De volta ao Brasil, os dias seguintes foram silenciosos entre eles. Renata mergulhou no trabalho, tentando se distrair, enquanto Leonardo voltou a se esconder atrás de reuniões e compromissos.
Mas na sexta-feira à tarde, um e-mail apareceu em sua caixa de entrada. Assunto:
“Hoje. 20h. Não como sua chefe. Apenas como homem. – Leonardo”
No corpo da mensagem, só havia o endereço de um restaurante elegante, discreto, no centro da cidade.
Renata hesitou por alguns minutos. Depois respondeu:
“Estarei lá.”
O restaurante era sofisticado, mas acolhedor. Iluminação baixa, velas na mesa. Leonardo já a aguardava, com uma taça de vinho tinto na mão e um olhar menos carregado do que o habitual.
— Você veio, ele disse, com um meio sorriso.
— Eu disse que viria. — Ela se sentou, elegante, confiante, mas com o coração acelerado.
— Obrigada por isso, ele completou.
O garçom trouxe os pratos, discretamente. Eles falaram de Paris, da empresa, riram de pequenas situações… mas Renata sabia que o momento real ainda não tinha chegado.
Até que Leonardo a encarou, sério.
— Lembra quando eu disse que minha ex-noiva morreu?
Renata assentiu, o olhar firme.
— O que eu nunca disse... é que ela morreu por minha causa.
Ela sentiu o coração gelar.
— Como assim?
Leonardo baixou o olhar por um momento. Depois voltou a encará-la.
— Ela estava grávida. Eu... fui covarde. Disse que não queria aquele filho. Disse que o casamento não era o que eu esperava. Nós brigamos. Ela saiu de carro... e naquela noite, sofreu o acidente.
Renata levou a mão à boca, chocada.
— Você nunca contou isso pra ninguém?
— Meu pai abafou tudo. Usou dinheiro, poder, influência. Pra imprensa, foi apenas uma fatalidade. Mas eu sei. Eu destruí duas vidas naquela noite.
Ele respirou fundo, os olhos marejando pela primeira vez.
— Desde então, eu me fechei. Achei que nunca mais poderia me envolver com ninguém. Até você.
Renata permaneceu em silêncio por alguns segundos. Depois pegou a mão dele sobre a mesa.
— Você cometeu um erro terrível. Mas está aqui, lidando com isso. Não tentando fugir. Isso te torna mais humano do que qualquer máscara que você usou esse tempo todo.
Leonardo a olhou como se aquela fosse a primeira vez que alguém não o julgasse — que visse além da culpa.
— Você não tem ideia do quanto é diferente, Renata.
Ela sorriu, com ternura.
— Talvez seja por isso que você não consegue fugir de mim.
E naquele instante, entre taças de vinho e verdades nuas, algo mudou de vez entre eles.
O que antes era atração, desejo, admiração… agora ganhava o nome que ambos ainda tinham medo de dizer:
Sentimento.
A manhã começou como qualquer outra. Renata saiu cedo, cabeça ainda nas palavras de Leonardo durante o jantar da noite anterior. Era como se, pela primeira vez, ela enxergasse o homem por trás da armadura.
Mas o que ela não sabia... é que naquele mesmo momento, alguém do passado acabava de chegar em São Paulo.
No saguão do luxuoso Hotel Dom Felipe, uma mulher de cabelos escuros, óculos escuros grandes cobrindo o rosto e uma mala discreta nas mãos se identificava na recepção.
— Helena Vasconcellos.
O recepcionista congelou por um instante. O nome... estava registrado no sistema como "falecida". Mas o rosto — ainda que um pouco diferente, mais magro, mais tenso — era o mesmo das fotos antigas.
— Quarto reservado em nome de Leonardo Salles, ela completou, tirando os óculos e encarando o funcionário com frieza.
Leonardo estava em reunião quando recebeu a notificação no celular. Uma mensagem anônima.
"Ela está viva."
Abaixo, uma foto. Atual.
Helena. Na portaria do hotel onde costumavam passar os finais de semana.
Ele empalideceu. A respiração travou.
Renata, que passava pela sala, notou o pânico nos olhos dele.
— Está tudo bem? — ela perguntou, preocupada.
Ele hesitou. Depois levantou-se bruscamente.
— Preciso sair. Agora.
— Leonardo! O que aconteceu?
Mas ele já estava saindo pela porta, coração batendo como nunca.
