Renata estava de moletom, cabelo preso de qualquer jeito, com uma taça de vinho na mão e um episódio de série romântica pausado na TV.
— Se a mocinha aceitar aquele i****a de novo, eu juro que desligo — murmurou, afundada no sofá.
O interfone tocou.
— Renata... tem um homem aqui embaixo. Disse que é urgente. Nome: Leonardo Salles.
O vinho quase escorregou da mão dela.
— Como é que é?
— Quer que suba?
Ela respirou fundo.
— Pode mandar subir.
Beatriz arregalou os olhos do quarto.
— NÃO CREIO. O HOMEM SURTOU.
— Fica escondida. Nem respira perto.
Renata abriu a porta. E ali estava ele. Impecável, claro. Paletó escuro, camisa social levemente desabotoada no colarinho. Mas o olhar... o olhar estava diferente. Menos frio. Mais humano.
— Boa noite, Renata.
— Veio me atropelar de novo ou só quer continuar sendo o CEO mais arrogante de São Paulo?
— Na verdade... vim te fazer uma proposta.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Você já recusou a minha carta de demissão?
— Não. Mas quero propor algo novo. Uma função... temporária.
— Temporária? Que tipo de função?
Ele estendeu um envelope.
— Preciso que me acompanhe numa viagem de negócios. Paris. Cinco dias. Uma conferência de executivos. Minha imagem está desgastada, preciso de alguém ao meu lado. Discreta, inteligente... e que saiba me fazer parecer menos insuportável.
Renata cruzou os braços.
— Então quer que eu finja gostar de você em outro país?
— Quero que trabalhe comigo. De verdade. Essa é sua chance de mostrar que pode estar num patamar mais alto. E...
Ele hesitou.
— E talvez seja a minha chance de mostrar que... posso ser diferente.
Silêncio. O clima era denso.
Ela o encarou por longos segundos.
— E o que me garante que você não vai me culpar de novo quando algo der errado?
— Nada. Mas estou aqui. Pela primeira vez, pedi. Não exigi.
O orgulho dele estava engolido. A voz, mais baixa. O pedido... quase um desabafo.
Renata pegou o envelope.
— Eu vou pensar.
— Tem até amanhã de manhã.
Ele virou-se para ir embora.
Mas antes de entrar no elevador, olhou para ela mais uma vez.
— Você ainda me confunde, Renata. Talvez isso seja... o melhor e o pior de tudo.
E partiu.
No silêncio do apartamento...
Beatriz saiu do quarto com a boca aberta.
— Paris, amiga? Com esse gostoso emocionalmente comprometido?
Renata olhava para o envelope, como se segurasse dinamite.
— Isso... tem cheiro de problema. Mas por algum motivo... eu quero ir.
Renata arrumou a mala com o coração disparado. Tentava convencer a si mesma de que era só trabalho, só uma oportunidade profissional. Mas por dentro... sentia que nada seria “só”.
Quando chegou ao aeroporto, Leonardo já a aguardava, elegante como sempre, com uma mala de couro e óculos escuros. Ele a observou de cima a baixo com um leve levantar de sobrancelha.
— Vejo que Paris terá mais brilho do que eu esperava.
— Não vim pra desfilar. Vim pra trabalhar.
— A forma como você entra num ambiente... já é trabalho o suficiente, Renata.
Ela desviou o olhar, mas o coração acelerou.
Durante o voo
Assentos da primeira classe. Conforto total. Mas o clima entre eles estava... tenso.
Renata folheava a pasta com informações da conferência. Leonardo lia o jornal, mas vez ou outra, a encarava por cima das páginas.
— Você sempre é assim... no controle? — ela perguntou, encarando-o.
— Alguém tem que estar. E você... sempre questiona tudo?
— Eu prefiro saber onde estou pisando.
Ele sorriu de lado.
— Talvez, no final dessa viagem, você descubra.
Chegada em Paris
Foram direto ao hotel cinco estrelas, próximo à Torre Eiffel. Quartos separados. Mas o dela era exatamente ao lado do dele.
Renata abriu a janela e se deparou com a vista mais romântica do mundo.
— Ótimo... Paris, a cidade do amor. E eu com o CEO mais emocionalmente bloqueado do planeta.
Mal teve tempo de desfazer as malas, Leonardo bateu na porta.
— Jantar de negócios hoje às 20h. Com um dos maiores investidores da Europa. Preciso de você impecável.
Ela o olhou com ironia.
— Eu sou sempre impecável.
E fechou a porta na cara dele — com um leve sorriso nos lábios.
Jantar à noite
Renata surgiu com um vestido preto de seda que fez até o maître hesitar. Leonardo a olhou por longos segundos. Engoliu seco.
— Você vai distrair todos os investidores da sala.
— Então finja que gosta. É isso que você quer, não é? Uma imagem controlada.
Durante o jantar, Renata surpreendeu. Fluente em francês, inteligente nas colocações, e com uma elegância natural que encantou os convidados.
Leonardo não tirava os olhos dela.
Quando saíram do restaurante, ele a segurou pelo braço.
— Você está me deixando confuso.
— E você está começando a me cansar com esse seu jogo de “não me envolvo com ninguém”.
— Porque é verdade.
— Então por que me trouxe até aqui?
Ele se aproximou. O rosto tão perto do dela que dava pra sentir o calor da respiração.
— Porque você me tira do eixo. E eu odeio perder o controle.
— Talvez... seja hora de você deixar alguém bagunçar um pouco seu mundo perfeito.
Silêncio. Eles se encararam. A cidade luz girando ao redor.
Mas antes que qualquer coisa acontecesse... Renata virou-se e entrou no hotel.
Deixando Leonardo sozinho na calçada, olhando para a noite parisiense — e sentindo que estava à beira de algo que jamais viveu antes.
A madrugada em Paris estava silenciosa. O quarto de Renata iluminado apenas pela luz da cidade que entrava pela janela. Mas o coração dela… esse, estava barulhento.
O toque na porta foi firme, mas não desesperado.
Ela abriu sem pensar.
Leonardo estava ali. Sem paletó, a camisa branca com os dois primeiros botões abertos, olhar tenso… e algo mais.
— Aconteceu alguma coisa? — ela perguntou.
— Sim.
— O quê?
— Eu.
Renata arqueou uma sobrancelha, mas antes que pudesse dizer algo, ele entrou e fechou a porta atrás de si.