03 Mia

1592 Words
As vezes temos que aguentar algumas coisas para mantermos nossa reputação e a da nossa família intactas. Caso contrário, o seu bem estar, sua liberdade e sua satisfação consigo mesmo não importa para as pessoas, problemas dentro da nossa família passam despercebidos, mas problemas da família de outras pessoas são como uma estampa de roupa colorida do carnaval, jamais passará despercebido, então temos que manter as aparências ao máximo. No meio da madrugada acordei com gritos, gritos altos de desespero. Pulei da cama assustada, identifiquei instantes depois que eram da minha mãe. Ruan devia estar brigando com ela. Meu corpo sempre travava por medo, eu não sabia o que fazer para ajudar mas também não ajudaria se ficasse aqui parada. Desci as escadas correndo, tropecei algumas vezes enquanto segurava no corrimão. Quanto mais degraus eu descia, mais os gritos ficavam alto. Terminei de descer os últimos degraus e cheguei até à sala de estar vendo minha mãe contra a parede e Ruan com suas mãos sujas em volta do pescoço dela a apertando enquanto a chacoalhava. Ela estava vermelha e quase sem forças já. Olhei em volta procurando por algo útil, encontrei um vaso decorativo em cima da mesa de canto. Corri e o peguei, corri até Ruan e quebrei o vaso na cabeça dele. Dei alguns passos para trás quando voou cacos de porcelana para todos os lados. Tudo ficou mudo de repente, tudo acontecia em câmera lenta. Era como se o mundo estivesse parando e Ruan fosse o único que estivesse em velocidade 2x. Ele virou para mim desnorteado e em questão de segundos eu já estava recebendo golpes no rosto. Tentei cobrir o rosto com os antebraços mas não era tão fácil assim, já que ele acertava meus antebraços agora. Ouvi minha mãe tossir com dificuldade por uns instantes, mas não estava mais conseguindo ouvir muita coisa. Só ouvia dor, e mais dor. — Solta ela! — Minha mãe gritou tentando empurrá-lo, ele permitiu se afastando. — Que c*****o! — Ruan resmungou. Minha mãe se aproximou de mim segurando meu rosto nas mãos analisando como estava. — Não precisava disso, Ruan! — Ela falava. — Dane-se, cale a boca se não quiser ficar igual. Quem mandou ela se intrometer nos meus assuntos. — Ruan esbravejou tocando a cabeça com os dedos e os vendo voltar ensopados de sangue. — Ah... Merda. Vou precisar pegar pontos. — Sua expressão se transformou em dor. — Por que se acha no direto de bater na minha filha? — Minha mãe enxugou algumas lágrimas que desciam de seus olhos sem querer. — Pode me maltratar, mas não faça o mesmo com a minha filha. — Porque ela mereceu. Está sempre se metendo onde não deve, olha. — Mostrou os dedos sujos de sangue. — Vou precisar pegar pontos. — M-Me inteometi sim! Você ia matar a minha mãe. — Esbravejei tentando levar o tom de voz, só tentando. Meu nervosismo não me deixava gritar sem gaguejar. — Cala a p***a da boca, Mia. — Ruan ordenou. — Ruan, não fala assim com ela. — Minha mãe pediu com seu tom de voz choroso. — Cale a boca você também, Nádiah. — Ruan gritou. — Quando eu... Quando eu melhorar, acabo... Acabo com você... Garota imprestável... — Dava para ver em seus olhos a sua fraqueza chegando, seus olhos escurecendo e ele desmaiando aos poucos. — Ruan!? — Minha mãe correu até ele segurando seu rosto e dando batidinhas para mantê-lo acordado, mas não adiantava. Ruan já estava desacordado. Era ridículo ver como a minha mãe quase foi brutalmente assassinada no meio da madrugada por ele, e como agora ela estava completamente desesperada por Ruan estar desmaiando. Isso mostra como mulheres que sofrem nas mãos dos seus maridos são, elas aceitam tudo e qualquer coisa caladas, porque com o passar do tempo passam a acreditar que não merecem muito. — Mia! Você tem que ir embora! — Minha mãe ordenava agora autoritária, não parecia mais a mulher indefesa que apanha do marido há uns instantes atrás. — Mia! Está me ouvindo!? Apenas assenti ainda em choque tentando processar o que estava acontecendo, foi tão rápido que estou duvidando da minha capacidade, estou duvidando de que seja um sonho ou não. — Então vá! — Ela gritou. — Ir embora? Por que? — Voltei a pensar agora, me dando conta de que ela está me expulsando de casa, não ironicamente. — Era ele quem estava nos agredindo. — Mia, me escute! Ruan vai tentar matar você quando acordar, ele pode denunciar você, fazer sabe-se lá o quê... Você sabe como o mundo gira em volta dele... — Ela estava ofegante e sem paciência com o celular na mão, provavelmente estava se