Leonardo entrou no saguão ofegante, o terno desalinhado. O recepcionista tentou impedi-lo, mas foi em vão. Ele sabia exatamente onde ela estaria: no mesmo quarto em que passaram o último fim de semana juntos… antes do acidente.
A porta estava entreaberta.
E ali, sentada à beira da cama, como se o tempo nunca tivesse passado, estava Helena.
— Você não está morta… — ele disse, num sussurro incrédulo.
Ela ergueu os olhos, frios, distantes.
— Você achou mesmo que eu morreria assim? Sem dar minha versão da história?
Leonardo sentiu o mundo girar.
— Mas… por quê? Onde esteve? Por que desapareceu?
Helena se levantou, andando lentamente até ele.
— Porque o acidente foi a desculpa perfeita. E porque... eu precisava fugir de você.
Silêncio.
— Você destruiu minha vida, Leo. Mas agora, eu voltei. E você vai ouvir tudo que me negou naquela época. Inclusive… sobre o filho que você achou que perdeu.
Leonardo cambaleou para trás, como se tivesse levado um soco.
— Filho...?
Helena sorriu. Um sorriso amargo.
— Sim. Ele está vivo. E ele sabe quem você é.
Enquanto isso…
Renata recebia uma ligação de número desconhecido.
— Cuidado com Leonardo, Renata. O passado dele não está enterrado. E pode levar você junto quando explodir.
Antes que pudesse perguntar quem era, a ligação caiu.
O pressentimento apertou no peito.
Algo muito maior estava por vir…
Leonardo ainda estava em choque.
— Você está dizendo que... nosso filho está vivo? — ele repetia, tentando processar o que Helena acabara de revelar.
— Sim. E tem doze anos agora. Eu o criei sozinha, fora do país. Longe do seu mundo, da sua frieza, da sua culpa.
— Mas por que nunca me contou? Por que me deixar acreditar que ele havia morrido com você?
Helena o encarou, olhos duros.
— Porque eu não confiava mais em você. Porque você foi covarde quando mais precisei. E porque... seu pai me ofereceu dinheiro para desaparecer.
Leonardo recuou um passo, como se tivesse levado outro golpe.
— Meu pai...?
Helena assentiu lentamente.
— Sim. Ele queria proteger sua reputação. Queria que você se tornasse o herdeiro perfeito. Um escândalo arruinaria tudo. Então eu aceitei. Fui embora. Mas agora… o jogo mudou.
— Por que agora, Helena? Por que voltar?
Ela deu um meio sorriso amargo.
— Porque o seu pai está morrendo. E seu filho tem direito ao nome que carrega. E porque você finalmente se apaixonou. Quero ver como você lida com isso agora
Enquanto isso, Renata...
Perturbada com a ligação anônima, Renata decidiu investigar. Começou pela internet, buscando o nome “Helena Vasconcellos” em registros de óbito — e não encontrou nada oficial.
Depois ligou para um antigo contato do RH da empresa. E foi aí que soube:
“Helena nunca teve a morte registrada formalmente. Houve apenas um comunicado interno. E o nome dela foi apagado dos registros.”
O estômago de Renata revirou.
Tudo isso havia sido encoberto.
No fim da tarde, Renata foi até o apartamento dele. Precisava confrontá-lo. Precisava de respostas.
Leonardo abriu a porta, abatido. Os olhos vermelhos denunciavam que ele tinha chorado.
— Ela está viva, Renata, ele disse, antes mesmo de ela perguntar.
— Eu sei. E sei sobre o filho também.
Leonardo a encarou em silêncio.
— Você ia me esconder?
— Eu não sabia como. Tudo isso me atingiu como um terremoto. E a pior parte… é que meu pai sabia. Ele pagou pra ela sumir. Meu próprio pai.
Renata se aproximou, mais suave.
— E o que você vai fazer agora?
— O que eu devia ter feito há doze anos. Procurar meu filho. Conhecê-lo. Mas... também quero lutar por você.
Ela tocou o rosto dele.
— Só tem um problema, Leonardo.
— Qual?
— Seu passado está batendo na porta... e eu não sei se ele vai entrar apenas para te lembrar de quem você foi… ou para destruir quem você está tentando ser comigo.
E longe dali... Helena fazia uma ligação.
— Ele mordeu a isca. O reencontro com o filho vai ser em breve.
— Ótimo, respondeu uma voz masculina do outro lado da linha.
— Continue com o plano. Em breve, a Salles Corporation será nossa.