— Senhor Moreau, o Helix Project… vazou.
Pouso a caneta, encaro o assistente.
— Como assim, vazou?
— Alguém acessou documentos confidenciais. Planos da fusão, relatórios de segurança, detalhes de contratos. E o vazamento partiu de uma conta ligada ao jurídico da Helix.
A palavra jurídico é suficiente para trazer uma imagem imediata à mente: ela.
Selena Duarte.
Por um instante, o controle vacila.
Depois, retomo o tom frio.
— Chame o conselho. E peça que a advogada compareça.
— Ela já está vindo — responde Antony. — Alegou que também foi pega de surpresa.
Claro que alegou.
Toda mentira soa mais convincente quando dita com voz calma — e Selena tem uma calma que poderia enganar o próprio d***o.
Trinta minutos depois, a porta se abre.
Ela entra, pontual como sempre, mas o olhar é diferente: menos altivo, mais alerta.
Mesmo em meio à tensão, ela continua impecável — terninho escuro, cabelo preso, perfume discreto.
É uma mulher que domina o caos.
Ou finge muito bem.
— Senhor Moreau — cumprimenta, com um aceno contido.
— Doutora Duarte. — Indico a cadeira diante da mesa. — Parece que temos um problema em comum.
Ela senta.
Por um momento, o silêncio se instala.
Sinto o peso do olhar dela tentando medir o quanto eu sei — e o quanto posso destruir.
— Recebi a notícia há pouco — diz, firme. — Estou investigando.
— É curioso — respondo. — O vazamento partiu do seu departamento.
— Isso não significa que eu tenha relação com ele.
— Não, mas significa que agora somos ambos reféns da mesma sujeira.
Ela ergue o olhar, e o brilho de fúria é quase belo.
— Está insinuando que devo respostas?
— Estou afirmando que vamos encontrar quem deve.
Ficamos frente a frente. O ar entre nós é uma corda esticada, prestes a se partir.
Ela respira fundo.
— Trabalhamos juntos, então.
— Não — corrijo. — Estamos presos juntos. É diferente.
O conselho decide montar uma força-tarefa para conter o escândalo. Eu e ela, liderando.
Perfeita ironia.
As horas seguintes se arrastam.
Documentos, reuniões, telefonemas.
Ela está sempre ali, do outro lado da mesa. Às vezes tão próxima que posso sentir o perfume; às vezes distante o suficiente para me irritar.
Quando a noite cai, restamos apenas nós dois no escritório.
A cidade acende as luzes lá fora, indiferente ao inferno aqui dentro.
Selena se levanta, caminha até a janela.
— A imprensa vai se alimentar disso — diz, olhando os prédios. — Vão querer um culpado.
— Que encontrem outro.
Ela se vira, e o reflexo da cidade desenha no rosto dela uma mistura de medo e desafio.
— E se não houver outro, Dante?
— Então eu invento um.
A sinceridade crua da frase a desarma.
Por alguns segundos, nenhum de nós fala.
Depois, ela se aproxima, devagar.
— Sabe, Moreau… às vezes me pergunto se você nasceu para o inferno ou se o inferno nasceu pra você.
— A diferença importa?
— Importa para quem ainda acredita em salvação.
A resposta me atinge mais do que deveria.
Quero rir, mas não consigo.
A mulher à minha frente está a um passo de mim — e, de repente, o escândalo deixa de importar.
Há algo mais urgente, mais perigoso, queimando no ar.
Mas não cedo.
Não ainda.
Porque sei que, se eu tocar nela, o que começou como uma guerra vai virar rendição.
Quando ela sai, o escritório parece menor.
O perfume permanece, e o vazio também.
Pego o celular.
Um novo e-mail chega, anônimo:
“Nem tudo o que queima vem do inferno. Às vezes vem do que tentamos esconder.”
Apago sem responder, mas a frase fica.
E a sensação também: algo está prestes a ruir.
Selena
Quando as notícias chegaram, meu coração gelou.
Um vazamento. Dados da fusão.
E a origem apontava para o meu setor.
Exatamente como alguém planejou.
Corro até a sede da Moreau Holdings antes mesmo de ser chamada.
Preciso estar lá, mostrar que não tenho medo.
Mas, no fundo, tenho — não de Dante, e sim do que o destino está me forçando a admitir.
Entro na sala dele e sinto o olhar pesar sobre mim.
Os olhos cinzentos não acusam, apenas estudam.
Ele parece calmo, mas a calma dele é mais perigosa que qualquer grito.
— Parece que temos um problema em comum — diz.
A escolha das palavras é precisa: em comum.
Como se o universo fizesse questão de nos prender no mesmo nó.
Durante as reuniões, mantenho o controle.
Por fora, frieza. Por dentro, labirinto.
A lembrança do jantar, do quase-toque no terraço, ainda pulsa.
Agora estamos lado a lado, respirando o mesmo ar.
As horas passam. A tensão muda de forma.
Não é apenas raiva ou suspeita — é um tipo de energia que não sei nomear.
E percebo que ele também sente.
Quando a noite cai, restamos os dois.
Eu na janela, ele atrás da mesa.
Lá fora, a cidade vive; aqui dentro, o tempo parece suspenso.
— A imprensa vai se alimentar disso — digo.
— Que encontrem outro — ele responde, frio, sem hesitar.
— E se não houver outro?
— Então eu invento um.
A sinceridade dele me atinge como um tapa.
Não sei se o odeio ou o admiro por ser tão brutalmente honesto.
Dou um passo na direção dele.
Por que faço isso?
Talvez porque quero entender de onde vem o fogo.
Talvez porque já esteja dentro dele.
Quando pergunto se ele nasceu para o inferno ou o inferno nasceu pra ele, o silêncio que se segue diz tudo.
A resposta dele é uma confissão disfarçada: a diferença importa?
E por um segundo, o vejo sem a armadura.
Um homem que ainda sangra.
O ar entre nós muda.
Sinto a eletricidade, o perigo, a vontade.
Mas se ele é o inferno, eu sou o fósforo.
E ainda não é hora de acender.
Saio antes que ele perceba que minhas mãos tremem.
No carro, o celular vibra.
Uma mensagem anônima:
“O vazamento foi o início. O que virá depois fará vocês se destruírem.”
Leio três vezes.
O frio na espinha é instantâneo.
Quem enviou aquilo sabe mais do que deveria.
E talvez essa pessoa queira exatamente o que temo: nos ver cair — juntos.
Chego em casa exausta.
Tiro os sapatos, olho para a janela aberta.
Lá fora, a noite é a mesma.
Mas dentro de mim, algo mudou.
Pego o celular outra vez, quase por reflexo.
Nenhuma mensagem dele.
Nem uma pergunta.
Nem uma acusação.
E é justamente isso que me perturba.
Porque o silêncio de Dante Moreau nunca é vazio.
Ele sempre significa alguma coisa.
Deito, e o sono não vem.
Na cabeça, a voz dele ecoa:
“Estamos presos juntos. É diferente.”
Ele tem razão.
Estamos.
E talvez o inferno que criamos já não tenha saída.
Entre segredos e ameaças, a linha que separa culpa e desejo começa a desaparecer.
O escândalo os une, o perigo os amarra, e o pecado é o único idioma que ainda conseguem falar.