Sob o Mesmo Pecado

1179 Words
— Senhor Moreau, o Helix Project… vazou. Pouso a caneta, encaro o assistente. — Como assim, vazou? — Alguém acessou documentos confidenciais. Planos da fusão, relatórios de segurança, detalhes de contratos. E o vazamento partiu de uma conta ligada ao jurídico da Helix. A palavra jurídico é suficiente para trazer uma imagem imediata à mente: ela. Selena Duarte. Por um instante, o controle vacila. Depois, retomo o tom frio. — Chame o conselho. E peça que a advogada compareça. — Ela já está vindo — responde Antony. — Alegou que também foi pega de surpresa. Claro que alegou. Toda mentira soa mais convincente quando dita com voz calma — e Selena tem uma calma que poderia enganar o próprio d***o. Trinta minutos depois, a porta se abre. Ela entra, pontual como sempre, mas o olhar é diferente: menos altivo, mais alerta. Mesmo em meio à tensão, ela continua impecável — terninho escuro, cabelo preso, perfume discreto. É uma mulher que domina o caos. Ou finge muito bem. — Senhor Moreau — cumprimenta, com um aceno contido. — Doutora Duarte. — Indico a cadeira diante da mesa. — Parece que temos um problema em comum. Ela senta. Por um momento, o silêncio se instala. Sinto o peso do olhar dela tentando medir o quanto eu sei — e o quanto posso destruir. — Recebi a notícia há pouco — diz, firme. — Estou investigando. — É curioso — respondo. — O vazamento partiu do seu departamento. — Isso não significa que eu tenha relação com ele. — Não, mas significa que agora somos ambos reféns da mesma sujeira. Ela ergue o olhar, e o brilho de fúria é quase belo. — Está insinuando que devo respostas? — Estou afirmando que vamos encontrar quem deve. Ficamos frente a frente. O ar entre nós é uma corda esticada, prestes a se partir. Ela respira fundo. — Trabalhamos juntos, então. — Não — corrijo. — Estamos presos juntos. É diferente. O conselho decide montar uma força-tarefa para conter o escândalo. Eu e ela, liderando. Perfeita ironia. As horas seguintes se arrastam. Documentos, reuniões, telefonemas. Ela está sempre ali, do outro lado da mesa. Às vezes tão próxima que posso sentir o perfume; às vezes distante o suficiente para me irritar. Quando a noite cai, restamos apenas nós dois no escritório. A cidade acende as luzes lá fora, indiferente ao inferno aqui dentro. Selena se levanta, caminha até a janela. — A imprensa vai se alimentar disso — diz, olhando os prédios. — Vão querer um culpado. — Que encontrem outro. Ela se vira, e o reflexo da cidade desenha no rosto dela uma mistura de medo e desafio. — E se não houver outro, Dante? — Então eu invento um. A sinceridade crua da frase a desarma. Por alguns segundos, nenhum de nós fala. Depois, ela se aproxima, devagar. — Sabe, Moreau… às vezes me pergunto se você nasceu para o inferno ou se o inferno nasceu pra você. — A diferença importa? — Importa para quem ainda acredita em salvação. A resposta me atinge mais do que deveria. Quero rir, mas não consigo. A mulher à minha frente está a um passo de mim — e, de repente, o escândalo deixa de importar. Há algo mais urgente, mais perigoso, queimando no ar. Mas não cedo. Não ainda. Porque sei que, se eu tocar nela, o que começou como uma guerra vai virar rendição. Quando ela sai, o escritório parece menor. O perfume permanece, e o vazio também. Pego o celular. Um novo e-mail chega, anônimo: “Nem tudo o que queima vem do inferno. Às vezes vem do que tentamos esconder.” Apago sem responder, mas a frase fica. E a sensação também: algo está prestes a ruir. Selena Quando as notícias chegaram, meu coração gelou. Um vazamento. Dados da fusão. E a origem apontava para o meu setor. Exatamente como alguém planejou. Corro até a sede da Moreau Holdings antes mesmo de ser chamada. Preciso estar lá, mostrar que não tenho medo. Mas, no fundo, tenho — não de Dante, e sim do que o destino está me forçando a admitir. Entro na sala dele e sinto o olhar pesar sobre mim. Os olhos cinzentos não acusam, apenas estudam. Ele parece calmo, mas a calma dele é mais perigosa que qualquer grito. — Parece que temos um problema em comum — diz. A escolha das palavras é precisa: em comum. Como se o universo fizesse questão de nos prender no mesmo nó. Durante as reuniões, mantenho o controle. Por fora, frieza. Por dentro, labirinto. A lembrança do jantar, do quase-toque no terraço, ainda pulsa. Agora estamos lado a lado, respirando o mesmo ar. As horas passam. A tensão muda de forma. Não é apenas raiva ou suspeita — é um tipo de energia que não sei nomear. E percebo que ele também sente. Quando a noite cai, restamos os dois. Eu na janela, ele atrás da mesa. Lá fora, a cidade vive; aqui dentro, o tempo parece suspenso. — A imprensa vai se alimentar disso — digo. — Que encontrem outro — ele responde, frio, sem hesitar. — E se não houver outro? — Então eu invento um. A sinceridade dele me atinge como um tapa. Não sei se o odeio ou o admiro por ser tão brutalmente honesto. Dou um passo na direção dele. Por que faço isso? Talvez porque quero entender de onde vem o fogo. Talvez porque já esteja dentro dele. Quando pergunto se ele nasceu para o inferno ou o inferno nasceu pra ele, o silêncio que se segue diz tudo. A resposta dele é uma confissão disfarçada: a diferença importa? E por um segundo, o vejo sem a armadura. Um homem que ainda sangra. O ar entre nós muda. Sinto a eletricidade, o perigo, a vontade. Mas se ele é o inferno, eu sou o fósforo. E ainda não é hora de acender. Saio antes que ele perceba que minhas mãos tremem. No carro, o celular vibra. Uma mensagem anônima: “O vazamento foi o início. O que virá depois fará vocês se destruírem.” Leio três vezes. O frio na espinha é instantâneo. Quem enviou aquilo sabe mais do que deveria. E talvez essa pessoa queira exatamente o que temo: nos ver cair — juntos. Chego em casa exausta. Tiro os sapatos, olho para a janela aberta. Lá fora, a noite é a mesma. Mas dentro de mim, algo mudou. Pego o celular outra vez, quase por reflexo. Nenhuma mensagem dele. Nem uma pergunta. Nem uma acusação. E é justamente isso que me perturba. Porque o silêncio de Dante Moreau nunca é vazio. Ele sempre significa alguma coisa. Deito, e o sono não vem. Na cabeça, a voz dele ecoa: “Estamos presos juntos. É diferente.” Ele tem razão. Estamos. E talvez o inferno que criamos já não tenha saída. Entre segredos e ameaças, a linha que separa culpa e desejo começa a desaparecer. O escândalo os une, o perigo os amarra, e o pecado é o único idioma que ainda conseguem falar.
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