POV DE SAMAEL
Meu punho atingiu o rosto de Nathanael com um estalo seco que ecoou pelo corredor da delegacia. O impacto percorreu meu braço inteiro até o ombro. Doeu nele. Em mim também. Foi feio. Osso contra osso. Raiva antiga encontrando provocação.
Ele cambaleou para trás, mais surpreso pela força do que pelo golpe em si. Pela intenção.
— SEU FILHO DA p**a! — eu gritei pra ele.
Com o impacto , ele caiu sobre uma mesa, quebrando tudo. A pessoa que estava sentada ali gritou com o estrondo.
Eu nem vi quem era. Só tinha eu e ele. Tudo em vermelho.
O mundo pareceu encolher ao nosso redor.
Nathanael sorriu, os olhos brilhando com aquela mistura doentia de desafio e prazer, e então avançou contra mim.
Nathanael veio com tudo.
O punho dele acertou minha sobrancelha antes que eu pudesse desviar. A dor veio quente, rápida, e o sangue começou a escorrer quase na mesma hora, borrando parte da minha visão. Eu senti o gosto metálico na boca mesmo sem ter sido atingido ali. Adrenalina faz isso. Mistura tudo.
Cambaleei um passo, mas não caí.
Ele tentou outro golpe, mais baixo, tentando me pegar desprevenido. Segurei o antebraço dele no meio do movimento e o empurrei pra trás com força. O corpo dele bateu contra uma cadeira, que virou com estrondo. Alguém gritou de novo. Ordens começaram a ser jogadas no ar.
Ninguém ouvia.
A gente se embolou de vez. Mão puxando, cotovelo entrando, soco curto demais pra desviar. O corpo dele batia no meu, mesa virava, coisa caía no chão. Respiração pesada, sangue quente, tudo misturado.
Nathanael nunca abaixou a cabeça pra ninguém. E não ia ser comigo.
Ele cuspiu sangue no chão e riu.
— Depois de todo esse tempo… — provocou, a voz falhando mais de deboche do que de dor. — Olha você. Aqui, brigando pela garota que te largou.
A frase dele bateu mais forte que qualquer soco.
Não pensei.
Empurrei Nathanael com tudo, usando o próprio peso dele contra si. O pé dele escorregou entre os cacos no chão e ele caiu de costas, derrubando outra mesa no caminho. Antes que tentasse se levantar, eu já estava em cima.
Meu punho desceu uma vez.
Depois outra.
Curto. Direto. Sem espaço pra defesa.
O rosto dele virou de lado com o impacto, o sangue espalhando pelo chão claro da delegacia. Ele tentou me agarrar, mas eu me soltei e bati de novo, sentindo o osso doer sob a pele do punho. Doeu. Não parei.
— FICA NA SUA p***a DE LUGAR! — rosnei, descendo mais um soco.
Ele riu mesmo assim. Um riso quebrado, cuspindo sangue.
— Ou oque vai continuar dando piti por causa da sua ex namoradinha ? – ele riu.
Sangue escorria da minha sobrancelha.
Da boca de Nathanael também.
Nathanael cuspiu no chão e riu de novo.
Aquilo acendeu mais coisa dentro de mim do que devia.
Avancei de novo. O empurrei contra a parede, sentindo o impacto atravessar meu próprio corpo. A mão fechou na farda dele, amarrotando o tecido. Ele respondeu com um soco no meu maxilar que fez minha cabeça virar de lado. O som seco ecoou. Não pensei. Devolvi na mesma moeda.
Soco na boca.
O lábio dele abriu. O sangue escorreu sem pressa.
Dois irmãos.
Dois orgulhos que nunca couberam no mesmo espaço.
Ouvi Babi gritar meu nome. Uma, duas vezes. A voz dela vinha distante, como se estivesse em outro lugar. Eu sabia que ela estava ali. Sabia que Hannah também. Mas naquele momento, o mundo tinha encolhido demais pra caber todo mundo.
Só existia Nathanael.
Ele riu de novo, mesmo sangrando, mesmo ofegante. Um riso curto, debochado, do tipo que sempre usou pra esconder coisa demais.
— Vai — ele desafiou. — Faz o que você sempre quis fazer.
Foi ali que eu senti — não raiva ou ódio, mas medo.
Medo do que eu podia fazer se continuasse.
Agarrei o colarinho dele com mais força e o puxei pra frente, nossas testas quase se tocando. A respiração dele era quente, descompassada. A minha também.
— Você cruzou um limite — eu disse, baixo. — E sabe disso.
Braços firmes me puxaram pra trás de uma vez só, me tirando do eixo. Dei dois passos pra trás antes de conseguir firmar o pé no chão.
— CHEGA.
A voz veio grossa, cheia, ocupando o espaço inteiro.
Beto.
Ele raramente saía da sala dele. Quando saía, era porque a coisa tinha passado do limite.
Alto, largo de ombros, musculoso daquele jeito que não vem de academia, mas de rotina dura. O cabelo loiro bem cortado, alinhado mesmo no caos. Os olhos azuis — a marca do sangue Blackwolf — frios agora, atentos a tudo.
Com uma mão, ele mantinha Nathanael no chão. Com a outra, me segurava afastado.
Autoridade sem esforço.
Sangue escorria da minha sobrancelha.
Da boca de Nathanael também.
Nathanael cuspiu no chão e riu de novo.
Mesmo contido, empurrou o peito de Beto com o ombro, desafiando. Beto nem se mexeu. Os dois se encararam. Ali tinha história demais pra caber naquele corredor.
A mesma mulher.
O mesmo erro antigo.
E ela estava ali, nervosa, assistindo tudo de perto demais.
A respiração de nós dois ainda vinha pesada.
— Que p***a vocês estão fazendo no meu batalhão? — Beto gritou pros dois, o olhar passando de mim pra Nathanael. — Isso aqui não é ringue.
Nathanael levantou a cabeça devagar, o sangue ainda escorrendo da boca, e sorriu de lado.
— Seu irmão aí — disse, arrogante, debochado — defendendo a marmita de bandido.
O ódio subiu tão rápido que quase me cegou de novo.
— É O QUÊ? EU VOU TE MATAR, p***a! — rosnei, tentando avançar.
Beto se aproximou mais um passo.
— Eu não quero confusão no meu batalhão — rosnou. — Se isso continuar, eu prendo os dois. Não importa que vocês sejam meus irmãos.
Dei um passo à frente, o olhar preso em Nathanael.
Beto reagiu na hora, as mãos firmes no meu peito, me segurando com força suficiente pra me travar no lugar.
— Ei! Eu falei sem briga — ele disse, sem gritar. — Chega.
Virou o rosto de novo pra Nathanael. O tom não subiu. Ficou mais baixo.
— O que caralhos você fez dessa vez?
Nathanael ergueu uma sobrancelha, o canto da boca se erguendo num deboche contido. Apontou para o próprio peito.
— Ué… eu fiz alguma coisa?
Foi Babi quem bufou, impaciente, bem ao lado dele.
— Você sempre faz alguma coisa, Nate.
Ela se aproximou dois passos. Quando ficou diante dele, o olhar de Beto suavizou.
— Ele prendeu a Hannah. – diz ela, indignada.
O olhar de Beto mudou na hora. Não foi choque. Foi entendimento. O tipo de entendimento que pesa.
— Por quê? — perguntou, já virando pra Nathanael.
Eu ri. Frio. Sem humor nenhum.
— Porque ele só tem merda na cabeça — rosnei, tentando avançar de novo.
Beto pressionou mais o antebraço contra meu peito.
— Relaxa, irmão — disse, firme. — Eu só quero entender o que tá acontecendo.
Nathanael deu de ombros, despreocupado demais pra quem tinha acabado de apanhar.
— Eu só queria informações — respondeu. — Da mulher do traficante mais procurado dessa cidade.
Dessa vez eu ri de verdade. Um riso curto, duro.
— Você não tinha causa provável — falei, a voz carregada de desprezo. — Só trouxe ela pra provocar.
Levantei a mão e apontei em volta, pro corredor vazio, pras caras tensas, pra ausência gritante.
— Tá vendo algum deles aqui? — continuei. — Eles não são burros. Sabem que se viessem atrás dela, morreriam ou seriam presos. Nem Jonah, nem Cauã viriam aqui.
Abaixei a voz, encarando Nathanael.
— Acorda, Nathanael.
Nathanael inclinou um pouco a cabeça, limpou o sangue da boca com o polegar e sorriu de novo. Um sorriso lento. Calculado.
— Não me importo se eles não vieram aqui — disse, a voz baixa, provocativa. — Mas parece, irmão, que você se importa demais com o que acontece com a sua ex-namoradinha… aquela que te deu um pé na b***a, né? — ele deu uma pausa curta, c***l.
— E ainda ficou com um traficantezinho de merda.
A forma como ele falou carregava algo além de deboche. Tinha raiva ali. Frustração. Coisa m*l resolvida apodrecendo há tempo demais.
Eu já estava farto.
Se ele queria apertar minhas feridas, eu sabia exatamente onde tocar nas dele.
— É mesmo, Nathanael — respondi, minha saindo voz estranhamente calma. — Ela me largou.
Dei um passo à frente antes que Beto pudesse reagir.
— Do mesmo jeito que a Babi te trocou pelo Beto — continuei. — E agora você tá aqui, amargurado, tentando tornar a vida de todo mundo um inferno porque não sabe lidar com isso.
O sorriso dele morreu.
Os olhos de Nathanael escureceram de um jeito diferente. Um rosnado baixo subiu da garganta, instintivo, perigoso. O corpo dele se tensionou, pronto pra avançar.
E antes que ele se movesse —
— JÁ CHEGA!
A voz cortou o ar.
Seca.
Feminina.
Forte demais pra ser ignorada.
Tudo travou.