Capítulo 33: Matteo Bianchi

1315 Words
A madrugada parecia mais longa do que todas as anteriores. Virei na cama pela centésima vez, com os olhos fixos no teto escuro, contando as batidas do meu coração como se isso pudesse me trazer paz. Não trouxe. O apartamento estava silencioso. Só o som do relógio da sala, marcando cada segundo que me separava da resposta dela. Stella estava no quarto de hóspedes. E eu… eu estava aqui, na minha cama, com um nó no estômago e o peito apertado. Pedi a mulher que eu mais respeito que fingisse ser minha noiva. E mais: pedi que fingisse uma família comigo. Não era pouca coisa. Passei a mão pelo rosto, exausto. Meu corpo pedia descanso, mas minha mente só conseguia reproduzir a expressão dela quando ouviu a proposta. Surpresa, medo, descrença. Talvez até um pouco de raiva. E eu entendia. Juro que entendia. Me levantei. A escuridão me envolveu por completo enquanto eu andava até a sala. Sentei no sofá onde ela esteve mais cedo. O cobertor que eu tinha colocado sobre ela ainda estava ali. O toque dela ainda morava naquele tecido. Fechei os olhos. Lembrei da minha avó, sentada na poltrona da varanda, com sua bengala encostada ao lado e o olhar afiado como navalha. — Você tem que se casar, Matteo — ela disse, firme, como se estivesse falando de um contrato de negócios. — Nossa família precisa de raízes, de continuidade. Do contrário, vou vender minha parte da empresa para alguém que valorize isso. — Vó, isso não tem nada a ver com competência. — Tem tudo a ver com confiança. O legado precisa de mais do que lucro. Precisa de nome. De união. — De aparência? — De responsabilidade. — Ela me olhou como se soubesse exatamente no que eu estava pensando. — Um homem que constrói sozinho é forte. Mas um homem que constrói com alguém... esse é invencível. Eu não dei resposta naquele dia. Nem depois. Mas as palavras dela ficaram. E quando vi Stella sendo ameaçada por Henrique, com os olhos cheios de pânico, compreendi tudo. Não era só sobre o nome da minha família. Era sobre proteger quem precisava. Era sobre não repetir os erros do meu pai. Sobre não deixar ninguém sozinho. Stella. A primeira vez que a vi foi na festa da empresa. Ela chegou com um vestido discreto, mas a postura erguida. Olhos atentos, como quem não queria estar ali, mas não tinha outra escolha. Ela se esquivava dos olhares, das perguntas, das bajulações. E aquilo me chamou atenção. Era como se dissesse “não estou à venda”, mesmo sem pronunciar uma palavra. Fui atrás. Primeiro por curiosidade, depois por algo que eu não sabia nomear. O jeito como ela falava com o filho. A forma como carregava o peso do mundo sozinha. A coragem de dizer o que pensava. A beleza que não vinha só do rosto bonito, mas da força que exalava mesmo nos momentos de fraqueza. Foi assim que tudo começou. E agora… agora ela estava dormindo a alguns metros de mim, com uma decisão entre as mãos. Uma que mudaria tudo — para ela, para mim, para uma criança que ainda nem conheço de verdade. Me levantei do sofá e fui até a cozinha. O céu começava a clarear lá fora, tingindo as janelas com tons suaves de azul e cinza. O silêncio persistia, como se o mundo segurasse a respiração junto comigo. Coloquei água para ferver, preparei o café do jeito que ela gostava — forte, mas com açúcar. Peguei as frutas, o pão, organizei a mesa. Eu precisava ocupar as mãos, porque o coração já não me obedecia. Será que ela pensaria que eu estava tentando comprá-la com estabilidade? Que isso era só um capricho meu, uma jogada de marketing familiar? Ou... será que, mesmo por um segundo, ela tinha considerado que talvez eu estivesse fazendo isso porque me importava? Porque sim — eu me importava. Mais do que