Erik se debatia mais uma vez entre um sonho h******l e outro. Ele sempre via uma mulher ruiva, com um olhar triste para ele. Pedindo que ele fosse embora. Ela acariciava seu rosto, sentada no chão. Os lábios sangravam e seus olhos verdes estavam arroxeados. Ele não queria deixa-la, não podia deixa-la. Era c***l demais estar sozinho. Ela era tudo para ele. Mas, então, se via arrastado por homens fortes. E ele se sentia pequeno, como uma criança. Então, o que veio em seguida foi como brasa quente em seu rosto. Um homem de olhos azuis penetrantes havia pedido para que ateassem fogo a sua pele. Era apenas para lembra-lo do seu lugar e do lugar do sua mãe.
- Mãe? – Erik acordou, sobressaltado, sentindo o coração batendo freneticamente. Era o mesmo sonho que tivera, antes de Daphne entrar no seu quarto – Daphne.
Ele olhou para os lados, apenas para ver que estava sozinho e o dia havia amanhecido. Sentia-se pegajoso. O corpo transpirava e a pulsação do coração estava em seus ouvidos. Ele respirou profundamente, tentando acalmar seus sentidos. Era somente um sonho. Ele nem se recordava disso e também não tinha certeza se era real ou não. Ou uma lembrança de um passado distante. Mas, a dor era insuportável. Sentiu seu rosto pegar fogo. A pele chamuscando. O olhar sádico do homem que parecia mandar um rapaz fazer aquilo com ele. E esse rapaz tinha os mesmos olhos azuis do seu agressor, mas o garoto parecia em pânico. Ele estava chorando diante da situação, de ter usado um pedaço de pergaminho, para colocar fogo no rosto de Erik. Infelizmente, no seu sonho, Erik estava sendo segurado a força, por outra pessoa. O segurava com tanta força que ele não conseguia se mexer para se defender.
Parecia que ainda sentia o fogo lambendo sua pele. Era excruciante e doloroso demais. Sentia até mesmo a garganta apertando e o cheiro nauseante da pele sendo comida viva. Ele se levantou da cama, tentando respirar. Abriu a sacada, apenas para sentir o ar da manhã tocar seu rosto. Pode ver o chafariz e ao longe, a área do canteiro de rosas, perto do portão de saída da mansão. O que mais chamou sua atenção eram as rosas. Em tom vermelho. Aquela visão o deixou mais calmo. Ao menos a natureza tinha o poder de acalma-lo.
Erik resolveu que deveria sair do quarto. Não sabia que horas eram. Nem precisou se apressar em se vestir, pois alguém batera na porta. Ele pediu para entrar e se deparou com Richard, o valete. O homem o fitou com os olhos baixos, parecendo querer evitar fitar seu rosto. Foi então que se lembrou da mascara. A pegou no sofá, que estava no meio do quarto, e a colocou. Não poderia assustar o pobre homem com a exposição da sua pele dilacerada pelo fogo.
Richard o ajudou a se vestir e disse que os irmãos Harris estavam aguardando ele para tomar o café da manhã. Ele agradeceu pela ajuda e foi direto para a sala que usavam para fazer o desjejum matinal. Era no andar térreo da mansão. Erik precisava descer três lances, até chegar onde precisava. Passando pelo corredor, antes de chegar à sala do café da manhã, ele escutou a risada de Daphne ecoar. Seu coração automaticamente disparou ao ouvir aquele som doce. Ficou atônito, sem entender o motivo para estar tão envolvido apenas pela voz dela. Não era como se estivesse realmente apaixonado. E não estava. Iria entrar na sala, decidido a cumprimentar a todos, com educação. Mas ele parou próximo à porta de entrada e ficou ruborizado ao se lembrar dela no seu quarto. E de ele estar por cima dela, segurando seus pulsos, em sua cama. Aquilo fora totalmente inapropriado. Se estivesse consciente, nunca teria feito isso. Contudo, ao sentir a presença de alguém na sua cama, tentou atacar, por puro instinto de defesa. Quando sentiu o perfume floral dela, soube que não se tratava de um inimigo. E pela voz, sabia que era ela. Esperava que pudessem esquecer o incidente. E conversaria com ela, aquela manhã. Pediria perdão e pediria a ela que nunca, em hipótese alguma, entrasse em seu quarto novamente ou no quarto de qualquer cavalheiro.
Ele se horrorizava somente de pensar nela entrando no quarto de outro homem. Um ciúme estranho se alojou em seu peito. Se algum homem pudesse vê-la trajada com aquela camisola fluida, despida das camadas de anáguas e do vestido, daria asas a imaginação. E tocaria em sua pele. Com certeza a beijaria. Iria deseja-la, tanto, que m*l poderia se conter. De repente, a gravata de Erik estava apertada de mais em seu pescoço. Ele a afrouxou um pouco, se sentindo quente demais por dentro. Algo estava errado consigo, mas o fato era que ele apenas fugia dos próprios pensamentos impuros sobre sua anfitriã.
Resolveu que deveria parar de postergar mais sua tortura pela manhã e entrou na sala. Os três irmãos Harris estava sentados à mesa do café da manhã, com mais uma pessoa, que Erik reconheceu. Era Antony Morgenstein. E ele conversava com Daphne, de forma desinibida. Algo que não agradou Erik. Ele sentia o sangue ferver nas veias somente pela visão do cavalheiro em questão.
- Bom dia – ele cumprimentou a todos e se sentou ao lado da cadeira vazia. Que mais precisamente, era ao lado de Daphne. Gostou de o acaso emparelha-los.
A mesa estava repleta. Havia arenque defumado, ovos mexidos, bacon, bolinhos açucarados, croissant, suco de laranja, um bule de chá, um bule que com certeza era com leite e outro com café.
- Bom dia, senhor – O senhor Harris o cumprimentou, cordialmente – Teve uma boa noite, eu espero.
- Na medida do possível – Erik respondeu.
Recebeu um olhar de soslaio de Daphne. Ela estava corada. Ele a fitou de volta, com um sorriso amigável. Não iria ficar bravo por ela se preocupar, mas deveria alerta-la quanto a sua atitude impensada. Ela não poderia se preocupar com outros homens, no futuro. Não seria bom para sua reputação, é claro. Era apenas uma mera preocupação por ela, o que sentia. E zelo.
- Que bom – o irmão de Daphne disse, com um sorriso amigável – Soube que vira conosco para Paris.
- Sim, eu irei – ele respondeu.
- Parece uma boa ideia. Acho que vou com vocês – lorde Derby disse, a frente dele – Acho que estou cansado de Londres, mais uma vez.
- Mas, você acabou de voltar – o senhor Morgenstein apontou.
Era um sujeitinho muito soberbo. E como se atrevia a dizer o que pensava? Erik não gostava dele, não mesmo.
- Antony, eu acho que preciso de novos ares, sabe. Sair um pouco da sufocante Londres – lorde Derby disse, com um olhar diferente. Parecia cansado – E como não há obrigações com a debutante aqui - ele olhou para Daphne de forma irônica - Não vejo porque ficar.
- E vão para qual finalidade a Paris? Se me permite perguntar - o senhor Morgenstein perguntou.
Erik queria dizer a ele que já era inconveniente fazer a pergunta, sabendo que talvez o anfitrião não quisesse responde-la. Daphne parecia desconfortável na cadeira, se remexendo e olhou para seu irmão, significativamente. Lorde Derby deu apenas um aceno com a cabeça, sem parecer meramente incomodado pela pergunta do cavalheiro a frente dele.
- São só assuntos familiares. Nada demais - ele respondeu e parecia dizer com essas palavras que não queria ser incomodado com o assunto novamente.
