Dante
Nada acontece por acaso.
Aprendi isso cedo — muito cedo.
Toda coincidência é uma estratégia disfarçada, e todo desastre começa com um erro humano.
O e-mail anônimo ainda pulsa na memória.
“Nem tudo o que queima vem do inferno.”
Quem quer que esteja por trás do vazamento conhece a linguagem certa para me atingir.
Três dias de reuniões, cruzamento de dados, senhas trocadas, nada. Nenhuma pista clara.
Mas a Helix e a Moreau Holdings estão expostas — e, pior, meu nome e o dela já circulam juntos nas entrelinhas.
Abro a cortina do escritório. A cidade parece tranquila, mas eu sei que é uma mentira: os tubarões sempre nadam sob a superfície.
Selena chega às oito e meia, pontual. A blusa branca, o blazer escuro, o olhar controlado.
— Temos uma nova pista — diz, colocando uma pasta sobre a mesa.
— Diga.
— O acesso indevido foi feito a partir de um servidor interno da sua empresa.
O golpe é certeiro.
— Está insinuando que alguém meu está envolvido?
— Estou dizendo que o inimigo pode estar mais perto do que imagina.
Silêncio.
O som do relógio preenche a sala como uma contagem regressiva.
— Quem mais tem acesso ao servidor? — pergunto.
— Dois diretores, seu assistente… e você.
A provocação está lá, disfarçada de constatação técnica.
— Está me investigando, doutora?
— Estou protegendo minha empresa.
A resposta vem firme, mas há algo por baixo — algo que não é medo.
É coragem. Ou loucura.
Aproximo-me.
— Protegendo, ou tentando se proteger?
Ela me encara.
— Depende de quem estiver atacando.
O ar entre nós é um campo minado.
O calor da manhã se mistura ao perfume dela.
Quero avançar, mas me obrigo a manter distância.
Porque sei que, se tocar nela agora, nada mais fará sentido.
Pegamos o elevador até o subsolo, onde a equipe de segurança nos espera para revisar câmeras.
Enquanto descemos, o silêncio é pesado.
Ela observa o painel de aço refletir nossos rostos — duas versões da mesma guerra.
No laboratório de TI, os técnicos falam em códigos e rastros digitais. Eu só consigo ouvi-la respirar ao meu lado.
Quando um deles reproduz as imagens das câmeras, tudo muda.
Um vulto, madrugada de domingo.
Alguém entra na minha sala.
O rosto quase coberto, mas há algo familiar no andar, na postura.
Selena estreita os olhos.
— Volte — ordeno.
A imagem congela por um instante.
É rápido, imperfeito, mas o reflexo do vidro mostra metade de um rosto: Luca Moreau.
Meu irmão.
Sinto o estômago contrair.
O sangue subir.
O d***o tem muitos nomes, e às vezes carrega o mesmo sobrenome que você.
— Conhece ele? — Selena pergunta, estudando minha reação.
— Conheço. — A voz sai fria demais.
— Parece pessoal.
— Tudo que envolve Luca é pessoal.
Fico ali por um tempo, olhando a tela.
Selena não insiste.
Ela entende — e, de algum modo, respeita.
Horas depois, estamos no mesmo carro, seguindo para a casa de Luca.
Nenhum de nós fala.
O silêncio vibra.
Quando o portão se abre, o vazio da mansão me dá uma sensação estranha — a mesma que antecede as tragédias.
Nada fora do lugar, mas tudo errado.
Na sala, um envelope sobre a mesa.
Dentro, apenas uma frase datilografada:
“O inferno é hereditário.”
Selena lê e me entrega.
— Ele quer que você sinta o peso.
Sento-me, respiro fundo.
— Ele sempre quis o que é meu — o nome, o poder… tudo.
— E agora quer você vulnerável.
Olho para ela.
— Conseguiu.
Por um instante, deixo que ela veja — sem máscaras, sem defesas.
E é perigoso.
Porque os olhos dela não têm medo. Têm empatia.
Quando ela toca meu ombro, o gesto é mínimo, mas quebra algo dentro de mim.
Nenhum toque deveria doer assim.
Afasto-me.
— Não tenha pena de mim, doutora.
— Não tenho. — Ela dá um passo atrás. — Mas talvez entenda o que é ser traído pelo próprio sangue.
E naquele momento, percebo: ela também carrega fantasmas.
Talvez o mesmo tipo de inferno.
De volta ao carro, o céu começa a escurecer.
As nuvens descem sobre a cidade como cortinas pesadas.
