Dante A memória é um campo em ruínas. Caminho por ela todos os dias, tentando encontrar pedaços do que fui, mas tudo o que resta são sombras queimadas. Selena fala comigo, mas às vezes não reconheço a voz. Sei que a amo — o corpo lembra. Mas o rosto... o rosto muda. Às vezes é claro como o amanhecer, outras, distante como uma lembrança que nunca aconteceu. O inferno não me consome mais. Ele me apaga. E, pouco a pouco, sinto que estou desaparecendo de dentro pra fora. Hoje acordei e não sabia onde estava. A casa me pareceu estranha, menor, como se respirasse. As paredes tinham marcas, desenhos feitos pela fumaça, como rostos que me observavam. E juro que ouvi um sussurro vindo do fogo apagado da lareira. “Você me deixou com ela.” A voz não era a do inferno. Era a de Viktor