O senhor Morgenstein apenas deu de ombros, como se o assunto em particular não o interessasse de fato. E era melhor que não. Erik sabia que a reputação da prima dos irmãos Harris corria perigo. O fato curioso era se lembrar dessas trivialidades sociais e não lembrar quem era e qual era seu passado. Estava aos poucos recuperando alguns fragmentos de lembranças, mas que não confiava na veracidade de tudo aquilo que se recordava. A única coisa que tinha certeza era da sua aptidão musical. Isso já estava mais que comprovado pela tarde de ontem, em companhia de Daphne. E essa lembrança o fez perguntar se ela estava bem, devido ao que aconteceu na madrugada, mas não citou o assunto. Ela apenas lhe deu um aceno gracioso e sorriu, timidamente, dizendo que estava perfeitamente bem. Ele queria questiona-la mais, mas o senhor Morgenstein exigiu a atenção da dama, cessando qualquer interação entres eles. Erik tentou não ficar contrariado, afinal, não devia dar qualquer esperança a ela, nem a si mesmo. Ele não iria se envolver com nenhuma dama, sem saber quem era. E também, não pensava em se prender por ninguém. Mas, ao ver Daphne corar e sorrir para o cavalheiro ao lado dela, por ele ter feito uma observação espirituosa, ele apertou o garfo com força demais.
- O senhor está bem? - o senhor Harris perguntou, com um olhar estudado para Erik.
- Sim, estou perfeitamente bem - ele respondeu, olhando nos olhos verdes água do rapaz. Eram mais claros do que os de Daphne. E eram limpidos.
- Parece que esta prestes a fincar o garfo em alguém - ele apontou com a cabeça.
Erik olhou para o garfo em sua mão e percebeu que o apertava com força considerável. Largou-o sobre a mesa e tentou se conter. Por que estava tão irritado? Não deveria nem pensar em Daphne como sua, mas seu inconsciente não parecia concordar com isso. Estava inflamado demais pela presença dela. Talvez, devesse se retirar e se recompor. Estava quase se despedindo dos anfitriões, sem ao menos tocar na comida, quando escutou o convite do senhor Morgenstein, para um passeio a cavalo do Hyde Park. Daphne aceitou, exultante.
- Eu poderia participar desse passeio? - Erik se viu perguntando e se sentiu um verdadeiro i****a. O que estava tentando fazer? Era o que se perguntava.
Daphne o fitou desconsertada e sorriu amarelo.
- É claro que sim - ela respondeu, mas não parecia tão efusiva - Desde que não se incomode por eu guiar meu próprio cavalo.
- A senhorita monta? - ele perguntou, surpreso. Afinal, damas não pareciam apreciar equitação, muito menos em Londres, onde elas eram vistas e avaliadas pela sociedade.
Ela arqueou as sobrancelhas, com um olhar afiado.
- Sou um excelente amazona - ela respondeu, com um tom confiante.
Erik pode escutar um risada abafada. Olhou de soslaio e pode ver seus irmãos mordiscando os lábios. E o senhor Morgenstein parecia levemente pálido e com o olhar assustado. Algo estava errado ali.
- Bom, e a senhorita monta como uma dama deve fazer, não é o caso? Com uma cela especial para mulheres - ele comentou.
Ela o fulminou com os olhos.
- Infelizmente, aqui na cidade sou obrigada a algo tão limitante quanto essa cela - ela respondeu, irritada - E o senhor monta? Quero dizer...
- Eu não sei - ele respondeu, mas sem se abalar pela pergunta.
- Eu sinto muito, não deveria ter perguntado - ela disse, corando e baixando os olhos.
- Não há problema algum em perguntar - ele disse, sincero, pegando a mão dela na mesa e a apertando. Ela sorriu e dessa vez era um sorriso caloroso. Ele sentiu a pulsação acelerar, de repente.
Notou que o senhor Morgenstein fitava os dois com um olhar critico. Talvez, enciumado? Pior para o cavalheiro. Pois, Erik estava se colocando em uma disputa naquele instante, sem conseguir se refrear. Iria roubar a atenção de Daphne para si. Quem aquele sujeito pensava que era, afinal?
- Bom - o senhor Morgenstein pigarreou. E Erik ainda não havia soltado a mão de Daphne, que não parecia se importar. Os seus irmãos apenas olhavam para Erik com um olhar estranho e ele resolveu soltar a mão dela, antes que tivesse problemas maiores - , podemos ir ao passeio, senhorita Daphne?
- Sim, com certeza. Senhor Erik, gostaria de terminar seu café e nos encontrar no Hyde Park? - ela perguntou, olhando diretamente nos olhos dele.