preparando para ligar para uma ambulância e eu estava a atrasando. — Mas... Ruan não tem porquê... Eu só nos defendi... Eu... — Não conseguia parar de gaguejar. — Ele está com a cabeça aberta, por causa de um vaso que você quebrou na cabeça dele. Então, vá embora antes que eu mesma chame a polícia para você! — Minha mãe gritou comigo perdendo a paciência, estava com raiva, eu podia ver em seu olhar. Fiquei imóvel vendo sangue nas minhas mãos e nas dela. Olho para baixo e vejo cacos de porcelana por todo o chão. Ela não via ele como monstro, ela me via como monstro. Entre ele e eu, ela escolhe ele. — Eu espero que algum dia, ele acabe com você, e que não tenha ninguém por perto para te defender porque você mesma afastou todos. — Praguejo a encarando enquanto corro para o andar de cima a deixando em silêncio. Peguei algumas roupas enquanto o som das sirenes se aproximavam, era tudo uma correria. Não tinha tempo para pensar, devo ter colocado umas 5 peças de camisetas na mochila aleatoriamente. Eu não conseguia nem mesmo raciocinar, apenas agia no automático como se não estivesse tão próxima do perigo. Abri a janela do meu quarto vendo as luzes da ambulância refletirem pela rua. Passei primeiro a perna esquerda, em seguida a direita e então me desequilibrei e caí lá embaixo. A lateral do meu corpo doeu, fiquei provavelmente um minuto parada com os pensamentos a mil enquanto meu corpo latejava de dor. O chão era repleto de grama macia, mas quando você cai do segundo andar, não tem grama no mundo que amorteça bem a pancada. Levantei com dificuldade e sai correndo mesmo mancando. Passei pelo outro lado enquanto os paramédicos passavam por outro indo atrás de Ruan. Corri como nunca, por ser tarde não tinha ninguém na rua e obviamente não teria táxi, a casa da minha irmã era um pouco longe,mas não desisti. Jamais irei desistir do que eu quero, eu nunca desistiria da minha liberdade, principalmente agora que eu estava tão próxima dela. O sol daqui a pouco sairia, eu já estava quase chegando, já não conseguia nem sentir minhas pernas, cambaleava de um lado para o outro. Já estava com muita sede, mas eu não poderia desistir, meu esforço pode até ser em vão, mas o importante é não desistir. Tudo isso é em vão, já que eu não poderia ficar muito tempo na casa de minha irmã, era só uma moradia provisória enquanto conseguia um lugar para mim. O dia já devia estar amanhecendo, deveria ser umas 6 da manhã. Corri algumas quadras, peguei alguns ônibus. Tudo para fugir de algo que não tinha a menor lógica desde então, não tinha uma boa razão, eu só precisei fugir. Tudo porque não ignorei os gritos da minha mãe na madrugada, e acreditei que fosse uma boa idéia levantar para ir ajudá-la. Olhando em volta vejo algumas pessoas saindo de suas casas, me olhando estranho. Não consigo perceber, mas eu devo estar horrível, em um estado devastador e deplorável. Chego na última rua que me distância do meu destino, de longe consigo ver o enorme portão da casa de Katte e suas enormes plantas de folhas verdes escuras. Cambaleio mais um pouco de um lado para o outro me batendo contra o muro e então finalmente dou os últimos passos até estar de frente a campainha. Elevo meu dedo até o botão da campainha e quando escuto o som dela funcionando, solto o choro que estava preso na garganta desde o momento que saí de casa. Ouço o portão sendo destrancando e é aberto por um homem engravatado que me encara sem muita expressão, é pago para ser durão. — Pois não? — O segurança deu fim ao silêncio. — P-Preciso falar com a m-minha irmã. — Peço quase em um sussurro com a voz embargada. — De quem se trata? — Mia. — Mia do que? — Suponho que ela saiba que o nome da irmã dela é Mia, seu e******o. Então por que está perguntando meu sobrenome!? — Esbravejei já perdendo a paciência com tanta falta de respeito. Minha situação grita por ajuda, minhas expressões e meu corpo gritam. E esse i****a me faz esperar! — Desculpe, aguarde um segundo. — O engravatado pediu. O homem falou com alguém por uma espécie de rádio, então me encarava enquanto provavelmente ouvia algo. O encarei de volta tentando me manter de pé. — A senhorita me acompanhe. — O homem ordenou. Assenti e então ele me deu espaço para entrar, fechou o portão atrás de si e começou a caminhar ao meu lado. Dei alguns passos vendo minha visão escurecer, as pernas cambalearem demais e não sei o que aconteceu. Senti braços fortes me segurarem. — Senhorita!?
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD