O Nome da Queda

1440 Words
Dante Nada acontece por acaso. Aprendi isso cedo — muito cedo. Toda coincidência é uma estratégia disfarçada, e todo desastre começa com um erro humano. O e-mail anônimo ainda pulsa na memória. “Nem tudo o que queima vem do inferno.” Quem quer que esteja por trás do vazamento conhece a linguagem certa para me atingir. Três dias de reuniões, cruzamento de dados, senhas trocadas, nada. Nenhuma pista clara. Mas a Helix e a Moreau Holdings estão expostas — e, pior, meu nome e o dela já circulam juntos nas entrelinhas. Abro a cortina do escritório. A cidade parece tranquila, mas eu sei que é uma mentira: os tubarões sempre nadam sob a superfície. Selena chega às oito e meia, pontual. A blusa branca, o blazer escuro, o olhar controlado. — Temos uma nova pista — diz, colocando uma pasta sobre a mesa. — Diga. — O acesso indevido foi feito a partir de um servidor interno da sua empresa. O golpe é certeiro. — Está insinuando que alguém meu está envolvido? — Estou dizendo que o inimigo pode estar mais perto do que imagina. Silêncio. O som do relógio preenche a sala como uma contagem regressiva. — Quem mais tem acesso ao servidor? — pergunto. — Dois diretores, seu assistente… e você. A provocação está lá, disfarçada de constatação técnica. — Está me investigando, doutora? — Estou protegendo minha empresa. A resposta vem firme, mas há algo por baixo — algo que não é medo. É coragem. Ou loucura. Aproximo-me. — Protegendo, ou tentando se proteger? Ela me encara. — Depende de quem estiver atacando. O ar entre nós é um campo minado. O calor da manhã se mistura ao perfume dela. Quero avançar, mas me obrigo a manter distância. Porque sei que, se tocar nela agora, nada mais fará sentido. Pegamos o elevador até o subsolo, onde a equipe de segurança nos espera para revisar câmeras. Enquanto descemos, o silêncio é pesado. Ela observa o painel de aço refletir nossos rostos — duas versões da mesma guerra. No laboratório de TI, os técnicos falam em códigos e rastros digitais. Eu só consigo ouvi-la respirar ao meu lado. Quando um deles reproduz as imagens das câmeras, tudo muda. Um vulto, madrugada de domingo. Alguém entra na minha sala. O rosto quase coberto, mas há algo familiar no andar, na postura. Selena estreita os olhos. — Volte — ordeno. A imagem congela por um instante. É rápido, imperfeito, mas o reflexo do vidro mostra metade de um rosto: Luca Moreau. Meu irmão. Sinto o estômago contrair. O sangue subir. O d***o tem muitos nomes, e às vezes carrega o mesmo sobrenome que você. — Conhece ele? — Selena pergunta, estudando minha reação. — Conheço. — A voz sai fria demais. — Parece pessoal. — Tudo que envolve Luca é pessoal. Fico ali por um tempo, olhando a tela. Selena não insiste. Ela entende — e, de algum modo, respeita. Horas depois, estamos no mesmo carro, seguindo para a casa de Luca. Nenhum de nós fala. O silêncio vibra. Quando o portão se abre, o vazio da mansão me dá uma sensação estranha — a mesma que antecede as tragédias. Nada fora do lugar, mas tudo errado. Na sala, um envelope sobre a mesa. Dentro, apenas uma frase datilografada: “O inferno é hereditário.” Selena lê e me entrega. — Ele quer que você sinta o peso. Sento-me, respiro fundo. — Ele sempre quis o que é meu — o nome, o poder… tudo. — E agora quer você vulnerável. Olho para ela. — Conseguiu. Por um instante, deixo que ela veja — sem máscaras, sem defesas. E é perigoso. Porque os olhos dela não têm medo. Têm empatia. Quando ela toca meu ombro, o gesto é mínimo, mas quebra algo dentro de mim. Nenhum toque deveria doer assim. Afasto-me. — Não tenha pena de mim, doutora. — Não tenho. — Ela dá um passo atrás. — Mas talvez entenda o que é ser traído pelo próprio sangue. E naquele momento, percebo: ela também carrega fantasmas. Talvez o mesmo tipo de inferno. De volta ao carro, o céu começa a escurecer. As nuvens descem sobre a cidade como cortinas pesadas. Ela dirige. Eu observo o