Convite Irrecusável

1022 Words
Renata estava de moletom, cabelo preso de qualquer jeito, com uma taça de vinho na mão e um episódio de série romântica pausado na TV. — Se a mocinha aceitar aquele i****a de novo, eu juro que desligo — murmurou, afundada no sofá. O interfone tocou. — Renata... tem um homem aqui embaixo. Disse que é urgente. Nome: Leonardo Salles. O vinho quase escorregou da mão dela. — Como é que é? — Quer que suba? Ela respirou fundo. — Pode mandar subir. Beatriz arregalou os olhos do quarto. — NÃO CREIO. O HOMEM SURTOU.  — Fica escondida. Nem respira perto. Renata abriu a porta. E ali estava ele. Impecável, claro. Paletó escuro, camisa social levemente desabotoada no colarinho. Mas o olhar... o olhar estava diferente. Menos frio. Mais humano. — Boa noite, Renata. — Veio me atropelar de novo ou só quer continuar sendo o CEO mais arrogante de São Paulo? — Na verdade... vim te fazer uma proposta. Ela arqueou a sobrancelha. — Você já recusou a minha carta de demissão? — Não. Mas quero propor algo novo. Uma função... temporária. — Temporária? Que tipo de função? Ele estendeu um envelope. — Preciso que me acompanhe numa viagem de negócios. Paris. Cinco dias. Uma conferência de executivos. Minha imagem está desgastada, preciso de alguém ao meu lado. Discreta, inteligente... e que saiba me fazer parecer menos insuportável. Renata cruzou os braços. — Então quer que eu finja gostar de você em outro país? — Quero que trabalhe comigo. De verdade. Essa é sua chance de mostrar que pode estar num patamar mais alto. E... Ele hesitou. — E talvez seja a minha chance de mostrar que... posso ser diferente. Silêncio. O clima era denso. Ela o encarou por longos segundos. — E o que me garante que você não vai me culpar de novo quando algo der errado? — Nada. Mas estou aqui. Pela primeira vez, pedi. Não exigi. O orgulho dele estava engolido. A voz, mais baixa. O pedido... quase um desabafo. Renata pegou o envelope. — Eu vou pensar. — Tem até amanhã de manhã. Ele virou-se para ir embora. Mas antes de entrar no elevador, olhou para ela mais uma vez. — Você ainda me confunde, Renata. Talvez isso seja... o melhor e o pior de tudo. E partiu. No silêncio do apartamento... Beatriz saiu do quarto com a boca aberta. — Paris, amiga? Com esse gostoso emocionalmente comprometido? Renata olhava para o envelope, como se segurasse dinamite. — Isso... tem cheiro de problema. Mas por algum motivo... eu quero ir. Renata arrumou a mala com o coração disparado. Tentava convencer a si mesma de que era só trabalho, só uma oportunidade profissional. Mas por dentro... sentia que nada seria “só”. Quando chegou ao aeroporto, Leonardo já a aguardava, elegante como sempre, com uma mala de couro e óculos escuros. Ele a observou de cima a baixo com um leve levantar de sobrancelha. — Vejo que Paris terá mais brilho do que eu esperava. — Não vim pra desfilar. Vim pra trabalhar. — A forma como você entra num ambiente... já é trabalho o suficiente, Renata. Ela desviou o olhar, mas o coração acelerou. Durante o voo Assentos da primeira classe. Conforto total. Mas o clima entre eles estava... tenso. Renata folheava a pasta com informações da conferência. Leonardo lia o jornal, mas vez ou outra, a encarava por cima das páginas. — Você sempre é assim... no controle? — ela perguntou, encarando-o. — Alguém tem que estar. E você... sempre questiona tudo? — Eu prefiro saber onde estou pisando. Ele sorriu de lado. — Talvez, no final dessa viagem, você descubra. Chegada em Paris Foram direto ao hotel cinco estrelas, próximo à Torre Eiffel. Quartos separados. Mas o dela era exatamente ao lado do dele. Renata abriu a janela e se deparou com a vista mais romântica do mundo. — Ótimo... Paris, a cidade do amor. E eu com o CEO mais emocionalmente bloqueado do planeta. Mal teve tempo de desfazer as malas, Leonardo bateu na porta. — Jantar de negócios hoje às 20h. Com um dos maiores investidores da Europa. Preciso de você impecável. Ela o olhou com ironia. — Eu sou sempre impecável.  E fechou a porta na cara dele — com um leve sorriso nos lábios. Jantar à noite Renata surgiu com um vestido preto de seda que fez até o maître hesitar. Leonardo a olhou por longos segundos. Engoliu seco. — Você vai distrair todos os investidores da sala. — Então finja que gosta. É isso que você quer, não é? Uma imagem controlada. Durante o jantar, Renata surpreendeu. Fluente em francês, inteligente nas colocações, e com uma elegância natural que encantou os convidados. Leonardo não tirava os olhos dela. Quando saíram do restaurante, ele a segurou pelo braço. — Você está me deixando confuso. — E você está começando a me cansar com esse seu jogo de “não me envolvo com ninguém”. — Porque é verdade. — Então por que me trouxe até aqui? Ele se aproximou. O rosto tão perto do dela que dava pra sentir o calor da respiração. — Porque você me tira do eixo. E eu odeio perder o controle. — Talvez... seja hora de você deixar alguém bagunçar um pouco seu mundo perfeito. Silêncio. Eles se encararam. A cidade luz girando ao redor. Mas antes que qualquer coisa acontecesse... Renata virou-se e entrou no hotel. Deixando Leonardo sozinho na calçada, olhando para a noite parisiense — e sentindo que estava à beira de algo que jamais viveu antes. A madrugada em Paris estava silenciosa. O quarto de Renata iluminado apenas pela luz da cidade que entrava pela janela. Mas o coração dela… esse, estava barulhento. O toque na porta foi firme, mas não desesperado. Ela abriu sem pensar. Leonardo estava ali. Sem paletó, a camisa branca com os dois primeiros botões abertos, olhar tenso… e algo mais. — Aconteceu alguma coisa? — ela perguntou. — Sim. — O quê? — Eu.  Renata arqueou uma sobrancelha, mas antes que pudesse dizer algo, ele entrou e fechou a porta atrás de si.
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