A noite tem cheiro de ferrugem e medo. A energia acabou há horas, e a tempestade transformou o chalé em um túmulo vivo. Selena dorme, ou finge dormir, deitada ao meu lado. Mas o corpo dela se move levemente, em sobressaltos. Nem os sonhos dela descansam. A cada trovão, o rádio queimado emite um chiado breve, como se a morte respirasse dentro dele. E eu sei — o inferno não foi embora. Ele só encontrou um novo idioma pra se comunicar. Pego a arma na mesa e me levanto. Ando pelo chalé em silêncio, a lanterna na outra mão. O chão de madeira geme, o vento bate contra as janelas. Tudo parece observar. Tudo parece esperar. Passo pela cozinha, e o reflexo no vidro do armário me paralisa. Por um instante, juro ver outra pessoa ali. O mesmo rosto. Os mesmos olhos. Mas mais escuros.

