Recomeçar.
Fugir de casa pode ser considerada como uma forma de recomeçar? Não sei se sim, mas isso me fez renascer. Pelo menos por um tempo, porque quando lembro que a qualquer momento tudo pode voltar, a sensação passa.
A qualquer momento Ruan pode aparecer aqui, com dezenas de viaturas, ou pode aparecer sozinho. Porém, de um jeito não muito amigável.
Tenho vivido assim desde alguns anos atrás, há muitos anos. Quando meu pai morreu, minha mãe casou com Ruan. Não lembro direito quantos anos eu tinha, mas deveria ser uns 8 ou 9.
— Mia? — Ouço uma voz feminina, calma e muito doce falar comigo. Quer dizer, me chamar na tentativa de me acordar.
Katte balança a mão em frente ao meu rosto, enquanto abro meus olhos lentamente tentando acostumar com a claridade do cômodo.
Aos poucos já posso ver seus olhos fixos de preocupação comigo, e atrás dela uma mulher mais de idade com um pano de prato no ombro.
— Katte. — Respondo um pouco rouca tentando levantar de cima da cama.
— Como está se sentindo?
Levanto por completo o tronco da cama e apoio as costas na cabeceira da cama, Katte me ajuda junto com a senhora colocando algumas almofadas para que eu apoiasse as costas.
— Estou bem.
— Seu rosto está ferido. — Katte aponta.
Elevo os dedos para tocar meu próprio rosto mas os recuo no mesmo instante por sentir tamanha dor.
— É, eu sei... — Faça uma careta pelo incômodo.
— Não vai contar o que aconteceu? — Katte questiona com os braços cruzados me encarando, mas fiquei segundos em completo silêncio a encarando de volta. Ela ainda estava esperando por uma resposta, mas eu não consigo explicar assim, aqui e agora.
Olho para a senhora atrás dela com o pano de prato no ombro ainda nos olhando, escutando a conversa mas sei que não era por maldade.
— Iara, pode preparar alguma coisa para a Mia comer? — Katte pediu quebrando o silêncio.
— Sim, senhora. — Iara saiu andando e sumiu na porta.
— Pronto, e então? — Minha irmã voltou a me encarar.
— Ah, Katte. Você sabe. — Choraminguei escondendo meu rosto nos travesseiros.
— Eu sei, mas não sei o motivo e nem como aconteceu.
— Acordei de madrugada com gritos da minha mãe, fui ajudar, quebrei um vaso na cabeça dele, Ruan me deu uma surra antes de cair duro no chão e minha mãe me obrigou a fugir. — Falei rápido sem muita paciência. — Eu não tenho para onde ir, Katte. Sei que aqui seria o primeiro lugar onde ele vai me procurar, mas eu não sei para onde ir.
— A Kelly, Ben ou Jess não são de confiança?
— Você sabe que a Kelly não é 100% confiável, Ben e Jess são de fora da família então pegaria m*l se eu chegasse lá com a cara quebrada.
— Tem razão.
— Ricardo não está aqui? — Ricardo é marido de Katte.
— Ele passou a noite trabalhando, m*l o vejo ultimamente. — Ela abaixou a cabeça caminhando até mim e sentando ao meu lado na cama.
— Como estão as coisas com Ricardo?
Como eu poderia descrever o Ricardo? Uma xerox m*l feita do Ruan.
Ricardo foi um noivo abençoado por Ruan, ele quem escolheu ele para casar com Katte. É claro e evidente que não preciso explicar o quanto Ricardo deve parecer com Ruan para ter sido escolhido.
— Estão meio... — Procurava as palavras. — Não é tão r**m.
"Não é tão r**m" pode significar várias coisas, como:
1 - Não é horrível, mas também não é minimamente bom.
2 - Não é bom, mas dá para suportar.
3 - Não é bom.
4 - Não é r**m.
— Katte, você pode se livrar disso a qualquer momento, você sabe. Tenho certeza de que você não quer acabar como a minha mãe, isso é humilhante. — A alerto.
— Sei disso, mas não é tão simples como você pensa, Mia. Quer um exemplo? Olhe para você. Você está aqui fugindo de Ruan, mas tem certeza de que não vai durar muito tempo e nem mesmo tem para onde ir ou fugir que seja realmente seguro.
— É, isso foi um grande balde de água gelada. — Resmungo e Katte ri. — Mas eu não pretendo passar muito tempo aqui, está chegando perto da hora dele fazer comigo o mesmo que fez com você.
— O que? Me casar com uma cópia dele? — Katte ironizou me fazendo rir.
— O que Mia faz aqui? — Essa voz grossa e grave me faz tremer de nervosismo igual quando essa voz é emitida por Ruan, se espalha pelo quarto nos tirando da distração, fazendo com que agora realmente congelemos com um verdadeiro balde de água gelada imaginário. Ricardo questiona calmo enquanto afrouxa o nó de sua gravata. — Bem que senti a movimentação diferente, não sei... A casa estava diferente.
Katte estremece até um pouco mais que eu, ela me encara com os olhos entorpecidos de medo. Consigo facilmente identificar o que ela sente através do seu olhar, e o que ela sente é medo.
— Ela irá passar uns dias aqui me fazendo companhia, querido — Katte mente para o marido por mim, enquanto levanta e o ajuda a tirar o paletó.
— Tudo bem, não vai me incomodar em nada. Não é mesmo, Mia? — Ricardo me encara com um sorriso de canto e pisca um olho. — Gosto de trabalhar no escritório em silêncio, então não faça barulhos pela casa. Não sei como é na casa de Ruan, mas aqui é assim.
— Não vou lhe incomodar, eu prometo — Juro enquanto abaixo a cabeça.
— Ei! — Ricardo me chama calmo me chamando a atenção e fazendo com que eu olhe para ele, se aproxima de mim segurando meu queixo. — Por que de uma hora para outra resolveu vir passar um tempo aqui? Fugiu do Ruan? Ele te bateu, não é? Está cheia de hematomas.
— Eu... — Sinto lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto. — Eu estou com medo... Por favor, não conte que estou aqui. É apenas provisório, logo logo... Daqui alguns dias eu sumo daqui, só não conte que estou aqui.
— Calma! Você pode ficar, fique despreocupada. Eu prometo que ele não vai ficar sabendo que você está aqui, e você pode ficar o tempo que precisar. Apenas dê um sorriso e se anime.
— Obrigada! — Falo forçando um sorriso enquanto enxugo minhas lágrimas.
Ricardo sorri por uma última vez para mim e sai do quarto com um sorriso de canto.
— Mia! — Katte me chama com um olhar preocupado enquanto checava a porta com receio. — Você precisará ir embora o quanto antes, você sabe que... Ricardo e Ruan eles... — Katte começa a explicar com um tom de receio.
— Eu sei. — A interrompo enquanto reflito.
Não tem como fugir de verdade, não dá para fugir de algo que faz pague da sua vida.
Eu posso querer muito fugir, mas é impossível para a minha realidade. Como eu fugiria sem dinheiro, com a p***a de um Deus para as pessoas?
Ruan é um dos homens mais conhecidos e ricos desse país, se ele sujar os sapatos as pessoas limpam com a língua. Quem esconderia a enteada do homem mais poderoso do país se ele a estivesse procurando?
E pior, quem me esconderia sabendo que eu cometi um crime. Causei lesões na cabeça dele, meu próprio padrasto que segundo o que as pessoas acreditam, me trata como uma filha.