As famílias não são perfeitas, acho que todos sabem disso. Mas tem um certo limite do quanto elas podem ser imperfeitas, se passar desse limite quer dizer que já está fora do comum e alguém precisa interferir. Ninguém interfere, mas precisa.
Dinheiro não quer dizer absolutamente nada, Ruan é a prova viva disso. Mesmo sabendo todas as regras de etiqueta, e como administrar uma empresa, consegue ser um i****a sendo "pai de família". Fingindo ser, até porque maioria das pessoas ricas tem gente para fazer tudo, até para limpar a b***a deles se quiserem. Então o termo "pai de família" é uma grande mentira na realidade de uma família milionária.
Terminei de amarrar os cadarços e então desci as escadas até o andar debaixo.
Ruan estava sentado no sofá tomando uma caneca de capuccino bem amargo igual ele, estava com o notebook sobre as pernas digitando coisas que julgo ser do trabalho dele.
Ouviu meus passos ou então sentiu meu cheiro e me olhou de soslaio.
— Vai à escola? — Questionou.
— É. — Mordi a bochecha tentando não dar a resposta que eu queria.
— Eu te levo, já estou de saída também. — Falou fechando o notebook.
— Não precisa. — Neguei balançando a cabeça enquanto dava passos automáticos para trás.
— Já falei que vou te levar. — Elevou o tom de voz.
— Está bem.
— Vamos. — Ruan pegou uma chave em cima da mesa de centro e a colocou no bolso, então saiu andando em direção à porta.
— Onde está minha mãe? — Perguntei enquanto o acompanhava.
Ruan parou de caminhar elevando o olhar para trás me encarando. Fiquei imóvel, parada com uma enorme vontade de recuar.
— Ela está bem. — Ele me olhou torto e então voltou a caminhar para fora de casa.
"Ela está bem" isso poderia significar muitas coisas.
Na estrada íamos em completo silêncio, eu encarava a janela temendo olhar para ele sem querer.
Os movimentos dele me assustavam, qualquer som que ele emitisse.
Ele tossiu, meu corpo deu um pulinho automático pelo susto. Eu olhei para o meu peito e podia ver ele mexendo, saltando por causa do meu coração acelerado.
— Conversei com a sua mãe. — Ruan comentou quebrando o silêncio.
— Ah... E então?
— Então decidi que você só sai com um motorista, e ele vai ficar a espreita. Você não terá mais a liberdade de sair sozinha. — Ruan explicou batucando os dedos no volante normalmente.
— Mas... Isso é sério?
— Você fugiu de casa por 3 dias, Mia. Isso não é sério o bastante? — Ele me encarou sério.
Abaixei o olhar ficando em silêncio.
— Você não tem maquiagem?
— Como? — O encaro sem entender, ele gesticula com o indicador para sua própria bochecha.
Olho no retrovisor do carro vendo minha bochecha roxa, quando saí de casa não estava assim.
— Tenho umas na mochila. — Respondi.
— Ótimo.
Andei pelo corredor até o meu armário, vendo as pessoas em volta me olharam torto e outras por curiosidade.
A menina rica e mimada que sumiu por 3 dias, que não tem preocupações e nem problemas para resolver está de volta. Tenho certeza de que é isso o que pensam de mim.
— Onde você estava, sua maluca? — Kelly surge de trás da porta do meu armário quando a fecho.
— Por aí. — Respondi sem muito humor.
— Quero saber de tudo, você vai me contar tudo. — Ela fala me arrastando pelo braço até a sala de aula.
Acho que ninguém da direção vem até mim me dar bronca ou me dar sermões, quem afrontaria a "filha" do Ruan?
— Olha quem está de volta! — Ben gritou quando apareci na porta com Kelly.
Gritaram e assoviaram batendo palmas enquanto eu caminhava até minha carteira, meu lugar naquela sala que estava sendo ocupado por mim outra vez.
— Foram apenas 3 dias, não foram 3 meses. — Elevei o tom de voz rindo divertida.
— Infelizmente!
