Renata chegava cedo, mais uma vez. A recepcionista já nem precisava pedir identificação. Os olhares ainda a seguiam pelos corredores, mas agora com um toque de respeito... e inveja.
Leonardo estava em reunião, e Renata aproveitou para organizar sua mesa. Ao abrir uma gaveta de arquivos, encontrou um envelope lacrado com o nome dele. Curiosa, observou a caligrafia: “Confidencial – Somente Leonardo Salles”.
Antes que pudesse reagir, uma sombra caiu sobre a mesa.
— Curiosidade pode ser uma virtude... ou uma sentença, disse ele, surgindo atrás dela.
Renata se virou tão rápido que quase derrubou os papéis da mesa.
— Eu... só estava organizando. Estava na gaveta errada.
Leonardo pegou o envelope, guardando-o no paletó. O olhar dele percorreu o rosto dela lentamente. Não havia julgamento. Havia... algo mais.
— Você sempre tenta controlar tudo ao seu redor? — ela perguntou, encarando-o.
Leonardo:
— Se quer sobreviver aqui dentro, pare de se comportar como uma vítima.
Renata:
— Eu não sou vítima. Mas se você continuar falando comigo desse jeito, vai descobrir que também não sou submissa.
Leonardo (surpreso, mas fingindo frieza):
— Você me diverte... E me irrita ao mesmo tempo. Interessante combinação.
— Você sempre fala como se me conhecesse?
— Talvez eu esteja tentando entender por que um homem tão brilhante age como se ninguém fosse bom o suficiente.
Leonardo ficou em silêncio. Por um instante, o ar ficou denso. A tensão entre eles era quase física.
Ela virou-se para sair, mas ele bloqueou a passagem com o braço, apoiado na porta.
— Você me provoca, Renata. E isso... é perigoso.
— Pra você ou pra mim?
Ele não respondeu. Apenas se afastou, e ela saiu do escritório com o coração martelando no peito.
Era noite, e Renata ainda estava na empresa. Leonardo também. Chuva forte caía lá fora. Ela preparava relatórios quando ouviu a porta da sala dele se abrir.
— Ainda aqui? — ele perguntou.
— Relatórios para amanhã cedo. Pensei que fosse me cobrar se não estivessem prontos.
Leonardo caminhou devagar até a mesa dela. As luzes estavam mais baixas. A tensão era silenciosa, mas pulsante.
— Você me surpreende. A maioria das pessoas me teme. Ou me bajula. Você... me enfrenta.
— Porque eu não sou uma dessas pessoas. E não pretendo ser.
Eles ficaram frente a frente. Ele estendeu a mão, tirando uma mecha de cabelo do rosto dela com um gesto lento.
— Você me confunde, Renata.
— E você me assusta, Leonardo.
Os olhos dele desceram até os lábios dela. Ela não recuou.
Por um segundo... só um segundo... ele inclinou-se.
Mas então, como se acordasse de um transe, ele se afastou.
Renata:
— O que foi isso?
Leonardo:
— Um erro.
Renata:
— Então pare de me olhar como se quisesse cometer esse erro de novo.
— Boa noite, senhorita Vasconcelos.
E saiu, deixando Renata sem fôlego e com o coração disparado.
A semana seguia em ritmo acelerado. Renata, determinada a se destacar, trabalhava dobrado. Já conhecia os hábitos de Leonardo, seus horários e até o humor de cada manhã.
Mas nem mesmo sua dedicação seria o suficiente para prever o golpe que viria.
Isabelle observava tudo com olhos de serpente. Humilhada por ser ofuscada por uma “simples secretária”, planejou sua vingança com frieza.
Na reunião de diretoria daquela manhã, Leonardo precisava de um relatório confidencial — dados financeiros sobre fusões e possíveis fraudes de um parceiro. Isabelle sabia disso... e alterou discretamente o arquivo no sistema, substituindo-o por outro.
— Renata, entregue isso ao Sr. Salles. Ele pediu com urgência, disse, com um sorriso falso.
Renata, sem desconfiar, pegou a pasta e foi direto à sala dele.
Meia hora depois, Leonardo irrompia pelo corredor como um furacão.
— RENATA!
Ela se levantou assustada.
— O que houve?