Ele iria dizer que não tomaria café, pois sua fome havia passado, pela excitação de ver Daphne montar em um cavalo. Mas, o senhor Morgenstein respondeu por ele.
- Não vejo porque incomoda-lo. Ele nem ao menos fez seu desejum. Pode ficar descansado senhor, que eu mesmo cuidarei da senhorita Daphne no parque. E o senhor pode nos encontrar quando desejar.
Lorde Derby e o senhor Harris acompanhavam a trama toda, como se estivessem vendo uma partida de tênis e apostavam mentalmente que iria levar Daphne ao parque e ser seu acompanhante.
- Não se incomode comigo. Eu irei agora mesmo. Com certeza o senhor pode cuidar de Daphne. Mas, quero estar por perto, para caso aconteça algo - Erik disse, já se levantando da cadeira.
O senhor Morgenstein fez o mesmo, pressionando os lábios, claramente irritado pela intromissão de Erik. O que o fez ficar mais regozijado. Iria afasta-lo de Daphne, afinal, parecia um sujeitinho esquecível e além do mais, parecia ser um libertino. Ela não precisava daquelas atenções desnecessárias. Daphne olhou para os dois atônita.
- Hum...então, vamos, senhores - ela disse fracamente.
Ao mesmo tempo que se levantava, os dois cavalheiros tentaram puxar a cadeira para ela. Erik permitiu que o senhor Morgenstein fizesse isso, antes que causasse mais animosidades dentro de uma casa que ele era apenas um convidado e que seus anfitriões estavam cuidando dele, sem cobrar nada. Não deveria ser deselegante. Sabia disso, no seu intimo. Em seguida, os três sairam da sala do café da manhã.
*
Diante daquela cena, vendo os três saírem da sala do café da manhã, os dois irmãos Harris se entreolharam, pasmos, mas depois, riram.
- Parece que Daphne estava fazendo Erik comer na mão dela, como um passarinho ou um cachorrinho - Charles comentou, rindo.
- Eu estou prevendo problemas pela frente, irmão - Jonathan disse, mudando sua expressão alegre para preocupada - Antony não vai aceitar tão fácil a recusa de Daphne. Ele quer desposa-la.
Charles mordeu os lábios, tenso.
- Ela não o quer, John. Eu já lhe disse isso. Diga que ela não se casara no momento. Invente qualquer coisa. É o melhor para ela - ele pediu, pois de fato, se preocupava com a felicidade dela. Na verdade, com a dos seus dois irmãos. Eles eram sua família e tudo que restou para ele, depois de perder pai e mãe em uma idade tão tenra.
- É o que disse a ele. Mas, parece que esse ano ele vai tentar passar por cima de todos os pretendentes. Todos anos ele a pede em casamento e eu me recuso a conceder, sem que ele consulte Daphne. E parece que ele não tem coragem ainda de pedir sua mão.
- Com certeza é por medo da recusa - Charles disse, pensando em si mesmo.
- Pode ser, Charles - Jonathan disse - Pode ser.
Charles fez o mesmo que Antony, ao pedir Flora em casamento, quando ela completou quinze anos. Ela seria uma esposa perfeita, ele sabia disso. Gostava dela, de uma forma terna e fraternal no início. E sabia que uma boa amizade seria o caminho para a felicidade conjugal. Por ver seus pais sofrendo, pensou que faltou diálogo entre eles. Então, queria uma esposa amiga e ele seria seu melhor amigo. Por isso, pensara em Flora, pois sempre fora amigo dela. Depois de pedir sua mão a seu tio, visconde Severn, ele comunicou Flora, sem ao menos perguntar se ela o queria. Ela simplesmente acatou isso, sem ao menos demonstrar entusiasmo, mas o tratou com carinho de sempre. E ele acreditou que tudo estava bem. Então, ela fugiu, o deixando. O que havia de errado, afinal? Ele não era bom o suficiente?
Eles terminaram o café, depois daquela conversa e foram resolver a questão da viagem até Paris. Charles apenas esperava que não fosse tarde demais e ele pudesse salvar Flora. E fazê-la ver que ele a amava de verdade e que nunca a machucaria, se ela o escolhesse.