Encaro o outro lado da sala procurando quem foi a i****a que falou isso, mas não encontro.
— Se não estam felizes com a minha volta, cortem os pulsos. Não me importo, e estou de volta mesmo assim. — Apenas respondi por alto mesmo sem saber quem era.
— A Nádiah e o Tio Ruan procuraram você até debaixo da terra, maluca. — Kelly comentou. Ruan é tio dela.
Olho para a porta vendo o professor de História se aproximando da sua própria mesa e me olhando no processo.
— Todos em seus lugares. — Ele ordenou. — Bom dia, turma. Mia!
— Bom dia, professor. — Cumprimentei de volta.
Kelly e eu nos conhecemos em um almoço em família, eu era nova na cidade. Ela sendo sobrinha do Ruan seria uma amizade perfeita, segundo minha mãe e Ruan.
Nos demos bem no começo, acreditei que ela fosse realmente uma boa amizade. Ela me apresentou ao Ben e outros amigos, se eu me afastar dela, fico completamente sozinha.
Sinto raiva dela, mas sinto ainda mais de mim por ter que aguentar isso. Não posso me afastar dela, Kelli destruiria minha vida e faria da minha vida um inferno.
Sei que talvez pelo menos um dos nossos amigos deve gostar de mim e da minha amizade, mas só por gostarem muito da Kelly e por ela ser quem é, se afastariam de mim sem pensar duas vezes.
Kelly mudou meu jeito de pensar, quando cheguei na cidade eu era uma menina boba e ingênua. Ela me ensinou que devemos fazer aquilo que nos faz feliz sem pensar no amanhã, e talvez ela estivesse certa.
Não a entendo, as vezes ela parece ser a pior garota que já tive por perto e as vezes também parece ser a melhor.
Kelly me faz ir ao céu, me faz sentir a melhor garota do universo. Me faz sentir no topo do mundo.
— Os pais da Jess ficaram uma semana fora, então quando ela fez a festa e convidou todo mundo, a gente se animou até demais, sabe?
— E então ficaram lá por 3 dias? — Kelly questionou.
— Sim.
— O trabalho que a Jess não vai ter para deixar a casa inteira em ordem antes dos pais dela chegarem. — Ben gargalhou.
— Foi o que eu acabei de pensar. — Kelly riu também.
Forcei um riso também ficando aérea logo em seguida, olhando as pessoas em volta caminhando pelo refeitório.
— Mia? — Ouço alguém me chamar. Olho para os lados e vejo Jess sentando conosco a mesa.
— Hum?
— Você está no mundo da lua. — Ben comentou me analisando.
— Ah, eu...
— Diego está perguntando por você. — Jess fala com um sorriso de canto me interrompendo.
— Diego? — Kelly repete enquanto Ben e ela se entreolham sorrindo.
Aderi o hábito de agir como se nada tivesse acontecido e ir embora, então depois dar o fora quando vierem atrás de mim.
Não vejo porquê permitir que que se aproximem demais, não gosto de nenhum. Nenhum tem nada de especial, não consigo me interessar e nem sonhar comigo vivendo um romance clichê.
Relacionamento monogâmico não existe, é só um disfarce para aqueles que fingem que sentem algo exclusivo por alguém.
— É um garoto que a Mia estava na festa que rolou na minha casa. — Jess explicou.
— A Mia não falou de nenhum Diego. — Kelly sorriu para mim como se fosse algo muito bom um Diego ter cruzado o meu caminho.
— Porque não é ninguém importante. — Dei de ombros.
— Não? — Jess me encarou com uma sobrancelha arqueada.
— Não. — Afirmei. — Se ele perguntar por mim, diga que me mudei. Que vou casar ou sei lá mais o quê.
— Está bem. — Jess assentiu pausadamente me encarando confusa ainda.
Olho para Kelly e Ben, vendo os dois me olharam com as sobrancelhas arqueadas também.
— O que foi? — Balancei a cabeça.
— Nada, só achei que você tivesse gostado dele. — Jess diz.
— Achou errado.