntei, tentando esconder a surpresa. Eu ainda me sentia um pouco fora de lugar, mas estava me acostumando a ter ela por perto, mais do que eu esperava.
Ela olhou para mim, e seus olhos se suavizaram.
— Acho que nós dois estamos com fome. — Ela disse calmamente, como se estivesse falando mais para ela mesma do que para mim, passando a mão pela barriga de novo, em um gesto simples, mas que me fez perceber a responsabilidade silenciosa ali.
Meu coração acelerou de novo, e tentei não deixar que isso transparecesse em minha voz.
— Então eu vou cozinhar para você. — Falei, com a confiança típica dos italianos.
Ela franziu a testa, um sorriso irônico no rosto, e cruzou os braços.
— Oh, eu devia me preparar para ir ao hospital novamente, então? — Ela brincou, a dúvida e o tom divertido na sua voz me pegaram de surpresa.
Levantei uma sobrancelha, já me sentindo mais confortável com a provocação dela. Dei um passo em direção à bancada, com um sorriso travesso.
— Nunca se deve questionar os dotes culinários de um italiano. — Respondi, tentando manter o tom sério, mas não conseguindo evitar o sorriso. — Vou preparar algo digno de um banquete, prometo.
Ela soltou uma risada baixa e olhou para mim com um brilho nos olhos.
— Ah, um banquete, hein? Vou esperar então... — Ela deu de ombros, mas o sorriso dela não saiu do rosto. — Melhor garantir que não seja só macarrão com molho de lata.
Eu bufei, fingindo indignação.
— Macarrão com molho de lata? Isso é heresia, Stella! Vou te mostrar o que significa comida de verdade. Vou fazer um prato especial.
Ela se encostou na bancada e deu um passo atrás, aparentemente satisfeita com minha reação.
— Acho que vou precisar de uma segunda opinião, mas... por enquanto, vou confiar em você, Matteo. Vamos ver se realmente consegue me surpreender.
Eu dei uma última olhada para ela antes de virar em direção à cozinha, decidindo que não ia fazer apenas algo simples. Não. Hoje, ela ia ver do que sou capaz, e com um pouco de sorte, ela esqueceria qualquer hospital por um tempo.
Ela cruzou os braços novamente, com um sorriso de canto no rosto.
— Lembre-se, Matteo, você está cozinhando dois jurados. — Ela piscou, deixando claro que não estava ali para me dar a menor folga.
Eu não pude evitar rir, me divertindo com o jeito que ela estava fazendo aquilo.
— Dois jurados, hein? — Repeti, tentando parecer sério, mas sem conseguir esconder o sorriso. — Está certo. Mas posso garantir uma coisa: você vai comer a melhor massa fresca da sua vida. E pode esperar pela aprovação dos dois jurados, claro.
Ela riu baixinho, o olhar divertido nunca saindo do rosto.
— Vamos ver. Não quero ser indulgente, só porque você está fazendo todo esse drama. — Ela deu uma risada suave. — Prepare-se, então.
Eu a encarei com um sorriso confiante, pronto para começar o que seria a minha missão: surpreender Stella e fazer valer minha palavra.
— Só espere para ver, Stella. Eu sou um italiano, afinal... E quem é italiano sabe o que é boa comida.
Ela revirou os olhos, mas o sorriso dela não saiu do rosto.
Um sorriso lindo.
Deus, estou ferrado.