Dante
Passei a noite em claro.
E não foi pelo trabalho, nem pelos números que piscavam no monitor do escritório de casa.
Foi por ela.
Selena Duarte.
Fecho os olhos e ainda vejo o vestido n***o, o olhar âmbar, o sorriso provocante.
Ela atravessou o salão como quem sabe que vai deixar rastros. E deixou.
Nada me tira o sono. Mas ela tirou.
O relógio marca seis da manhã quando decido levantar. Tomo banho, visto o terno e desço para a garagem. O vidro espelhado do elevador devolve o mesmo rosto de sempre — firme, frio, impenetrável — mas os olhos denunciam o que tento esconder: curiosidade.
E curiosidade é o primeiro passo rumo à queda.
Na sede da Moreau Holdings, tudo segue como de costume: passos apressados, cheiros de café, vozes tensas. É o ritmo de quem sobrevive à pressão de trabalhar comigo.
Mas o ambiente muda quando recebo a mensagem de Antony, meu assistente:
“Reunião confirmada com o jurídico da Helix Group às 10h. Representante: Dra. Selena Duarte.”
Por um instante, o nome parece acender uma fagulha dentro de mim.
O destino, às vezes, tem um senso de humor c***l.
Quando o relógio marca dez horas em ponto, ela entra.
Sem anúncio. Sem medo.
O som de seus saltos ecoa como um metrônomo, marcando o ritmo do inferno que ela carrega.
Vestida em cinza, elegante e letal. Os cabelos presos em um coque que revela o pescoço — vulnerável, mas de algum modo inatingível.
Ela me olha.
E sorri.
Um sorriso discreto, que não é de cortesia. É um lembrete.
De que a última palavra da noite anterior ainda não foi dita.
— Senhor Moreau — ela diz, oferecendo a mão.
— Doutora Duarte. — Aceito o cumprimento. Pele quente. Olhar frio. Contradição perfeita.
Sentamos frente a frente, com a mesa de vidro entre nós.
Ela coloca a pasta sobre a superfície, e o som do fecho abrindo parece mais alto do que deveria.
Cada movimento dela é calculado.
Ela sabe o que está fazendo.
E sabe o efeito que causa.
Durante os primeiros minutos, ela fala sobre cláusulas, contratos, prazos.
Mas minha atenção está em outro lugar — na voz baixa, rouca, que desliza pelas palavras como se as acariciasse.
Quando menciona a fusão entre as empresas, seu tom muda.
Ela me desafia.
Quer medir força.
E eu não recuo.
— A Helix não aceita subordinação nas decisões conjuntas — diz, erguendo o queixo.
— Eu não negocio subordinação, doutora. — Respondo. — Apenas resultados.
O silêncio que se segue é denso.
Um duelo invisível começa ali, diante de papéis e olhares.
Ela cruza as pernas, devagar.
O movimento é simples, mas o ar parece mudar de densidade.
— Então talvez precise aprender que resultados também dependem de confiança — ela retruca.
— Confiança é um luxo. Prefiro controle.
Ela inclina o corpo um pouco à frente.
— E se o controle falhar?
Sorrio.
— Eu não falho.
Ela também sorri — aquele sorriso de quem sabe exatamente o que está fazendo com você.
Mas algo nos olhos dela me prende: uma faísca de desafio… e algo mais.
Um tipo de tristeza escondida atrás da máscara.
Por um segundo, sinto vontade de entender.
Mas isso é perigoso.
Sentir sempre é.
Encerramos a reunião com um aperto de mãos que dura um segundo além do necessário.
A pele dela é quente, viva.
E o olhar, afiado como uma lâmina.
Quando ela sai, o perfume permanece.
Amadeirado, doce e insolente.
Por alguns minutos, fico parado olhando a porta.
Antony entra, confuso.
— Senhor? Está tudo bem?
— Está. — Respondo. — Apenas… o inferno resolveu trabalhar comigo.
Selena
Ele estava lá.
No mesmo terno escuro, o mesmo olhar que corta e domina.
Quando entrei naquela sala, jurei a mim mesma que não iria vacilar.
Mas o ar parecia outro — pesado, carregado da lembrança do que quase aconteceu na noite anterior.
Dante Moreau sentado à cabeceira da mesa é uma visão que explica muita coisa sobre o medo que as pessoas sentem dele.
A presença dele é um território.
E qualquer um que entre ali sabe que já está em desvantagem.
Mas eu não sou qualquer um.
Sou a exceção que ele nunca previu.
Cumprimentá-lo foi como tocar fogo com as próprias mãos. A eletricidade do toque subiu pelo braço e se espalhou, lenta e perigosa.
Mantive o rosto neutro, mas por dentro meu corpo reagia como se reconhecesse um inimigo… ou algo pior.
Durante a reunião, cada frase dele era uma provocação disfarçada.
Ele jogava com as palavras como quem joga xadrez — calculando movimentos, prevendo respostas.
E eu entrei no jogo.
Quando falei sobre a fusão das empresas, notei o modo como ele me olhava.
Não como adversária.
Como se medisse o quanto de mim poderia dobrar antes de quebrar.
— A Helix não aceita subordinação nas decisões conjuntas — repeti, olhando diretamente para ele.
O olhar cinzento endureceu, mas o canto da boca denunciou o prazer do desafio.
— Eu não negocio subordinação. Apenas resultados.
Aquela troca foi mais íntima do que qualquer toque.
O poder dele me atraía e me repelia ao mesmo tempo.
Era como olhar o precipício e sentir vontade de saltar.
Quando a reunião acabou, ele se levantou primeiro.
Fiquei de pé logo depois, recolhendo meus papéis, tentando ignorar o calor que crescia entre nós.
Mas então ele se aproximou.
Apenas o bastante para que a respiração dele tocasse meu rosto.
— Cuidado, doutora — disse, com a voz baixa, quase um sussurro. — O inferno é um lugar quente demais pra brincar.
Levantei o olhar e respondi:
— Eu cresci nele, senhor Moreau. E continuo inteira.
O brilho nos olhos dele mudou.
Como se, por um instante, ele tivesse visto algo que o desconcertou.
Saí da sala sem olhar para trás.
Mas cada passo parecia pesado, como se a gravidade tivesse aumentado.
No corredor, respirei fundo e encostei a testa na parede fria.
O coração ainda acelerado, a pele arrepiada.
Não era medo.
Era algo muito pior.
No espelho do elevador, vi meu próprio reflexo.
A expressão era a mesma que vi nele na noite passada: curiosidade.
E curiosidade é o primeiro passo para o inferno.
De volta ao carro, o celular vibrou com uma mensagem da Helix:
“Reunião aprovada. O projeto avança para segunda fase.”
Segunda fase.
Com ele.
Fechei os olhos por um instante, tentando conter o sorriso.
Talvez o jogo estivesse apenas começando.
E, se o inferno fosse mesmo o preço, eu pagaria sem medo.
Do lado de fora do prédio, o vento soprava forte, arrastando o cheiro da chuva que viria.
Do lado de dentro, dois demônios em pele humana já traçavam o próximo movimento.
O prazer e o poder haviam trocado de lugar.
E o inferno, mais uma vez, tinha hora marcada.