Dante A noite caiu pesada, densa, como se o mundo estivesse cansado de fingir calma. Selena dorme, e o fogo da lareira se apaga aos poucos, mas eu continuo acordado. Há dias sinto algo estranho no ar — uma presença que não é do inferno, mas também não é humana. O inferno aprendeu a respirar dentro de mim, mas o que vem agora tem outro cheiro: o da lembrança. Aquele tipo de fantasma que não precisa morrer pra assombrar. Caminho até a varanda. A lua está alta, o mar quieto demais. No horizonte, vejo uma luz piscando — uma embarcação pequena, talvez um barco de pesca. Mas há algo errado na forma como ela se move. É como se não buscasse o mar, mas a costa. Como se me procurasse. “Ele voltou.” A voz vem rápida, cortante, e eu congelo. — Quem? “Aquele que você esqueceu de matar.”