queria. Mais do que deveria. A xícara tremia levemente na minha mão. Apoiei-a no pires com cuidado e respirei fundo. Estava prestes a sair da cozinha e bater na porta do quarto quando ouvi os passos. Devagar. Cuidadosos. Como se ela estivesse ensaiando cada pisada. Meu corpo inteiro ficou alerta. Girei nos calcanhares, e a vi parada na porta. Os cabelos soltos, o olhar ainda turvo de sono, a mão apoiada na barriga — instintivamente. Ela entrou devagar, como se não soubesse se podia ou não. E talvez não soubesse mesmo. Não depois da bomba que eu soltei na noite anterior. — Bom dia — disse ela, com a voz baixa, arranhada de sono. Sorri, mesmo que por dentro tudo estivesse revirado. — Bom dia. Dormiu bem? Ela assentiu com um gesto leve e caminhou até a mesa posta. Os olhos percorreram o cuidado com que arrumei tudo, e eu notei um brilho sutil no fundo do olhar dela. Quase imperceptível, mas estava lá. Gratidão, talvez. Ou simplesmente surpresa. — Você fez tudo isso? — Acredite ou não, sei usar uma cafeteira e cortar frutas — tentei brincar, tentando aliviar o clima. Ela riu, uma risada curta, mas real. Sentou-se à mesa e começou a preparar seu pão com uma calma ensaiada demais. Estava claro: Stella estava tentando parecer no controle. Mas eu conhecia bem aquele tipo de silêncio. Era o tipo que fala mais do que qualquer grito. Sentei à sua frente e servi o café. Por alguns segundos, só o som das xícaras, dos talheres e do relógio preenchiam o ambiente. Mas, por dentro, eu gritava. Fala comigo. Diz sim. Diz não. Diz qualquer coisa. Mas não disse. Ela comentou sobre o clima, sobre uma matéria que viu rapidamente na TV do quarto, sobre uma loja de artigos infantis que tinha visto no bairro. E eu retribuía as palavras, fingindo que estava ali apenas por causa do café e da companhia. Mas a verdade era uma só: eu estava esperando. Cada palavra dela que não era “sim” ou “não” parecia me arrastar para dentro de um labirinto de dúvidas. Será que eu fui longe demais? Será que ela se sentiu pressionada? Será que estava apenas tentando sair dali com dignidade? De vez em quando, ela desviava os olhos para mim e voltava rápido para a xícara, como se algo dentro dela pesasse. Como se estivesse presa entre o medo e a necessidade. E aquilo me dilacerava mais do que qualquer resposta direta. Terminei meu café e me levantei devagar. Eu ainda tinha que ir trabalhar — a empresa me esperava, mesmo que meu coração estivesse ancorado ali. Peguei minha jaqueta no encosto da cadeira e, antes de sair, olhei para ela uma última vez. — Quando você marcar a consulta... — disse, tentando manter o tom leve — ...me avisa, por favor. Quero ir com você. Ela ergueu os olhos devagar, surpresa. — Matteo... — Eu sei — interrompi, com um meio sorriso. — Não precisa responder nada agora. Só... me liga quando souber o horário. Ela assentiu, silenciosa. As mãos ainda envolvidas na xícara quente, como se fossem seu escudo contra o mundo. Dei um passo em direção à porta, e então parei, voltando o rosto para ela. — E Stella... — acrescentei, com mais suavidade do que imaginei ser capaz — …obrigado por ficar essa noite. Mesmo sem certezas. Ela mordeu o lábio inferior e apenas balançou a cabeça em concordância. Eu queria dizer mais. Queria tocá-la. Mas qualquer gesto seria invasivo agora. Então saí. Fechei a porta devagar, como quem tenta não acordar um sonho. Porque era isso que ela se tornara. Um sonho bonito, frágil... e que talvez eu não tivesse o direito de manter. No elevador, encostei a cabeça na parede fria de metal e fechei os olhos. Ou ela está indo embora aos poucos... ou está se preparando para ficar. Só o tempo diria.
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