Ela dirige. Eu observo o reflexo da tempestade se formar nos olhos dela.
— Dante — ela murmura, sem tirar os olhos da estrada. — O que vai fazer agora?
— O que sempre faço.
— E o que é isso?
— Caçar.
Ela solta uma risada baixa, quase triste.
— Caçar é fácil. Difícil é decidir o que fazer quando encontra.
Não respondo.
Porque talvez ela tenha razão.
Quando a chuva começa, o som cobre o silêncio.
E por um instante, tudo que existe é o som da respiração dela misturado ao trovão.
O nome disso, percebo, não é raiva.
Nem curiosidade.
É queda.
Selena
O inferno tem muitas portas, e às vezes abrimos uma achando que é saída.
O vazamento, a investigação, a tensão — tudo me parece uma armadilha orquestrada.
Mas o que realmente me assusta é o que sinto quando estou perto dele.
Dante Moreau, o homem que devia ser meu inimigo, agora é meu aliado forçado.
E isso é o tipo de ironia que o destino adora.
Quando vi o rosto do irmão dele na tela, algo dentro de mim se partiu.
Porque vi, nos olhos de Dante, a dor de alguém que reconhece a própria ruína.
E também porque sei o que é ser traída pelo sangue.
A viagem até a casa de Luca foi um longo silêncio.
No banco do motorista, mantive o olhar fixo na estrada.
Mas sentia o peso dele ao lado, a energia contida, o impulso reprimido.
O envelope sobre a mesa foi o golpe final: O inferno é hereditário.
Palavras simples, cruéis.
Vi Dante perder o ar, mesmo que por um segundo.
Toquei o ombro dele porque não consegui evitar.
Foi instintivo.
E o toque foi fogo.
A forma como se afastou me feriu mais do que eu esperava.
Mas entendi. O orgulho é a armadura dos feridos.
A minha também.
De volta ao carro, o som da chuva me acalma.
Por um momento, penso em confessar tudo.
Contar por que entrei na vida dele, por que aceitei o jogo.
Mas não posso. Ainda não.
Se ele souber a verdade agora, tudo acaba.
— O que vai fazer agora? — pergunto.
A resposta vem rápida: Caçar.
Claro que sim.
Dante sempre caça.
Mas o que ele não percebe é que também está sendo caçado.
O caminho até a cidade é lento.
No painel, o relógio marca 22h.
As luzes dos carros cortam a chuva como lâminas.
Sinto vontade de dizer algo — qualquer coisa que alivie o peso.
Mas o que eu quero dizer é perigoso demais.
Não se destrua por ele.
Não me olhe assim.
Não me deixe querer ficar.
Quando estaciono diante do prédio dele, ele não se mexe.
Fica ali, olhando a água escorrer pelo vidro.
— Obrigado pela carona, doutora — diz, por fim.
— Amanhã começamos de novo?
— Não. Amanhã continuamos.
A diferença é sutil, mas importante.
Ele sai do carro.
A porta se fecha.
E eu fico sozinha, tentando respirar.
Em casa, o silêncio parece mais alto.
Ligo o computador e acesso meus arquivos pessoais.
A pasta oculta com as provas que reuni contra ele — contra Dante Moreau — ainda está lá.
As fotos, os contratos, o nome de Luca em alguns deles.
Tudo que preciso para destruí-lo.
Tudo que jurei usar quando chegasse a hora.
Mas agora, olhando aquelas linhas, sinto o peso do que estou prestes a fazer.
O rosto dele volta à mente: o olhar ferido, o orgulho, a solidão.
E percebo que algo mudou.
Talvez o inferno que me trouxe até aqui tenha mudado de dono.
Quando fecho o notebook, o celular vibra.
Mensagem desconhecida:
“A verdade tem preço. E vocês já começaram a pagar.”
Por um instante, o medo substitui o desejo.
Alguém está manipulando os dois.
E o pior: está se divertindo com isso.
Sento-me na cama, o coração acelerado.
Pego o telefone e digito o nome dele.
Apago antes de enviar.
Porque sei que, se eu ligar, ele virá.
E se ele vier, eu caio.
Deito.
Fecho os olhos.
Ouço o eco da voz dele no carro, misturado à chuva: Caçar é fácil. Difícil é o que vem depois.
E o que vem depois tem nome.
Queda.
No silêncio da madrugada, duas verdades coexistem ele acredita estar perseguindo o inimigo, e ela descobre que talvez o inimigo more dentro dela.
O jogo mudou.
E agora o inferno começa a ter forma.