Dante A estrada para casa parece mais longa do que na infância. Talvez porque agora eu sei o que me espera no fim. O asfalto foi engolido pela mata, as curvas são as mesmas que um dia levei a duzentos por hora, tentando fugir da culpa. Selena está ao meu lado, quieta, observando o horizonte cinza. O silêncio entre nós tem peso de luto e promessa. — Quantas vezes veio aqui depois que tudo acabou? — ela pergunta. — Nenhuma. — Por medo? — Por vergonha. Ela assente, sem ironia. — Vergonha também é uma forma de amor. Penso na frase. No que fiz, no que deixei de fazer. No garoto que eu era antes de o dinheiro e o poder me corromperem. No irmão que eu deixei virar inimigo. Quando avistamos o portão da propriedade, a neblina parece se abrir. O casarão está de pé, mas parece um cad