reflexo da tempestade se formar nos olhos dela. — Dante — ela murmura, sem tirar os olhos da estrada. — O que vai fazer agora? — O que sempre faço. — E o que é isso? — Caçar. Ela solta uma risada baixa, quase triste. — Caçar é fácil. Difícil é decidir o que fazer quando encontra. Não respondo. Porque talvez ela tenha razão. Quando a chuva começa, o som cobre o silêncio. E por um instante, tudo que existe é o som da respiração dela misturado ao trovão. O nome disso, percebo, não é raiva. Nem curiosidade. É queda. Selena O inferno tem muitas portas, e às vezes abrimos uma achando que é saída. O vazamento, a investigação, a tensão — tudo me parece uma armadilha orquestrada. Mas o que realmente me assusta é o que sinto quando estou perto dele. Dante Moreau, o homem que devia ser meu inimigo, agora é meu aliado forçado. E isso é o tipo de ironia que o destino adora. Quando vi o rosto do irmão dele na tela, algo dentro de mim se partiu. Porque vi, nos olhos de Dante, a dor de alguém que reconhece a própria ruína. E também porque sei o que é ser traída pelo sangue. A viagem até a casa de Luca foi um longo silêncio. No banco do motorista, mantive o olhar fixo na estrada. Mas sentia o peso dele ao lado, a energia contida, o impulso reprimido. O envelope sobre a mesa foi o golpe final: O inferno é hereditário. Palavras simples, cruéis. Vi Dante perder o ar, mesmo que por um segundo. Toquei o ombro dele porque não consegui evitar. Foi instintivo. E o toque foi fogo. A forma como se afastou me feriu mais do que eu esperava. Mas entendi. O orgulho é a armadura dos feridos. A minha também. De volta ao carro, o som da chuva me acalma. Por um momento, penso em confessar tudo. Contar por que entrei na vida dele, por que aceitei o jogo. Mas não posso. Ainda não. Se ele souber a verdade agora, tudo acaba. — O que vai fazer agora? — pergunto. A resposta vem rápida: Caçar. Claro que sim. Dante sempre caça. Mas o que ele não percebe é que também está sendo caçado. O caminho até a cidade é lento. No painel, o relógio marca 22h. As luzes dos carros cortam a chuva como lâminas. Sinto vontade de dizer algo — qualquer coisa que alivie o peso. Mas o que eu quero dizer é perigoso demais. Não se destrua por ele. Não me olhe assim. Não me deixe querer ficar. Quando estaciono diante do prédio dele, ele não se mexe. Fica ali, olhando a água escorrer pelo vidro. — Obrigado pela carona, doutora — diz, por fim. — Amanhã começamos de novo? — Não. Amanhã continuamos. A diferença é sutil, mas importante. Ele sai do carro. A porta se fecha. E eu fico sozinha, tentando respirar. Em casa, o silêncio parece mais alto. Ligo o computador e acesso meus arquivos pessoais. A pasta oculta com as provas que reuni contra ele — contra Dante Moreau — ainda está lá. As fotos, os contratos, o nome de Luca em alguns deles. Tudo que preciso para destruí-lo. Tudo que jurei usar quando chegasse a hora. Mas agora, olhando aquelas linhas, sinto o peso do que estou prestes a fazer. O rosto dele volta à mente: o olhar ferido, o orgulho, a solidão. E percebo que algo mudou. Talvez o inferno que me trouxe até aqui tenha mudado de dono. Quando fecho o notebook, o celular vibra. Mensagem desconhecida: “A verdade tem preço. E vocês já começaram a pagar.” Por um instante, o medo substitui o desejo. Alguém está manipulando os dois. E o pior: está se divertindo com isso. Sento-me na cama, o coração acelerado. Pego o telefone e digito o nome dele. Apago antes de enviar. Porque sei que, se eu ligar, ele virá. E se ele vier, eu caio. Deito. Fecho os olhos. Ouço o eco da voz dele no carro, misturado à chuva: Caçar é fácil. Difícil é o que vem depois. E o que vem depois tem nome. Queda. No silêncio da madrugada, duas verdades coexistem ele acredita estar perseguindo o inimigo, e ela descobre que talvez o inimigo more dentro dela. O jogo mudou. E agora o inferno começa a ter forma.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD