Episódio sem título

1232 Words
O dia tinha sido longo. Reuniões atrás de reuniões, números que não fechavam, e aquela dor de cabeça insistente que não dava trégua. Eu deveria ir direto para casa. Stella tinha passado m*l novamente de manhã, e eu prometi que voltaria cedo. Mas, no caminho, algo me fez desviar. Foi quase sem querer. Um letreiro azul-claro de uma loja de bebê, discreto na esquina do prédio comercial. Eu já tinha passado por ali incontáveis vezes e nunca sequer notado. Hoje, porém, parei o carro sem pensar. Só uma olhada, eu menti para mim mesmo. A campainha tocou suavemente quando entrei, e o cheiro doce de tecido novo e talco me envolveu. A loja era pequena, organizada, com roupinhas minúsculas penduradas em cabides delicados. Me senti um intruso. Um homem de terno, sozinho, em um lugar que claramente não era meu. — Posso ajudar? Carmen, minha secretária, apareceu ao meu lado antes que eu pudesse responder minha própria pergunta. Ela tinha me visto estacionar e, com a curiosidade típica dela, decidiu me seguir. — Miguel, o que você está fazendo aqui? — Ela sorriu, os olhos brilhando de mistura de surpresa e diversão. Eu abri a boca para inventar uma desculpa, mas nada veio. — Eu… não sei. Ela riu, um som quente e maternal. — Vamos lá, então. Vou te ajudar. Carmen tinha três filhos e netos. Sabia o que estava fazendo. Em minutos, ela já estava me guiando pelos corredores, apontando bodies, macacões, um par de sapatinhos que pareciam pequenos demais para serem reais. — Para menino ou menina? — ela perguntou, segurando um conjunto listrado. — Ainda não sabemos. — Ah, então vamos de cores neutras. Ela pegou um macacão branco com detalhes em azul-claro, tão pequeno que caberia na palma da minha mão. — Esse é prático. Fácil de colocar, fácil de lavar. Eu o segurei, sentindo o tecido macio entre meus dedos. Algo dentro do meu peito apertou. — E esse aqui — Carmen continuou, pegando uma touca minúscula com orelhinhas de urso — é para quando sair do hospital. Bebês perdem calor fácil. Eu não disse nada. Só acenei, e ela entendeu. Em dez minutos, estávamos na caixa com um saquinho discreto: dois macacões, a touca, e uma manta que Carmen insistiu que eu precisava. — Presente para alguém? — a atendente perguntou enquanto passava minha compra. — Não — eu respondi, rápido demais. — É… para mim. Ela sorriu, como se soubesse algo que eu mesmo ainda não tinha aceitado. Cheguei em casa mais tarde do que planejava. O apartamento estava silencioso, apenas a luz fraca da sala acesa. Stella provavelmente estava dormindo. Pisei com cuidado, tentando não fazer barulho, e levei o saquinho direto para o meu quarto. Não tinha um plano. Não sabia por que tinha comprado aquilo. Só sabia que, por algum motivo, precisava. Abri o guarda-roupa e escondi as roupinhas no fundo de uma gaveta, embaixo de algumas camisas. — Miguel? A voz dela me fez saltar. Stella estava na porta, encostada na moldura, os olhos pesados de sono, mas curiosos. — Você chegou tarde. — Teve um imprevisto — eu menti, fechando a gaveta rápido demais. Ela olhou para minhas mãos, para o guarda-roupa, e então para o meu rosto. Eu sabia que ela tinha percebido. Stella sempre percebia. — O que você está escondendo? — Nada. Ela cruzou os braços, uma sobrancelha levemente arqueada. — Sério? Eu respirei fundo. Não adiantava. Abri a gaveta novamente e puxei o saquinho, entregando-o a ela sem uma palavra. Stella pegou com cuidado, como se estivesse segurando algo frágil, e abriu. Quando ela viu as roupinhas, seu rosto mudou. Algo entre surpresa e uma emoção que eu não conseguia nomear. — Você… comprou isso? — Foi sem querer. Ela riu, um som baixo e doce. — Sem querer? — Eu estava passando na frente da loja e… — E? — E eu entrei. Stella tirou o macacão do saquinho, desdobrando-o com cuidado. — É pequenininho — ela murmurou, os dedos dela passando pelo tecido. — Carmen ajudou a escolher. — Ah, então foi conspiração. Eu não respondi. Só observei enquanto ela segurava a roupinha contra o peito, como se estivesse imaginando algo. — Você não precisava fazer isso — ela disse, mas não parecia brava. Parecia… tocada. — Eu sei. — Então por que fez? Eu encarei ela, a resposta queimando na minha garganta. — Porque eu quis. Stella me olhou por um longo momento, e então, sem aviso, ela se aproximou e colocou a mão no meu rosto. — Obrigada. Era tudo o que ela disse. Mas era o suficiente. Eu não mexi, não respirei, com medo de quebrar aquele momento. Stella deixou a mão ali por um segundo a mais, e então recuou, segurando as roupinhas contra o peito. — Vou guardar com minhas coisas. Eu acenei, e ela sorriu antes de sair do quarto, deixando a porta entreaberta. Fiquei ali parado, ouvindo seus passos se afastarem, e então olhei para a gaveta vazia. Algo dentro de mim tinha mudado. E eu não tinha a menor ideia do que fazer com isso. Fiquei parado no quarto por um instante, ouvindo os passos de Stella se afastarem pelo corredor. O saquinho de roupas minúsculas tinha sumido com ela, mas o peso do que aconteceu ainda estava ali, preso no meu peito. Respirei fundo e decidi segui-la. Ela estava no quarto dela, sentada na beirada da cama, dobrando o macacãozinho com um cuidado que me fez engolir em seco. Quando me viu na porta, não pareceu surpresa. — Como foi o seu dia? — perguntei, encostando na moldura. Ela ergueu os olhos, e pela primeira vez em horas, notei que o cansaço deles tinha diminuído. — Melhor. Os enjoos passaram depois do almoço. Até consegui comer um pouco mais. — Que bom. O alívio foi instantâneo. Eu nem tinha percebido o quanto aquilo me preocupava até agora. — Quer que eu faça algo pra você? — ofereci, cruzando os braços. — Posso cozinhar. Stella olhou para mim, os lábios curvando levemente. — Tá com medo de que eu passe m*l de novo? — Sim. A resposta saiu sem filtro, e ela riu, um som baixo e quente. — Então pode fazer, se não for te atrapalhar. Acenei com a cabeça e me aproximei, sem pensar muito. Ela ainda segurava o macacão, e eu estiquei a mão, escovando o tecido com os dedos. — É macio — murmurei. — Muito. Nosso olhares se encontraram, e algo dentro de mim apertou. Sem planejar, minha mão desceu, encontrando a curva suave da barriga dela por cima do tecido do vestido. Foi instintivo. Natural. Como se eu já tivesse feito aquilo mil vezes. Stella não se afastou. Ficamos ali, em silêncio, minha mão espalmada sobre ela, sentindo o calor da pele mesmo através do pano. Eu não sabia o que procurava — um movimento, um chute, qualquer coisa. Só sabia que precisava tocar. E então ela sorriu. Não um sorriso grande ou debochado. Um daqueles que apareciam sem permissão, pequeno e verdadeiro, só nos cantos da boca. — Tá tudo bem? — perguntei, minha voz mais baixa do que eu esperava. Ela cobriu minha mão com a dela, os dedos entrelaçando nos meus por um segundo. — Tá. Era só uma palavra, mas carregava tudo o que a gente não estava dizendo. Eu não tirei a mão.
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