Não era algo que Jonathan estava esperando ouvir dos irmãos, quando chegou em sua casa, para relaxar e tomar um brandy. Talvez, conversar um pouco com seu convidado ilustre. Mas, ali estavam Charles e Daphne, com olhares exasperados, dizendo que precisavam ir a Paris. Aquilo não poderia estar acontecendo.
- E a temporada, Daphne? Não está pensando nisso? – Jonathan perguntou, sentado em sua cadeira do escritório – Sinceramente, não acredito que seja boa ideia. Que Charles vá então encontrar Flora. Mas, não há mais como remediar a situação dela. Ela já fugiu.
- É só mantermos a boca fechada – Charles disse entredentes – Não vai espalhar para meio mundo, vai irmão? Nem para seus colegas no White’s?
- Como se eu não soubesse guardar um segredo – Jonathan disse, revirando os olhos e tamborilou com os dedos sobre a mesa de madeira maciça – Sinceramente, eu não vejo por que ir atrás de Flora. É dinheiro desperdiçado. Uma viagem que não faz o menor sentido.
- E quanto as suas viagens sem sentido, John? – Charles provocou.
Daphne segurou o irmão pelo braço, tentando acalma-lo. Mas, ele parecia em fúria. Não que Jonathan se importasse. Estava mais preocupado com o que faria para contornar sua situação r**m com sua amante, lady Cavendish. Ela parecia insaciável. E ele já não sabia mais o que fazer para se afastar dela. Se fizesse isso, ela contaria ao marido o que os dois fizeram. E com certeza, seria convocado a um duelo ao amanhecer. Poderia ser ótimo de pontaria, mas não correria aquele risco.
Ele não queria mais se envolver com ela, mas sua amante era exigente. Queria sua atenção a qualquer custo. E ele tentou compra-la com joias, com jantares, com sua amizade. Ele somente não queria mais se envolver, mas parecia enredado dessa vez. Obrigado a permanecer ao lado dela, até que ela se cansasse dele.
- Eu já fiz muitas viagens, sim de fato – Jonathan disse, dando de ombros – Se quer tanto ir, vá.
- Mas, quero Daphne comigo – Charles disse – Ela pode me ajudar a convencer Flora a voltar e nos casarmos.
Jonathan revirou os olhos, cansado daquela conversa. Ele massageou as têmporas com as duas mãos.
- Está bem, leve nossa amada irmã. Quer levar também algo mais? Um escudo e uma lança? Não, deixe-me ver, uma espada? – ele provocou.
- Jonathan, isso não é brincadeira para mim – Charles protestou – É muito sério. Eu amo Flora.
- Ama mesmo? Ou está com despeito por ela ter escolhido um advogado a você? – Ele estava sendo duro, pois, afinal, Charles estava se colocando em ridículo ao seguir uma jovem que não o queria. E Jonathan não era delicado tentar dissuadir qualquer pessoa de uma empreitada infrutífera. Conselhos não eram do seu feitio.
Charles bufou e quase avançou contra o irmão. Se não fosse por Daphne, ele aceitaria um murro em sua face.
- Saiam do meu escritório. Quero pensar. Tem minha permissão para ir até a China se quiserem – ele os dispensou com um gesto da mão.
- Você está sendo muito e******o, John – Daphne disse magoada – Um dia vai amar alguém e vai ver que seu coração será despedaçado pela dama que o rejeitar. Vai sentir na pele.
Jonathan não se comoveu com aquele discurso piegas. Deixou que seus irmãos saíssem, para relaxar sobre o assento da cadeira de couro.
- Que dia – ele murmurou, cansado – Como se eu fosse me apaixonar. Pff...Daphne não me conhece, realmente.
Ele estava em um nível de estresse alto. Não conseguia pensar bem naquele dia. Estava preocupado pela sua vida. Por deixar os seus irmãos órfãos, caso lady Cavendish cumprisse sua ameaça. E havia um segredo que somente ela sabia e ele temia ser descoberto. Era comum participar de festas onde era permitido ser mais livres. Onde mulheres casadas se encontravam com seus amantes, ou apenas se divertiam no local, sem serem julgadas por isso. Todos iam de mascara e não diziam seus nomes, é claro. Somente o anfitrião sabia quem eram os convidados. Jonathan já participara de uma, onde um modelo despido era pintado por observadores e damas ditas respeitáveis estavam tendo relações mais intimas com cavalheiros, em divãs espalhados pelo cômodo. E ele era um desses, que apenas aproveitava o anonimato, para fazer o que desejava. O único problema era que se excedeu um pouco além do esperado e lady Cavendish presenciou a cena. Ela ficou tão irada com ele que ameaçou a denunciar seu segredo, se ele se recusasse a voltar com ela. E se isso não fosse o suficiente para prende-lo a ela, iria contar ao seu marido sobre a traição. E lorde Cavendish iria pedir uma reparação, com toda certeza. Então, seria o fim de Jonathan e seus irmãos estariam sozinhos.
Ele respirou fundo, pensando que deveria ao menos confidenciar isso com Charles. Afinal, ele seria o herdeiro, se acabasse falecendo em um duelo. Mas, infelizmente, agira de forma grosseira com Charles e Daphne. Levantou-se da cadeira e resolveu que iria conversar com Charles, ao menos. Só não esperava encontrar Erik no corredor, que fez uma reverência para ele.
- Boa noite, Erik – Jonathan disse, com um sorriso jovial, tentando camuflar seu humor caustico – Como passou essa tarde?
- Muito bem, milorde – ele disse – E milorde já sabem da empreitada que seus irmãos farão?
- Ó sim. Eles amam sua prima Flora. É compreensível que queiram ajuda-la – Jonathan respondeu – Infelizmente, a reputação dela estará em frangalhos, se continuar assim. Nossa família tentara não se afastar dela, mas temo por Daphne. Ela não se recuperara se falar com a prima. Mas, não posso fazer isso com ela, nem com Flora.
- São as regras sociais – Erik disse – Não que eu concorde com isso. Mas, infelizmente, Daphne se colocara em perigo se estiver perto da prima.
Jonathan assentiu. E era mais um problema para ele resolver. Ele não sabia nem por onde começar.
- Você viu Charles, enquanto seguia por aqui, Erik? Preciso conversar com ele.
- Acredito que ele esteja na sala de estar, com sua irmã, senhorita Daphne – Erik respondeu.
- Ah, sim, obrigado. E se sinta a vontade Erik. Espero que esteja sendo bem tratado.
- Estou sim, milorde.
Jonathan assentiu e saiu à procura do seu irmão. Precisava resolver rápida aquela questão. Deixar claro seus medos e incertezas. Enquanto isso, Erik pensava na mudança drástica de humor do seu anfitrião. Algo não ia bem, de fato.
*
Daphne precisou deixar Charles conversar com seu irmão a sós e saiu da sala de estar. Detestava quando eles tinham algum segredo a compartilhou, o qual ela não poderia saber. Então, Jonathan fechou as portas com um ar de advertência para ela. Daph não deveria escutar atrás da porta, é claro. Mas, não era como se ela fosse obedecer a seu irmão. Tentou ouvir a conversa deles, com a mão em concha, mas não ouviu absolutamente nada. A madeira da porta era reforçada, o que dificultava muito escutar qualquer coisa. Então, ela teve a ideia de pegar um copo de vidro na cozinha. Talvez, colocando sobre a parede, conseguisse escutar o que diziam. Já fizera isso inúmeras vezes, quando eles se trancavam no escritório. Já conseguira ouvir boa parte das suas conversas, mesmo com som abafado.
Pensando nisso, ela seguiu pelo corredor e quase esbarrou em Erik, que estava próximo.
- Era impressão minha, ou a senhorita queria ouvir atrás da porta? – ele perguntou, com o cenho franzido, segurando-a pelo cotovelo.
Ela ficou vermelha e se afastou do seu toque.
- E se eu estivesse? – ela respondeu com uma pergunta e deu um sorrisinho inocente.
Erik riu e balançou a cabeça.
- Sinceramente, eu deveria reforçar a atenção na senhorita. Quem sabe o que é capaz de fazer – ele disse, em tom jocoso, cruzando os braços sobre o peito.
- Ora, mas eu não faria nada, em absoluto – ela disse, fingindo estar escandalizada – Sou uma dama comportada.
Erik apenas sorriu, diante do comentário dela.
- Acredito que seja sim – ele disse em tom ironico e a fitando profundamente.
Daphne ao sentir seu olhar sobre ela sentiu algo quente por dentro. De repente, era como se o ar no corredor estivesse denso. Será que ela estava passando m*l? Nunca sentiu nada parecido, quando outros cavalheiros a olhavam. Mas, Erik a fitava com um olhar intenso, parecendo querer desvenda-la.
- Senhor...eu...- ela disse, quebrando o transe em que se encontravam. Estava envergonhada, pelo olhar dele. Mas, ao mesmo tempo, agradada – Gostaria de me acompanhar até a outra sala? Podemos ler juntos, para passar o tempo.
Ele parecia indeciso, de repente.
- Eu acredito que vou me recolher agora. Peço seu perdão – ele fez uma reverência e deu as costas para ela.
Daphne suspirou. O que havia de errado com ele? Por um momento, ela pensou que teria sua atenção e percebia seus olhares, que eram diferentes do que da maioria dos cavalheiros. Talvez, Antony a fitasse da mesma maneira, mas flertando, fazendo comentários sagazes, às vezes. E principalmente, elogiando sua beleza. Mas, havia algo que diferenciava ele de Erik. Antony nunca fugia da sua companhia. Estava sempre tentando entretê-la. E até o momento, Erik evitava estar perto dela. Salvo exceções. Ela tentou não ficar magoada, enquanto seguia pelo corredor, para ir ao seu quarto e tentar ler alguma coisa. Não tinha sono. E ainda mais por seus irmãos estarem discutindo um assunto particular. E Erik não saia da sua mente. Ele era misterioso, profundo e cheio de segredos, que nem mesmo ele sabia. E ela queria desvenda-lo.
*
Daphne despertou com um choro alto, de repente. Ficou sobressaltada. Fazia muitos meses que não ouvia aquele choro. Aquele lamento estranho e espectral. Era como se sua casa fosse realmente habitada por espíritos que não conseguiam repousar. Isso já fazia anos. E nesses anos, ela escutava aquele lamento, desde a morte do seu pai. Nunca deu atenção, pois nunca viu nada diante de si. Nem uma aparição fantasmagórica. Apenas o choro. E quando ela saia do quarto, para procurar o som, simplesmente o choro cessava. Era irritante. Não chegava mais a ser assustador para ela.
Daphne sempre fora curiosa demais, para seu próprio bem. Então, quando o medo inicial se dissipava, ela se enchia de coragem e investigava tudo que lhe fosse interessante. E naquela noite, ao notar que não era o vento açoitando do lado de fora, que poderia produzir o som de um grito ou choro, enganando os sentidos, ela saiu do quarto, apenas de robe, chinelos e camisola por baixo. Não era nada indecente, de fato. Mas, uma dama jamais deveria aparecer assim fora do seu quarto, em qualquer hora do dia. Não era uma regra que ela seguia. E não iria seguir. Sua tia teria uma sincope se a visse daquela maneira. Graças aos céus, ela estava em sua casa. Somente sentiria falta da sua pequena prima Louise. Ela alegrava seus dias.
Após abrir a porta do quarto, Daphne seguiu pelo corredor e mais uma vez, o choro cessou. Ela pensou em voltar para debaixo das suas cobertas quentes, mas o choro voltou mais uma vez. Ela seguiu o som e estava em frente a uma porta. A porta do quarto de um hospede. Ela sabia perfeitamente que aquele comôdo fora designado a Erik. Mas, ao invés de se afastar e dar meia volta, ela simplesmente tocou na maçaneta fria. E de repente, o choro havia cessado. O certo era que ela deveria recuar naquele instante. Sabia que seria o correto a se fazer. E seria a ruina para ela ser vista no quarto de um homem solteiro. Contudo, mais uma vez, a curiosidade prevaleceu. Ela, então, girou a maçaneta da porta.
Daphne se deparou com Erik deitado sobre sua cama, com as cortinas do dossel da cama abertas. E ele estava resmungando algo. A visão dela demorou a se ajustar no escuro, então ela não poderia ver muito mais, devido à penumbra. E não era acostumada a sair com velas ou um lampião. Mas, podia ver a forma do corpo de Erik. E como ele se remexia na cama. E o seu choro era algo insuportável de se ouvir. Ela sentiu o coração opresso. Sentiu algo dentro de si, que precisava consola-lo. Seguindo seu instinto, apenas seguiu até a cama dele, sentando-se e tentou acorda-lo, tocando em seu ombro.
- Erik, acorde. Está tudo bem – ela disse com a voz calma.
Ele ainda lutava com algo invisível. Mexia seus braços, tentando parecer se defender de algo. Seu grito de horror, de repente, a sobressaltou. O coração dela estava disparado.
- Erik – ela tentou chama-lo, com a voz tremula.
Ele parecia ter despertado, mas ainda estava em um estado em que seu raciocínio ainda não tinha voltado. Talvez, fosse sonambulo, devido a atitude que tomou em seguida, agarrando-a pela cintura e a derrubando sobre a cama. Ela se encolheu. Acreditou que ele a mataria naquele instante.
- Erik, sou eu, Daphne – ela disse, com a voz agoniada, devido ao fato de ele estar parecendo perigoso – Por favor, acorde.
Ele a segurava pelas duas mãos. E estava apenas respirando profundamente. Daphne ficou constrangida, por estar em sua cama. Nunca em sua vida ficou tão perto de um homem. Sentia-se desconfortável por estar naquela posição e temia que ele tentasse fazer algo r**m contra ela.
- Quem...o que...- ele disse com a voz rouca – Daphne?
- Sim – ela respondeu.
Ele a soltou e saiu de cima dela, como se estivesse pegando fogo. Ela se levantou da cama, sentindo o rosto ruborizado. E se sentia humilhada por ter ficado naquela posição. Abraçou o próprio corpo, tentando conter o tremor que a perpassava. Por um momento pensou que ele lhe faria algum m*l.
- O que faz aqui, por Deus? – ele perguntou, irado – Eu poderia ter a matado. Poderia...meu Deus...
Ele parecia transtornando e começou a andar de um lado a outro, perto da cama.
- Eu só escutei um lamento. Um choro. E vim verificar...eu não queria incomoda-lo – ela tentou se justificar. Mas, ouvindo a si mesma, percebeu o quanto sua justificativa era patética e ao mesmo tempo, percebeu que havia sido inconveniente por entrar daquela maneira no quarto dele. E quebrou todas as regras do decoro, até mesmo desrespeitou a privacidade dele – Eu sinto muito por isso. Eu...
- Só, saia – ele pediu em tom ríspido, parando de andar – E não comente isso com ninguém, por Deus.
- Sim...é claro...eu...- ela passou por ele, indo direto para a porta e estacou. Queria perguntar o motivo do choro. Queria entender mais sobre ele. Mas, sabia que sua pergunta tornaria a situação piorar do que já era.
- Não ouviu senhorita? Saia já! Antes que estejamos em apuros. E ainda vai me colocar em maus lençóis – ele disse, em um tom severo.
Ela assentiu. Se afastou com os passos incertos. Saiu do quarto e fechou a porta atrás de si. Tremia dos pés a cabeça. Não sabia que estava tão assustada, mas estava. Ele parecia fora de si, quando a segurou na cama, como se estivesse prestes a ataca-la. Ela não sabia como iria encara-lo pela manhã. Mas, teria que engolir o próprio orgulho e fingir que nada aconteceu.