Jogos de Domínio

1140 Words
Dante Passei a noite em claro. E não foi pelo trabalho, nem pelos números que piscavam no monitor do escritório de casa. Foi por ela. Selena Duarte. Fecho os olhos e ainda vejo o vestido n***o, o olhar âmbar, o sorriso provocante. Ela atravessou o salão como quem sabe que vai deixar rastros. E deixou. Nada me tira o sono. Mas ela tirou. O relógio marca seis da manhã quando decido levantar. Tomo banho, visto o terno e desço para a garagem. O vidro espelhado do elevador devolve o mesmo rosto de sempre — firme, frio, impenetrável — mas os olhos denunciam o que tento esconder: curiosidade. E curiosidade é o primeiro passo rumo à queda. Na sede da Moreau Holdings, tudo segue como de costume: passos apressados, cheiros de café, vozes tensas. É o ritmo de quem sobrevive à pressão de trabalhar comigo. Mas o ambiente muda quando recebo a mensagem de Antony, meu assistente: “Reunião confirmada com o jurídico da Helix Group às 10h. Representante: Dra. Selena Duarte.” Por um instante, o nome parece acender uma fagulha dentro de mim. O destino, às vezes, tem um senso de humor c***l. Quando o relógio marca dez horas em ponto, ela entra. Sem anúncio. Sem medo. O som de seus saltos ecoa como um metrônomo, marcando o ritmo do inferno que ela carrega. Vestida em cinza, elegante e letal. Os cabelos presos em um coque que revela o pescoço — vulnerável, mas de algum modo inatingível. Ela me olha. E sorri. Um sorriso discreto, que não é de cortesia. É um lembrete. De que a última palavra da noite anterior ainda não foi dita. — Senhor Moreau — ela diz, oferecendo a mão. — Doutora Duarte. — Aceito o cumprimento. Pele quente. Olhar frio. Contradição perfeita. Sentamos frente a frente, com a mesa de vidro entre nós. Ela coloca a pasta sobre a superfície, e o som do fecho abrindo parece mais alto do que deveria. Cada movimento dela é calculado. Ela sabe o que está fazendo. E sabe o efeito que causa. Durante os primeiros minutos, ela fala sobre cláusulas, contratos, prazos. Mas minha atenção está em outro lugar — na voz baixa, rouca, que desliza pelas palavras como se as acariciasse. Quando menciona a fusão entre as empresas, seu tom muda. Ela me desafia. Quer medir força. E eu não recuo. — A Helix não aceita subordinação nas decisões conjuntas — diz, erguendo o queixo. — Eu não negocio subordinação, doutora. — Respondo. — Apenas resultados. O silêncio que se segue é denso. Um duelo invisível começa ali, diante de papéis e olhares. Ela cruza as pernas, devagar. O movimento é simples, mas o ar parece mudar de densidade. — Então talvez precise aprender que resultados também dependem de confiança — ela retruca. — Confiança é um luxo. Prefiro controle. Ela inclina o corpo um pouco à frente. — E se o controle falhar? Sorrio. — Eu não falho. Ela também sorri — aquele sorriso de quem sabe exatamente o que está fazendo com você. Mas algo nos olhos dela me prende: uma faísca de desafio… e algo mais. Um tipo de tristeza escondida atrás da máscara. Por um segundo, sinto vontade de entender. Mas isso é perigoso. Sentir sempre é. Encerramos a reunião com um aperto de mãos que dura um segundo além do necessário. A pele dela é quente, viva. E o olhar, afiado como uma lâmina. Quando ela sai, o perfume permanece. Amadeirado, doce e insolente. Por alguns minutos, fico parado olhando a porta. Antony entra, confuso. — Senhor? Está tudo bem? — Está. — Respondo. — Apenas… o inferno resolveu trabalhar comigo. Selena Ele estava lá. No mesmo terno escuro, o mesmo olhar que corta e domina. Quando entrei naquela sala, jurei a mim mesma que não iria vacilar. Mas o ar parecia outro — pesado, carregado da lembrança do que quase aconteceu na noite anterior. Dante Moreau sentado à cabeceira da mesa é uma visão que explica muita coisa sobre o medo que as pessoas sentem dele. A presença dele é um território. E qualquer um que entre ali sabe que já está em desvantagem. Mas eu não sou qualquer um. Sou a exceção que ele nunca previu. Cumprimentá-lo foi como tocar fogo com as próprias mãos. A eletricidade do toque subiu pelo braço e se espalhou, lenta e perigosa. Mantive o rosto neutro, mas por dentro meu corpo reagia como se reconhecesse um inimigo… ou algo pior. Durante a reunião, cada frase dele era uma provocação disfarçada. Ele jogava com as palavras como quem joga xadrez — calculando movimentos, prevendo respostas. E eu entrei no jogo. Quando falei sobre a fusão das empresas, notei o modo como ele me olhava. Não como adversária. Como se medisse o quanto de mim poderia dobrar antes de quebrar. — A Helix não aceita subordinação nas decisões conjuntas — repeti, olhando diretamente para ele. O olhar cinzento endureceu, mas o canto da boca denunciou o prazer do desafio. — Eu não negocio subordinação. Apenas resultados. Aquela troca foi mais íntima do que qualquer toque. O poder dele me atraía e me repelia ao mesmo tempo. Era como olhar o precipício e sentir vontade de saltar. Quando a reunião acabou, ele se levantou primeiro. Fiquei de pé logo depois, recolhendo meus papéis, tentando ignorar o calor que crescia entre nós. Mas então ele se aproximou. Apenas o bastante para que a respiração dele tocasse meu rosto. — Cuidado, doutora — disse, com a voz baixa, quase um sussurro. — O inferno é um lugar quente demais pra brincar. Levantei o olhar e respondi: — Eu cresci nele, senhor Moreau. E continuo inteira. O brilho nos olhos dele mudou. Como se, por um instante, ele tivesse visto algo que o desconcertou. Saí da sala sem olhar para trás. Mas cada passo parecia pesado, como se a gravidade tivesse aumentado. No corredor, respirei fundo e encostei a testa na parede fria. O coração ainda acelerado, a pele arrepiada. Não era medo. Era algo muito pior. No espelho do elevador, vi meu próprio reflexo. A expressão era a mesma que vi nele na noite passada: curiosidade. E curiosidade é o primeiro passo para o inferno. De volta ao carro, o celular vibrou com uma mensagem da Helix: “Reunião aprovada. O projeto avança para segunda fase.” Segunda fase. Com ele. Fechei os olhos por um instante, tentando conter o sorriso. Talvez o jogo estivesse apenas começando. E, se o inferno fosse mesmo o preço, eu pagaria sem medo. Do lado de fora do prédio, o vento soprava forte, arrastando o cheiro da chuva que viria. Do lado de dentro, dois demônios em pele humana já traçavam o próximo movimento. O prazer e o poder haviam trocado de lugar. E o inferno, mais uma vez, tinha hora marcada.
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