01 Mia
Amor, palavra usada para descrever um sentimento semelhante ao sofrimento.
Basta apenas uma única decepção para mudarmos nossa cabeça do avesso. Mas e quando sofremos além da nossa capacidade, o que aconteceria com os nossos pensamentos?
Não consigo mais deixar alguém se aproximar, é difícil. Minha vida virou um tipo de boomerang, vai e volta e nunca mais para, como uma dança cujo o passo é o mesmo. Fazer pequenas tarefas do dia a dia virou uma tortura, esse é o significado de adolescência, a triste transição de criança para adulto.
— Está namorando? — Ruan questiona quebrando o silêncio que se formava entre nós.
— Você não tem que saber da minha vida. — Respondi rude.
Não tenho namorado, nunca tive.
Meu pensamento sobre ter um namorado é ter alguém que realmente amamos, alguém no qual nos sentimos confortáveis, alguém que faríamos qualquer coisa apenas para ver um sorriso em seu rosto, uma história de amor de verdade só tem brilho quando existe um amor de verdade envolvido. Não precisamos de alguém para termos uma história de amor verdadeiro, para termos uma história de amor verdadeira só precisamos do nosso amor próprio... apenas!
— Se você tivesse um homem para te governar, você não seria birrenta desse jeito. — Ruan comenta.
— Homem para me governar? Vá se f***r! — Esbravejo.
Em um movimento rápido Ruan tira a mão direita do volante, cerra o punho e bate contra o meu rosto tão rápido ao ponto de não me deixar reagir.
Ele volta a dirigir novamente enquanto tento recuperar a consciência ainda acordada, sinto gosto de sangue nos lábios e os toco. Quando olho a ponta dos meus dedos, os vejo brilhando em vermelho.
— Você é um co...
— Cale a merda da boca se não quiser que eu abra a porta e empurre você para fora com o carro em movimento. — Ele esbraveja me interrompendo.
É preciso ter coragem para amar, e escolher a pessoa certa que se quer amar, o amor verdadeiro pode até existir mas não se pode escolher qualquer i****a como minha mãe escolheu Ruan.
Alguns casam por amor, outra casam por uma farça, uma máscara que usam para esconder quem elas são.
Como uma adolescente como todas as outras, meu maior desejo é mudar e consertar o passado, fazer o que eu já deveria ter feito há muito tempo, concertar coisas que eu não tinha coragem, trazer a verdade para as pessoas cegas, ou que na verdade se fazem de cegas.
Eu olhava para as gotas de chuva escorrer pela parte de trás do vidro do carro enquanto apoiava meu cotovelo na porta, Ruan dirige o carro com suas expressões faciais de sempre, raiva até dele mesmo. Velho, amargurado.
— Qual o motivo deste rosto tão zangado? — Questionei irônica.
Ele elevou o rosto para o lado e me fuzilou apenas com o olhar.
— Você não está perguntando isso, está? — Sua voz saiu fria e autoritária. Quem vê até pensa que é um homem forte.
— Estou, porque você não tem motivo algum. Até parece que foi você que acabou de tomar um soco de um homem adulto.
— Você mora na minha casa, quando se sustentar sozinha você faz o que quiser. Só reflita. — Seu tom de voz saiu ameaçador.
— Se é por isso, eu vou embora. Vou morar sozinha e conseguir um emprego.
— Pode tentar se quiser, mas se acha que irei permitir isso está enganada. — Riu sem humor.
— Não entendo você, sabe? Por que você expulsou os seus filhos de casa mas quanto a mim você não quer que eu fique, mas também não me deixa ir. O que você realmente quer? Qual o seu problema?
— Você é diferente dos meus filhos.
— Eu não sou sua filha, essa é a diferença. — Franzi o cenho.
— É exatamente isso. — Ruan me encara depois de parar o carro na frente de casa.
Saio do carro e bato a porta indo em direção à porta de casa.
Encaro a enorme porta de madeira e giro a maçaneta de uma vez pisando fundo para dentro de casa.
— Mia! — Minha mãe me chamou terminando de descer os últimos degraus da escada. — Ouvi o carro do Ruan chegar e desci correndo.
Eu a ignorei e subi os 3 primeiros degraus da escada. Sinto um puxão no braço e sou arrastada até o sofá, sendo arremessada sutilmente contra ele.
Ruan abriu a porta e a bateu com força me dando um mine susto e então ficou parado me olhando com um olhar que pode matar.
Enquanto minha mãe sentou do meu lado, fiquei o encarando desejando poder acabar com a vida dele.
— Onde você esteve nesses 3 últimos dias? — Minha mãe questionou calma, mas eu sabia que ela só estava segurando toda a sua raiva e não queria descontá-la toda de uma vez.
— Eu estou bem, isso é o que importa.
É claro que eu estava mentindo, não poderia falar que estava na festa da Jess e acabei me empolgando ficando lá por mais uns 3 dias.
— Ela não vai falar. — Ruan se intrometeu.
— Você não tem nada haver com a minha vida, Ruan. Você não precisa saber de nada. — Retruquei.
— Você não me confronte outra vez. — Ruan falou em um tom de voz ameaçador.
Minha mãe me encarou e em seguida encarou ele.
— Seu lábio está sangrando, Mia. — Minha mãe comentou.
Revirei os olhos rindo sem humor, Ruan por outro lado continuou com sua expressão normal. Minha mãe não assustava ele, até porquê, por que assustaria?
— Vá para o seu quarto, Mia. Conversamos depois. — Minha mãe ordenou.
Levantei começando a caminhar em direção à escada.
— Ainda não conversei com ela, Nádiah. Quem você pensa que é para dar as ordens sem meu consentimento? — Ruan resmungou querendo vim em minha direção, mas minha mãe o limitou com as mãos em seu peito.
— Você conversa com ela depois, está tudo bem. — O tom de voz da minha mãe já não era o mesmo, ela estava assustada agora por seu comportamento precoce. Não deveria ter dado as ordens antes de Ruan, não é?
Subi as escadas e fui direto para o meu quarto. Não ia acontecer nada de diferente, minha mãe tem medo dele. Ruan não tem medo dela.
No final, nada de novo acontece.
Eu sei que estou praticamente de ressaca, mas não sei se é uma boa idéia ficar em casa. É bem estranho dizer isso, mas acho melhor me arrumar e ir para a escola.
Acho muito melhor não ficar o dia inteiro em casa com Ruan furioso.