Ele arremessou a pasta sobre a mesa dela.
— O que é isso?! Você me entregou um relatório cheio de dados falsos! Informações sensíveis trocadas, números errados — isso poderia arruinar negociações que custam MILHÕES!
— Eu só entreguei o que recebi!
— De quem?! — ele gritou, batendo na mesa.
— Da Isabelle! — respondeu Renata, de pé, olhando diretamente nos olhos dele. — Ela me deu esse envelope. Disse que era o que você queria!
Leonardo hesitou. Por um segundo, a verdade parecia se encaixar em sua mente. Mas o orgulho falou mais alto.
— Você é a minha secretária. É sua obrigação conferir. Não confie em ninguém. Não se permita ser usada como isca. E se não consegue lidar com isso... talvez devesse voltar pra calçada de onde veio!
O golpe foi fundo. Os olhos de Renata brilharam com lágrimas contidas, mas sua voz permaneceu firme:
— Você pode ser CEO, Leonardo. Mas hoje... agiu como um covarde.
Ela pegou sua bolsa e saiu do escritório sem olhar para trás, enquanto os demais funcionários fingiam não ouvir nada.
Beatriz apareceu mais tarde com pizza e vinho.
— Você precisa esquecer esse cara. Ele é tóxico. Um babaca com grife.
— Mas por que eu sinto que... tem algo ali?
— Porque seu coração é burro, amiga. E o desejo mais ainda.
Renata não dormiu naquela noite. Pensava no olhar de Leonardo, no tom da voz dele... na dor de ser atacada por alguém que começava a significar algo.
Enquanto isso, na mansão de Leonardo...
Leonardo olhava para a taça de uísque, solitário, lembrando da expressão nos olhos dela.
Carlos bateu na porta.
— Leonardo... descobrimos que foi Isabelle quem alterou os arquivos.
Silêncio.
Leonardo apertou os olhos, tenso.
— Ela mentiu pra mim... mas fui eu quem a machucou.
Carlos hesitou.
— Vai se desculpar?
— Nunca peço desculpas.
Mas seus olhos diziam outra coisa.
Renata entrou na empresa determinada. De salto firme, rosto sério, e um envelope em mãos.
Não havia voltado ali para ouvir desculpas. Nem para brigar. Voltou para colocar um ponto final.
— Bom dia, Carlos. Pode entregar isso ao Sr. Salles? — disse, colocando o envelope em cima da mesa dele.
Carlos a olhou com pesar.
— Você tem certeza disso, Renata? Ele...
— Tenho. Ele me julgou. Me humilhou. E agora que descobriu a verdade... se esconde atrás do orgulho. Eu não trabalho pra alguém assim.
Carlos assentiu, sem discutir. Ela virou-se para sair. Mas Leonardo já vinha em sua direção no corredor.
Leonardo a viu. Parou. Os dois ficaram frente a frente por longos segundos.
— Você veio se despedir? — ele perguntou, frio.
— Não. Vim me libertar.
— Você não é de desistir fácil.
— Não estou desistindo. Estou me respeitando.
Ela tentou passar, mas ele a segurou pelo braço — firme, sem machucar.
— Você está com raiva. Mas um dia vai entender que aqui... nesse mundo, as emoções não têm espaço.
— Mas eu não quero viver num mundo onde sentir é proibido.
Os olhos deles se encontraram. Havia algo quebrado nele. E algo ferido nela.
— Adeus, Leonardo.
Ela saiu. E ele ficou parado, com o envelope na mão, sem coragem de abrir.
Renata voltou ao pequeno apartamento. Beatriz a esperava com um pote de sorvete e a cara de quem sabia o que estava por vir.
— Então acabou?
— Por enquanto.
— Ele não vai deixar você ir assim.
— Se ele vier atrás... vai ser tarde demais.
Na casa de Leonardo...
Leonardo abriu o envelope.
“Carta de demissão – Renata Vasconcelos”
Mas havia um bilhete preso com um clipe:
“Talvez, um dia, você aprenda que confiança se constrói. Não se impõe. Boa sorte com seus números. Renata.”
Ele releu o bilhete várias vezes.
E pela primeira vez... sentiu um vazio que nem o dinheiro, nem o poder, nem os muros que construiu ao redor de si conseguiam preencher.